Sentou-se no exílio leitoso, interminável, onírico. Viu a luz desaparecer, piscar, justamente para se perder outra vez. Quão deletério, mas, sem dúvidas, prazeroso, era o exílio. Tanto sinal de fraqueza, se esconder ali, deitar-se no peito duro, esconder a face, se debruçar sobre tantas divagações, vastas, imperfeitas. A mente desmantelando-se em confusão, querendo achar onde se perdera. Materialização da racionalidade, não conseguia aceitar a fraqueza da alma. Para tudo isso, os prazeres carnais, ignominiosos. O alheamento de tudo, de todos, era o que sentia; agora, desprezava, odiava as criaturas indefesas e, por isso, chorava. Desprezo às provações, às palestras triviais, à mediocridade aceita, à tolerância excessiva, à idiotice e ao barbarismo, às frivolidades e, assim, a lista se estendia, infinita, desagradável, ofensiva. Pra que tanto anacoluto? Pra que o exílio, afinal? Havia se cansado, então, de tolerar as palestras, queria que todos fossem ignotos?
Por que o corpo não se satisfaz com o que a alma se satisfaz? Têm realmente que estar em constante antítese? Desmantelou-se, ensandecidos pensamentos, “espiralantes”, ilógicos. Cansara de se sentar à janela, cansara de observar as estrelas, já não lhes suportava mais o brilho. Ah! Como a tristeza traz a fealdade à face, mesmo a mais bela, como torna os semblantes aberrantes; a pele avermelhada de irritação com o sal das lágrimas, nariz inchado, aparência pateticamente infeliz, os olhos caídos, também vermelhos. Aos amantes, a distância. Aos viciados, a proibição de seus vícios. Aos gênios, a negação social, por silogismo, mundial. Aos feios, o desprezo. Aos belos, a inveja. Aos ricos, as acusações. Aos pobres, a falta de perspectiva, a negação.
Breve apagar de luzes, a deixar loucos, doentes, parvos, idiotas perderem-se; os poucos que, ao menos exílio têm, se consolam debruçados no frio e duro peito, que nada tem de ofegante, rubro, nada tem de vida.
(...) Aos pecadores de incomensuráveis pecados, o purgatório.
(...) Sonhos dementes, sonhos solitários: “é o lobo na estepe”.
(...) Materialização da tristeza.
O exílio foge, dissipando-se cansado, como comensal, se alimentou de toda força racional, o que sobrou: O vácuo de vastas emoções {memórias} e pensamentos imperfeitos {o incomensurável resquício do pecado dos líricos, poetas e amantes}.