quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sem Pauta

Olhando para a janela, a chuva ainda cai
Olhando para o chão, os arranhados de outro dia
E, assim, as mãos passavam mais uma página
E os olhos já caíam também, ébrios de palavras
Enfarados de linhas fátuas, ansiando por serem surpreendidos
Que guarda aquele espírito só?
Com memórias empoeiradas, de olhar turvo, feição longínqua?
Fechou os olhos.
A chuva parou.
Lá fora, os pássaros voam ao redor dos prédios,
O vento chicoteia os transeuntes,
O tempo urge chamando o início de noite.
E todos eles são vistos por outro olhar,
Assim de alheamento, assim de indiferença, assim de científico, assim de crítico, assim de criterioso.
Olhar diverso daquele outro que agora está fechado, inerte sob as pálpebras adormecidas  e frias. [de uma Sem Pauta]


sábado, 3 de dezembro de 2011

Satisfações à Grei

Vento seco, ânimo enfarado, jardim enfermo. Mais algumas parcas lágrimas sendo desperdiçadas ao sabor das desilusões. Céu muito azul, de nuvens dispersas: contraste ao ente. Entidade primitiva, anacrônica, conceda-me o perdão! Descrição do ser: entropia espiritual e mental, debilidade física.  Mais escassa do que a esperança, somente a palavra.  Seio maternal, acolhedor, versado em julgamento criterioso da probidade alheia, conceda-me o perdão?
A andar um pouco mais- somente uma observação- o céu torna-se mais semelhante ao espírito do massacrado. São muitos os grilhões para pouca existência. Candidez, agravadora da impotência do massacrado, desaparece, pois não é bem vinda. Malogro, fique, para que alerte os sentidos.
Ainda a andar por esses estreitos e tortuosos caminhos, em algum momento, o ente é excluído, a luz pisca fracamente, não quer tornar acesa. Junto a ela, esvai-se também todo o ardor e, assim, definha cada parte do ser. Onde está aquela necessidade insopitável de soberania da vida sobre a exclusão límbica? Perdeu-se em alguma encosta, em algum vale, ou até mesmo naquele jardim mofino.
O Derrotado, ou o assim rotulado, ao final de seu percurso, somente ao final, baixa a cabeça, não por desistência, não por consentir seu rótulo; ele baixa para retirar os grilhões. Torna a erguer a cabeça e olha o céu, reflexo de seu espírito, assim todo despedaçado, assim todo calejado, assim todo com ar de tempestade encerrada. Ele olha o céu, ar pueril, assaz leve. O vento cálido beija sua face; experimenta a leveza por um “instante-já” (permitam-me este furto). É final de percurso.
Satisfações à Grei: tu és câncer moral, físico e espiritual e aquele a quem consideras um Derrotado, nessa restrita realidade terrena, essencialmente fátua, é, na verdade, um Vitorioso.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

As estrelas já foram todas contadas

Sentado em cadeira de balanço, rosto bexiguento, nariz adunco, aposentado. Lia um romance chinfrim, contemporâneo. Tinha aversão a produções artísticas contemporâneas. Para ele, autores contemporâneos eram falhas imitações dos verdadeiros talentos, nada mais eram do que cópias extremamente mal feitas, adaptadas a uma realidade de ignotos. Amargo, sempre amargo, eterno insatisfeito.  Casmurro, melancólico, ranzinza, excessivamente austero, de poucas palavras; detestava doces, principalmente aqueles de compota, eram quase como a vida: no início, bonitos, cheios de viço, extremamente doces; no final, cheios de uma água azeda, amarga. Com efeito, um ilhado, calejado de amor não correspondido, modelo do pessimismo. Olhou pela janela, todas aquelas flores oferecendo seu perfume, aquele mato hirsuto, aquele horizonte deserto. Já bebera de todas as bebidas, já lera todos os livros, já pintara todos os quadros, já regara todas as plantas, já queimara toda a lenha, já enxugara todos os copos, já comera todos os pratos, já aprendera a costurar de todos os modos, a falar todas as línguas. Não amara. Quer dizer, amar, amou. Perversas são as circunstâncias, enervantes condições que nos impõe essa vida que, mesmo longe de ser Severina – tinha uma casa, comida e bebida à farta, livros, cama boa, conforto, sua horta, sua terra, seu céu... - era dura.  Era dura de uma forma curiosa: ao mesmo que fornecia tudo, não fornecia nada e continuava assim, nessa dicotomia. Ficava sempre à espera de mudança, novidade, mas as chuvas choviam, as primaveras passavam, e a vida mesma, monótona, cava. Que podia ele ver naquele véu espesso que é o destino? Nada. Mesma rotina de vida vazia, coração inerte, cabeça cheia, olhos diáfanos.
Já viajara a todos os países, já conhecera todas as culturas, já frequentara todas as festas. Nada, novamente. Sentara-se todas as noites, olhara as estrelas, engendrara planos dos mais maquiavélicos: queria mudança, mesmo que parca, mesmo que débil. Não via mais a vida com olhos cândidos fazia tempo, não mais lia Huxley com espírito arguto e, muito menos, palestrava apaixonado. Os Césares, Augustos, Plínios, Fermat consistiam apenas na necessidade insopitável de a vida perpetuar sobre o desejo de fim, de exclusão límbica.

Que podia ver ou esperar o rosto bexiguento através do espesso véu se até todas as estrelas foram contadas?



terça-feira, 8 de novembro de 2011

A mim me pergunto e me afirmo

A mim me intriga e enraivece este,
Se é que posso chamar assim, fenômeno
Em que são os sentidos- instintos famintos- os eternos guias
Nesse fenômeno de selvagens, em que tudo se compartilha:
Sexo, gesto, olhar, triunfo, tristeza e até última melodia.
Nesse que, apesar de tanta selvageria, é aspiração de toda vida
É pupilo de poeta, e paz nenhuma jamais será obtida 
É perturbação pra toda biografia.
A mim me satisfaz ser objeto de pesquisa
A mim me pergunto
Pesquisa cruel, não?
Pergunta essa que atravessa a história em enervante lentidão.
Pobre deste tão bonito, singular fenômeno
Já transformado por muitos em indignante devassidão
A mim me afirmo: Esse fenômeno é de difícil definição
Mas agora achei uma que lhe cabe com perfeição:
Perversa distração

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Aliquid de Infelici

Num dente de leão, encontrei felicidade já ausente,
Naquele prazer silente
Naquela dispersão das mais leves sementes,
Fazendo daquele ritmo balouçante uma música,
Música de doçura estática,
Numa simplicidade verdadeiramente recatada
Encontrei o nada dolente, que, insistentemente,
Fazia-se eterno consciente [e, num louco desespero]
Obliterei todos os sentidos
Que tanto se colocavam anvidos [antes estavam num estado prócero]
Agora estão alígeros, numa lepidez constante
E meu verdadeiro desejo é que assim fiquem,
Com rútilo de tristeza,
Com toda aspereza,
Com bastante crueza,
Sem nenhuma Leveza.



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

História de Amanhecer

Nunca inveterada poetisa,
Mas aquiesço que essa história de “o entardecer” é pura falácia;
Porque a felicidade vem é no amanhecer, na febre corporal dos amantes
Que têm o sol ainda esquentando o acalentar dos gestos [doce ária do amor]
Sol que novo, que embebido com o curioso sentimento, [sendo este fescenino ou não]
Que pode ou não ter sido obliterado por muito tempo
Torna-se refúgio incólume, protegendo tanto sentimento [seria pura ilusão?]
Que pode trazer tanto tormento, tanta aflição
Entardecer é o cenário dos fins, onde se abrigam as tristezas
Onde se refugiam os recalcitrados, os solitários [no mirante, ao final da tarde, só eles são encontrados, nunca um casal de enamorados]
Que recolhidos na sua intrínseca reflexão
Perdem-se em sua constante e divagante alienação
Nego todo o lirismo que se afirma no entardecer,
Pois sua origem, na verdade, é no amanhecer
Nesse, que nada pode se conceber
Além da doce alegria de viver amor
Este que nasce do nascer        
Do primeiro inócuo raio dourado, que, assim como gente, ao nascer, é ingênuo, belo e imaculado
Então, num silogismo entrópico [porque o próprio amor o é], as melhores histórias são
As histórias de Amanhecer
Então, para que, eu me pergunto, para que é o Entardecer?


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

De sob a macieira, um ensaio sobre a leveza

Sob aquela mesma macieira, daquele outro Amanhã, a leveza lhe alcança, paira ali, logo diante dos olhos e se alonga preguiçosamente nos músculos, nos pensamentos. No horizonte, o eterno brilho do amanhecer. Porque o amanhecer lhe dava uma boa sensação, com aquela brisa meio fria, meio quente, balouçando de leve os frutos, os fios de cabelo. E, naquela cor rosada, iluminada, o consolo, o desaparecimento do Peso. Os pensamentos eram excludentes. O medo da perda do monopólio do amor já havia desaparecido. Logo em seguida, foi a fome. Não que não se sentisse mais fome, mas a verdade era que começava a se alhear a ela. Havia ainda a afirmação (dos pessimistas) que era o Peso quem conferia significado à vida. Mas, na verdade, o que implica esse Significado?
Subentende a infelicidade ou é a Leveza que subentende a felicidade? Tal como o hélio, divagações e devaneios subiam e se perdiam no nada, naquele balouçar das árvores, naquele horizonte decadentemente iluminado. A grama estava fria, meio molhada, devia ser o orvalho que nasce na madrugada, filho do frio e do vento.
Mas a Leveza também valia à pena? Ser alheio, indiferente, desapegado aos compromissos, manipulador do amor... É válido e subentende a felicidade ou subentende apenas a sobrevivência emocional?
Mas a Leveza é tão atraente... Olha com olhos tão singelos, bondosos, fornece-nos refúgio incólume do Peso, que tanto nos prende em pesadíssimos grilhões.
 O pouco que se lembrava era aquele outro amanhã, pautado pelo ar quase ascético, pela ausência da dor e da Dor, do pranto, da fome, do cansaço, do sono, da infelicidade, da felicidade... O horizonte dourado abrangia cada vez mais o resto do azul frio, sem nenhuma nuvem, o sol fazia os olhos e a mente se fecharem naquela eterna dicotomia.
Porque Leveza é a ausência do Peso e o Peso é a ausência da Leveza; por isso, tanto Peso como Leveza são insustentáveis para o ser.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

As figuras pictóricas

O pintor inclinava a cabeça, de um lado a outro, sentado no divã vermelho. Os sapatos jogados pelo ateliê, a gravata frouxa em seu pescoço e a camisa branca já toda amassada da noite que havia passado davam-lhe um aspecto desleixado. Na janela principal do ateliê- aquela tão grande que mais parecia uma porta- viam-se os primeiros raios de sol nascendo, pintando o céu de um rosa decadente, angustioso. Nas suas narinas, o cheiro do orvalho. As maçãs do rosto começavam a arder de frio. Os olhos eram a única parte do corpo que estava compenetrada na sua ação: o pintor, com os cabelos oleosos, olhava extático o quadro inacabado que estava postado bem à sua frente. E ele permaneceria inacabado. E por quê? Porque, dessa vez, não havia mãos quentes e singelas para brincar com os cachos da moça. Porque o rubor da carne se extinguira em toda sua selvageria nas noites em que os tecidos lautos da cama foram confundidos com os corpos. Porque os amantes haviam se cansado, porque os lábios deles não mais fremiam de amor. Porque não tiveram onde guardar seus sentimentos. Porque os fragmentaram. Talvez, ainda, os lábios fremissem, os corpos enrubescessem, talvez ainda pudessem ser selvagens, mas já não tinham espaço para isso.
Era digna de comiseração a tristeza sentida pelo pintor, sua decepção. Moldou o quadro à sua forma, confiou-lhe as emoções, esperanças. E, de certa forma, mesmo inacabado, o quadro era bonito. Na pele branca da moça, macia, um rubor para lhe decorar as faces, como um pêssego. Os grandes cachos castanhos espalhados, emaranhados na outra face, dura, de traços firmes, que, através dos raios do sol, adquirira uma cor tal como o cobre. O quadro tinha uma sutileza incrível, que deixaria qualquer crítico extasiado. Mas, para o pintor, isso só seria possível se tivesse terminado sua obra. Na sua reserva recalcitrada, lançou um olhar de ódio a seu quadro.
O horizonte determinava sobre a grande janela a cor âmbar, e as personagens pictóricas se deleitavam em sua eterna, restrita e parca realidade.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Amor à Babel

Amor à Babel
Se os “Contos de Odessa”, ou “A Cavalaria Vermelha” se perdem em aforismos
Meu amor se perde do seguinte modo:
Um querer de ti, na concisão intrínseca da tua boca,
De um agir luxurioso ao tocar na cor macia, indecifrável, puxá-la, na verdade
Na gravidade e no turvo do meu olhar, às vezes, o ódio anda por lá
Mas é ódio que brota do amor e quando vê a quem o coração pertence, se desmancha
Na loucura, a razão do ódio e do amor
No intelecto, a razão da desconfiança e frieza
Na arrogância, mecanismo de autodefesa
Deitas-te no meu peito e escutará o meu coração bater de uma forma leve,
Não por falta de amor, mas porque quem ama nervosamente não ama
E se a noite se encerra nos meus parcos beijos, é porque não posso mostrar saudades imediatas dos teus lábios
[Mas tem sinceridade. E Amor. E concisão, porque amor se sente, não se explica, porque ele é aforístico e confuso em toda sua forma intrínseca de ser]
E tudo quanto quero dizer-te é: Amo-te. [Na digna concisão de Babel]. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Um Ensaio sobre o Egotismo e minha Desafetação

Já anoitece, finalmente. Às vezes, os dias são prolixos demais, à semelhança das pessoas. Com a prolixidade humana, o fastio nos atinge muito mais veemente e rapidamente. Seria presunção da minha parte tomar considerações “huxleryanas”? Sem dúvidas, Huxley estava certo quando afirmou que nós não podemos moldar gostos que não apetecem ao nosso espírito, ou, em casos mais céticos, ao intelecto. O motivo da prolixidade dos dias e do fastio é exatamente esse. A necessidade de idolatria, de ter um pedestal aos pés, de obter a admiração, mesmo que parca, torna o ente um enganado e um enganador. Existem tantas coisas que afligem o ser humano nesse século, inclusive coisas latentes. Cresce o egotismo. Cresce também minha desafetação. As palestras de teor intelectual e filosófico espontâneos, agora acontecem como se fossem a exposição da intelligentsia nata, original, mas, na verdade, não passam de um conhecimento adquirido artificialmente. É preciso que um ser com um pouco mais de argúcia e aversão a valores forjados inicie o desmascaramento das falsas identidades e gostos, com sutileza, sempre. Não há nada mais perverso do que alguém que trata o conhecimento como uma feira de exposição, que o engole para depois vomitar, não sejamos tais como Molly D’Exergillod. O resultado da “imbecilização” mundial é a aleivosa valorização dos entes enganadores, nada mais, o que nos leva, tristemente, à mediocridade, não só espiritual, como intelectual.
O mundo não deve olhá-los como esperança ou consolo, deve lhes fornecer o triste olhar de comiseração. São patéticos em seu comportamento e pensamento, somente dignos de dó. A minha desafetação cresce, se enche de uma sutileza irracional e, no rosto, o sorriso de escárnio.
Mais imbecil do que o próprio egotista, só aquele que o apóia, aquele que o elogia, aquele que o “envaidece”. O verdadeiro intelecto está doente, deprimido; conseguiram destruí-lo.
Prefere-se fechar os olhos durante a prolixidade dos dias, das pessoas e da mediocridade. São feirantes, alardeadores, não gênios ou sábios. Vamos esperar até que o sol nasça de novo e nos intumesça não só com o bom senso, mas também com o senso do ridículo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cara, minha cara Melancolia

Sobre a cama de tecidos lautos, deliciavam-se com pensamentos ditos ignominiosos, infames, parvos ou, até mesmo, néscios. Com o ar pesado e quente pairando sobre os tecidos e sobre as carnes rubras, com o cheiro enjoativo de lírios e, ainda mais, com os zumbidos das abelhas, ávidas por néctar, a Melancolia se instalou pesada sobre o ambiente. Por isso, por essa própria Melancolia, fazia de tudo [importante notar o fazia; nesse contexto, é atitude de só um ser] para prender, entregar de bandeja o seu alvedrio. “Cara Melancolia, pensava, por que te instala pós a grande morte espiritual?” [antitética frase; a coragem se estabelece, a partir de agora, em demasia]. Cara mesmo, que importante instrumento de autodefesa, contudo de recrudescimento da paranóia já conhecida. Como estava quente, agitados eram os sonhos, profundos, guardados numa caixa quase impenetrável. Na vitrola, disco de dia anterior: Caruso, com suas árias enlouquecedoras.
Qual é a nova doutrina? Que se extingam as satisfações obrigatórias à grei, mormente se antitéticas aos desejos do espírito, da carne ou da mente.
Criatura estóica como o era, suportava as diversas árias, sinfonias de saudade; duelos travava consigo. Incólume nunca estaria, nem no abrigo das palavras.
Melancolia fazia visitas constantes, vinha de surpresa, arrematava os triunfos do dia, saía deixando a pele macilenta, os dedos cada vez mais magros, frios, acabando com os dias rubros.
“Melancolia, cara Melancolia, só quero que te faça minha amiga
Não que me deixeis lívida, vazia ou fria;
Quero que te faças, Melancolia, somente, minha cara amiga”.
A última ária tocou, dormem em paz sob a o brilho abençoado do luar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Promessa

De agora em diante prometo
Em cada suspiro que eu der
Não ser nenhum destes dedicados a você
Prometo que não possuirá nenhum brilho de meus olhos
Prometo não possuirá um toque de minha pele
Nem respirará do perfume que carrego
Não provará do meu intelecto
E muito menos do meu coração.
Não será mais agradado por mim, de nenhuma forma.
Mas, uma coisa eu tenho de admitir
Nem sempre prometer, significa cumprir.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sentou-se no exílio leitoso, interminável, onírico. Viu a luz desaparecer, piscar, justamente para se perder outra vez. Quão deletério, mas, sem dúvidas, prazeroso, era o exílio. Tanto sinal de fraqueza, se esconder ali, deitar-se no peito duro, esconder a face, se debruçar sobre tantas divagações, vastas, imperfeitas. A mente desmantelando-se em confusão, querendo achar onde se perdera. Materialização da racionalidade, não conseguia aceitar a fraqueza da alma. Para tudo isso, os prazeres carnais, ignominiosos. O alheamento de tudo, de todos, era o que sentia; agora, desprezava, odiava as criaturas indefesas e, por isso, chorava. Desprezo às provações, às palestras triviais, à mediocridade aceita, à tolerância excessiva, à idiotice e ao barbarismo, às frivolidades e, assim, a lista se estendia, infinita, desagradável, ofensiva. Pra que tanto anacoluto? Pra que o exílio, afinal? Havia se cansado, então, de tolerar as palestras, queria que todos fossem ignotos?
Por que o corpo não se satisfaz com o que a alma se satisfaz? Têm realmente que estar em constante antítese? Desmantelou-se, ensandecidos pensamentos, “espiralantes”, ilógicos. Cansara de se sentar à janela, cansara de observar as estrelas, já não lhes suportava mais o brilho. Ah! Como a tristeza traz a fealdade à face, mesmo a mais bela, como torna os semblantes aberrantes; a pele avermelhada de irritação com o sal das lágrimas, nariz inchado, aparência pateticamente infeliz, os olhos caídos, também vermelhos. Aos amantes, a distância. Aos viciados, a proibição de seus vícios. Aos gênios, a negação social, por silogismo, mundial. Aos feios, o desprezo. Aos belos, a inveja. Aos ricos, as acusações. Aos pobres, a falta de perspectiva, a negação.
Breve apagar de luzes, a deixar loucos, doentes, parvos, idiotas perderem-se; os poucos que, ao menos exílio têm, se consolam debruçados no frio e duro peito, que nada tem de ofegante, rubro, nada tem de vida.

(...) Aos pecadores de incomensuráveis pecados, o purgatório.
(...) Sonhos dementes, sonhos solitários: “é o lobo na estepe”.
(...) Materialização da tristeza.
O exílio foge, dissipando-se cansado, como comensal, se alimentou de toda força racional, o que sobrou: O vácuo de vastas emoções {memórias} e pensamentos imperfeitos {o incomensurável resquício do pecado dos líricos, poetas e amantes}.

domingo, 14 de agosto de 2011

Sinestesia

Sinestesia
“Sentia-se o carinhar macio, doce, sôfrego, fremente de nervosismo. Era quase inexistente em sua intrínseca particularidade, deleitava-se, comprazia-se; o almíscar quente espiralava do rubor, os panos vestidos de festa a se misturar, confundindo-se em uma só essência, complexa demais para poder se separar, entender, destruir. Afundava-se nas inusitadas sinuosidades, abrindo caminho à eletricidade, ao extático, tudo muito voluptuoso, tudo muito irresponsável. O gosto amargo, aveludado; a reverberar, o som delicioso da reação elétrica, turvava-se e aprofundava-se nessa louca análise espiritual. As carnes escarlates, profundamente inundadas de corpúsculos da sensação fremente, retesavam-se, repeliam-se, deixavam tudo pairando no ar.
Com a janela aberta, o vento entrava nervoso, soprava o negrume de um lado a outro, energizava o que já estava em flâmulas incansáveis, o que estava prestes a entrar em ebulição, fervendo em faíscas de gênios tempestuosos numa mistura “lucyesca”, agressiva, mas extremamente agradável.
A noite agradava-se, pois, com um brilho confuso, misturado; não era o prateado da lua, era um escarlate bonito, altivo, muito acima do enluarado. Lá fora, as cigarras cantavam loucamente os prazeres noturnos, cantavam a beleza das coisas, fatos e acontecimentos; denunciavam os irresponsáveis, gritavam-lhe os crimes incomensuráveis. Faziam isso, as loucas cigarras, devido à inconsciência das contigüidades da noite, do seu esplendor, do seu poder de desgovernar as mais profundas e sólidas racionalidades, de enlouquecer a mais saudável de todas as mentes.
Encaravam-se os gritos das cigarras como árias do mais famoso tenor ou da mais famosa soprano. Não havia crime, nem insatisfação, muito menos proibição.
(...)
A cor âmbar espalhada, ainda nascendo na sua intensidade, não incomodava em nada os turvos, profundos já fechados pela pitoresca satisfação.”

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Tragam-me um balde


Tragam-me um balde, não sei se para vomitar ou se para enfiar minha cabeça dentro. Foi dia cansativo, a noite caía com a brisa noturna soprando quente e pesada, trazendo a necedade que o calor proporcionava não só aos corpos, como à mente também... De repente, quando volto à Terra, escuto dois jovens [idiotas?] falando sobre suas últimas peripécias ou, melhor dizendo, proezas alcoólicas. Precisavam, definitivamente, de medalhas, de ouro, preferencialmente. “Quantas vezes eu já não fiquei bêbado...”. Definitivamente, eu precisava de um balde.
(...)
O sol já estava a pino, estalando as janelas metálicas do carro. Achei que já estava em um estado de espírito tão exaurido pelo calor e barulho que provavelmente estava absorta em nada, estava, provavelmente, pensando no vácuo dentro do meu crânio. Os que assim estavam, absortos, abençoados sejam. Meus ouvidos são incomodados pela narração das mais memoráveis e novas aventuras de Lolita, ou melhor, Lolitas que andavam lendo muito Marquês de Sade.
E, mesmo assim, ninguém teve a piedade e a caridade de me conceder um balde.
(...)
É aí que um mundo dependente de criaturas como essas deve se extinguir ou, pelo menos, intensificar a seleção natural. A juventude canaliza as energias para as superficialidades e vícios do mundo moderno; os adultos continuam como jovens e os velhos lamentam a velhice, as rugas, os cabelos brancos. E quem se sente como Philip Quarles, ironicamente, vira Holden Caulfield, se deprime, se mata, ou encena.
E, ainda fazendo uma ressalva aos quarles e não aos Quarles, a arrogância entre estes é predominante, mas só a arrogância mesmo. Só têm a ela para afagar seu ego, porque o mundo se rebelou, não reconhece mais seus esforços de vaidade.
Somos jovens, demasiados e insuportavelmente jovens.
Somos humanos, demasiados humanos.
Sou, sem qualquer modéstia, Philip Quarles.
A juventude, contrariando Lorde Henry Wotton, não é mais digna de se possuir. Não há mais chama de ser, energia, saber... O que há agora é simplesmente indescritível, é aberração.
E, mesmo assim, ninguém me dá um balde...

domingo, 24 de julho de 2011

Não, não é cientificismo

Se algum dia te esqueceres de quem és, me escreve uma carta;
Se algum dia te sentires só, convida-me para uma chávena.
Quero mais que tudo, que sintas abrigo no meu peito, que te deites, te levantes e sigas - apenas se extremamente necessário- mas, mesmo assim, perfures o tempo com lembranças.
Se hoje, nestas alturas, neste clima agradável, estiveres sentado, olhando alguma paisagem bonita, que te lembres e que sorrias sozinho, que guardes nosso tesouro. Mas, se amanhã, estiveres em outro lugar, olhando para outra paisagem, se não quiseres mais te lembrar do que passou, se tiver te causado alguma mágoa, prefiro que finjas que nunca existi, prefiro que extraias qualquer lembrança.
Se algum dia te sentires injustiçado, irritado, procura-me para uma conversa.
Se algum dia tu quiseres morar num descampado, de chão de feno, de córrego aos fundos, onde sinal de satélite nenhum pegue e te sentires demasiado sozinho e perdido, chama-me e me tem como certa;
Não te estranhes se me perdi na minha escola literária; acho que tenho licença para isso.
(...)
B1
Mas se um dia essa carta, essas lembranças não chegarem, entenderei: foi o tempo, inimigo de tudo e de todos.
Se quiseres me escrever, tem resposta e sentimentos como certos.

(...)
B2
Sim, podemos rolar no feno ou trigo, podemos beijar, podemos ver as folhas de outono caírem, podemos passar primaveras com brigas, invernos com amor; Podemos beliscar um ao outro, podemos abraçar, dar chutes e socos, ver nossos reflexos no milagre da vida, podemos viver em constantes arroubos domésticos, tudo isso... Não somo Lucy e Walter, nem Elinor e Quarles, nem Walter e Marjorie. Acho que deixamos de ser plurais, embora não tenha havido mutação completa; um pouco de singularidade é bom.

(...)

Se a teoria aplicada de Everett foi cruel demais, peço-te DESCULPAS. Não há outra maneira e, provavelmente, sabes disso. A verdade é que bolhas existem, sim, mas NÓS também existimos.

P.S: (PÓS-SCRIPTUM) A loucura é demais, a arrogância é de mentira, a fortaleza é de verdade-embora possa ruir de vez em quando-, o desprezo é falso, as mãos só não são expressivas em tamanho e... A frieza passa.







terça-feira, 19 de julho de 2011

Forje (mos)

“Sabe-se de mãos que desejam, em debalde, um corpo. Mãos estas geladas, que não mudam de opinião, forjam ações, não se saciam nunca. Era pele áspera de rosto que se inicia no escanhoamento. Sentimento desvairado, que começa pequeno, cheio de antipatia e medo de ser enjeitado. Há algum sofrimento por baixo daquela pele alva, que, de certa forma, queria-se entender, mas agora já há confusão demais. Não existem dois, plurais, essenciais; existe um, que supre tudo, que se apoia.

(...)

 E se a teoria de Everett, a teoria do multiverso, de universos paralelos valesse para a trivialidade, para o lirismo, pudesse ser prática, interpretada e moldada aos caprichos humanos? Seria bom: um córrego aos fundos, uma casa, um campo deserto, um céu que traz sol na manhã e chuva à noite. Quando a felicidade se “esgotasse”, ter-se-iam atividades de campo e pesca; uma loucura, como a que se vivia no mundo real. Infelizmente os cientistas de hoje ainda não têm a milagrosa capacidade de concederem esse privilégio. Preferir-se-ia, então, a dura realidade que faz valorizar alguns segundos de fusão espiritual e corpórea? Admitir-se-ia, então, “a carne é fraca”? Em um mundo em que não se pode isolar, tal sentimento corre muitos riscos, por isso, o ideal seria que para cada pessoa privilegiada com essa loucura boa, fosse concedido um universo, a seus moldes, sem limitações.

Se aceita que se forje a luxúria juntamente com o amor; os arroubos domésticos com carinho; as vozes inflamadas com os rostos em rubor. Viva-se, então. Se não se pode criar universos paralelos, forje-os à realidade.” 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

“(...) Sem dúvidas, era uma cidade mui bela. Ou melhor, fora uma cidade mui bela. Via-se que o rio, agora todo cheio de escombros, era claro, tinha uma limpidez sem igual. Via-se que era bem iluminada, bastante charmosa. O casarão de número 13, que ficava dentro da pequena vila, agora estava absolutamente destruído. O general Izhak, perneta, com um quadrado de seda preta tampando os pontos no pescoço, agarrou, por um instante, a mão solta de algum transeunte. Os tendões se faziam cordas de marionete. Os cabelos brancos nas laterais da cabeça do general davam-lhe um ar maduro, embora não houvesse documento nenhum registrando a sua verdadeira idade.

Ele caminhou em meio a tanta destruição. Os olhos eram secos, lágrimas já não tinha mais. E tentava desesperadamente prever se aquele seria o poço mais fundo ou se seria provável uma “queda maior”.  Fugira do julgamento de crimes de guerra. Por que diabos ele, Izhak, iria para lá, afinal? Tinha sido manipulado, torturado, sacrificado família, entre outras cousas. Estava certo de que nenhum crime havia feito, não por sua parte. Único crime que ali havia era contra ele mesmo. Perdera os dois filhos, Zhenya e Adrik. Sua mulher, Alena, desaparecida. Um amigo (um dos poucos em quem confiava) lhe dissera que talvez ela pudesse ser encontrada, levando-se em consideração buscas feitas no subterrâneo da cidade, onde várias mulheres foram resgatadas vivas. Berdy, o traidor da família, agora deveria estar longe, lá pelos estreitos Americanos, buscando emprego como acionista, provavelmente. Se a morte de Alena fosse confirmada, Izhak nada mais teria a perder, então se veria livre para iniciar um plano conspiratório; a todos eliminaria com muito prazer, pelo menos, naquela região. Depois, embarcaria num navio cargueiro, escondido é claro, o tribunal ainda estaria a sua procura, partiria para a Terra Prometida e lá se faria servo da justiça e Berdy não mais existiria. Lá mesmo, se poria com uma nativa, faria gerações posteriores e poderia ter de volta o que lhe era de direito e lhe foi levado, nem que fosse à base da violência. Escorou-se no pedaço de mármore tombado, a neve começava a cair e o rigoroso inverno começava a se impor. Dentro do bolso direito do casaco de pele grossa, tirou um daqueles pequenos vidros de conhaque. Já imaginava seus futuros filhos, Nadezhda e Ondrej – os nomes de sua mãe e de seu avô, respectivamente, as pessoas que mais admirava. Nadezhda teria a tez de cobre, olhos de um verde esmeralda e seria destemida. Ondrej teria a tez vermelha, cabelos negros e grossos, olhos negros e brilhantes. Seria forte e viril e lá, na Terra Prometida, iria treiná-los como pequenos soldados. Dar-lhes-ia amor, é claro, mas não tanto afeto, para não colocá-los manhosos e/ou moleirões. Nascia ali, o sentimento mais perverso que alguém já pôde sentir. (...)” 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Quando o papel se finda branco

Quando o papel se finda branco
Era julho, provavelmente. Via-se pela cor do céu, tanto quanto acinzentada. Queria-se um chá como conforto à loucura. Queria-se aforismos, para a consolação do fraco poetismo. Queria-se anedotas, para abrir um pouco mais o fraco sorriso. Queria-se braços, queria-se lábios, queria-se almíscares quentes, queria-se um escapismo. Sem dúvida, é a repetição irritante, mas simbólica de certa solidão. Pega-se o livro na estante, só tem a ele como companhia. Colhe a flor lá fora, lembra-se que nada tem a ver com o perfume sintético e agradável. Corre-se pelos campos e lembra-se que o barulho do vento em nada lembra aquele outro, tão conhecido, quente e elástico, provedor da vida. Despreza-se ensaios, para não proporcionarem a reflexão excessiva. Alivia-se a dor cortando lenha. Depois, de alguma forma, ainda cai-se naquela cama enorme, vestida de festa, com cheiro enjoativo de orquídea e acha conforto. Ninguém sabia a face, os olhos, qualquer expressão. Depois, sem inspiração alguma, senta-se a escrever algo parecido com uma carta, mas finda branco o papel. O objetivo final estava alcançado: não mais identidade ou face, não mais singularidade, não mais sofrimento; o papel se findara branco.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Com o tempo, a gente se acostuma

Com o tempo, a gente se acostuma

Com o tempo, a gente se acostuma com o frio
Com o tempo, a gente se acostuma com a solidão
Com o tempo, a gente se acostuma a fingir que é feliz
Com o tempo, a gente se acostuma a fingir que o amor é bom
Com o tempo, a gente se acostuma a fingir que vive
Às vezes, sobem as perguntas com ar rebelde, tentando inflamar
Às vezes, descem as lágrimas com ar carente pra cativar
Às vezes, sobe a cólera para perturbar
E não se muda. Não se xinga. E não se vive.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Passam os passos

Lá longe, no corredor frio, que era invadido por alguns tímidos raios luminosos, um passo conhecido passava ritmado. Sentia-se o ar altivo, sentia-se o cheiro quente, sentia-se uma tristeza crônica. Entrou, se dedicou, gritou muito, abafou o choro no seu coração, cantou um pouco para espantar qualquer resquício de fraqueza. Um corpo já calejado de dores não só corpóreas, mas também emocionais. Uma mente abstrata, que não estabelecia rumo, nem tinha lógica. No olhar, um quê qualquer de inteligência insalubre e, ao redor dos olhos, a olheira que nunca se dissipava. O sol começava a lhe irritar o couro cabeludo, começava a lhe fazer descer o suor, aumentava seu estado, que agora sentia, de constante toleima. Era assim a sua atualidade que nunca mudava. Saía pra tarde de junho, tarde irritante, triste. Saía pra ela com ar de quem sempre vence, mas que no fundo sabe que a “sua vitória” nunca poderá ser considerada realmente um triunfo. Nunca foi. Nunca será. No final, nunca se vence.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Praça Nevada

Às vezes dava raiva, ele pensava, passando a mão nos cabelos negros e grossos. Aquela neve caindo lá fora, dando um clima esquisito, como se estivesse em um daqueles filmes que se passam em cenários estranhos, com personagens e acontecimentos estranhos. Vê-la ali, sob o carvalho, tentando se proteger e segurando uma rosa na mão. Ele tinha uma vontade torturante de correr gritando, naquele frio cortante, mesmo que estivesse sem casaco, mesmo que estivesse nu, só para abraçá-la, dizer que a protegeria, dizer a ela que deixasse ser seu abrigo, seu refúgio. Queria beijá-la pra sempre, nunca mais soltar. Queria que a neve derretesse em seus cabelos enquanto ela entrelaçava com força os cabelos dele. Queria poder ser um ser só, juntamente com ela. Era uma coisa desesperadora. E vê-la ali, chorando, deixando seu rosto ser queimado pelo frio era simplesmente demais.
         
O que viram? Um louco atravessando o pátio, escorregando na neve, se espatifando no chão, levantando e gritando, gritando de felicidade, e, junto aos braços, sua maior jóia, seu maior tesouro. Traziam os lábios grudados, como se nunca fossem se soltar...   

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Talvez seja isso

Depois de algumas experiências, que, diga-se de passagem, não podem se considerar devastadoras e sôfregas, tinha finalmente aprendido. Talvez não tenha realmente sido por meio experimental e sim pelo teórico: o contato com algumas literaturas encorpadas, pesadas e de profundo teor filantrópico e analógico a tinha feito uma perfeita conformada, não acomodada, é importante que se diga. Tinha aprendido várias coisas, filosofando até no banho, debaixo da água queimante, tentando entender cada micro palavra e seu possível efeito ou interpretação.

Aprendeu muitas coisas. Uma delas foi colocar uma máscara para si mesma, fingindo que estava tudo bem, guardando divagações em sua lixeira mental, colocando um sorriso de reforço, por assim dizer. Isso a fazia se sentir dura, invicta, vencedora e infalível: já ajudava a sobreviver. Outra de suas muitas aprendizagens foi a conformação com as mudanças. Aprendeu, com certeza, com certas “Mary Rampion”, a romanceada e a real, que não se abate e não se chora com mudanças, e sim se adapta a elas, destemidamente, como se não fosse nada, não usando como incentivo um discurso do tipo “sansanesco”: “Trabalharei mais ainda”. Além disso, recentemente, aprendera a aceitar sua própria pessoa como principal obstáculo em sua vida.
“Agora você está feliz?” Pergunta feita por uma pessoa querida, ao que ela respondeu: “Feliz...não conheço ninguém que seja feliz. Satisfeitos, vários. Ninguém é plenamente feliz. A felicidade está muito acima de um conceito compreensivo, principalmente para seres como nós. A felicidade é a habilidade de lidar com este mundo com leveza, equilíbrio de todas as faculdades e, principalmente, a harmonia entre o discurso e a ação. Nada mais. O problema: não sou assim, nem conseguirei ser”.
Talvez realmente seja isso, vindo de alguma parte, de alguma teoria extraída de uma mente demente e possessiva.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Um Único Obstáculo

Já estou sentindo saudades, já estou com medo, novamente. Estou com medo de cair em certas armadilhas, de voltar a um período sôfrego, de ler John Steinbeck, “O Inverno da Nossa Desesperança”, de voltar a ter aqueles olhos odiosos, amargos e frios. Estou com medo de, novamente, cair no mesmo poço que caí antes... Mas desta vez com uma diferença: não ter uma mão para me resgatar. Cansei de tanta escuridão, de tanta demência. Sinto-me cansada como nunca e sinto que esse longo caminho vai permanecer longo, não vai me levar a lugar algum.

E a água quente caía no cabelo, ela deixava queimar, queimar cada vez mais, porque, quem sabe, talvez, tudo aquilo se dissipasse, o poço, as pessoas, a demência... incluindo a sua existência.

“Deixe queimar, deixe queimar cada vez mais, queime tudo, tudo que encontrar pela frente, não ouse deixar cinzas, não ouse deixar resquícios ou evidências.”

sábado, 14 de maio de 2011

Dessa vez, eu dispenso o sarcasmo

Falo sério. Dessa vez, eu dispenso o sarcasmo. É assunto sério demais: é o meu desejo de ser “maneira”, “descolada” demais. Perceberam o uso das aspas? (como sinto falta do sarcasmo). Por que esses malditos não me deixam beber drinks, vodcas? Por que eles não me deixam fazer uma revolução adolescente?

Não, por favor, eu quero pregar argolas pelo meu corpo inteiro. O meu exemplo não é minha mãe ou meu pai- pra mim, eles são inexistentes-, e sim aqueles hipócritas daquela outra caixa de cores que agora me esqueci do nome. Ser alienado e “emburrecer” é a nova moda. Ler? Pra quê? Eu quero é escrever errado, ser “isperto” no meio da minha gangue drogada.

Eu quero é furar a noite com a minha falta de senso crítico e com o meu pote de imbecilidades. Eu quero é me perder neste imenso labirinto, pra não saber mais como voltar. E eu falo sério: se não me deixarem fumar uma erva (pr’eu ser maneira, gente!) eu vou ficar mais “doidona” ainda.

Quero me acelerar nas baladas, quero freqüentar todas, quero ser livre, quero ser totalmente imune aos “nerds”, “certinhos”, e qualquer outra espécie (será que é com dois “s”?) que possa parecer assustadoramente sensata e muito mais inteligente que eu; não, desses, eu quero distância. Eu adoro viver por um motivo banal, eu adoro ser alienada, mal educada, burra e imbecil. Eu amo viver porque os outros também amam viver (mas tudo porque eles freqüentam as baladas maneiras e bebem até cair).

Eu quero ser assim. Quero cair nessa disfunção sem fim. Não quero “curtar” meu “célebro” (é cérebro?).

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Por que ninguém vê o que vejo?

Parecem cegos, ou, na verdade, preferem ficar imersos em um mundo de divagações fúteis. Ninguém mais vê que não ocorreu apenas mudança psicológica, mas também que seu espírito se tornou mais apagado, menos dedicado e inflamado. O brilho de olhos outrora tão desafiadores, luxuriosos e pecadores, agora não passa de uma cinza opaca e sem graça, que não só toma conta de toda sua face, mas também de sua mente, de seus atos. As lágrimas que antes desciam um rosto retesado, que se fazia firme apesar de tanta exposição, agora são secas, mas têm como lar a face mais tácita que já se viu; o mais irônico de tudo é que tenta, ainda e apesar de tanta fraqueza, ser guardião, se colocar como protetor e servo de outros. Agora, dizem, estão loucos [estes olhos; não aqueles], pois que tanto dialogam, amam, choram e caminham sozinhos. Eles são sofredores da solidão crônica, são vítimas dos próprios pensamentos e certezas. Talvez eles sempre tenham sido filhos da loucura e escuridão, mas só agora nascem com a certeza de que uma rebelião utópica e pacífica pode lhes trazer felicidade. Outros são cegos e imbecis demais para poderem tomar tal conhecimento, ou talvez só estejam ocupados demais com suas próprias dores.



domingo, 8 de maio de 2011

Superficialidade

A necessidade de uma idolatria era imensa. Na cidade das desesperanças, ninguém tinha potencial, ninguém tinha autoconfiança.
Os homens de chapéu coco e as mulheres de saiote cinza. Um joão e uma maria pegavam a condução, um bondinho trincado e precário. Carregavam, nos olhos, bolsas cheias das noites mal dormidas.
A roupa de joão, um pano carcomido, quadriculado e verde. As de maria, um saiote cinza com detalhes em verde. Os sapatos de joão, um sapato preto, furado, deixando a água entrar. Os de maria, um salto vermelho, decorado com estrelinhas já descoloridas pelo uso.
O dia era cinza de poluição fabril, as noites eram sufocantes, sem cheiro de sereno ou de orvalho, somente de enxofre e fumaça.
A noite se aproximava e somente maria voltava para casa. Tinha uma sacola preta em mãos, dentro dela, o resto da refeição do dia, porque o resto era tributo.
O bondinho a deixou em casa. Casa de paredes brancas cheias de fungos, pilastras trincadas, encanamento a céu aberto. Os filhos, sentados de frente para uma caixa de imagens coloridas, imbecilizadas e condicionantes. Vestido com trapos, sujos, com os narizes cheios de coriza seca. Os cabelos engordurados, as pernas cheias de mordidas de ratos. A mãe chegou e logo vieram abraçá-la, pedindo-lhe brinquedos. A mãe, desanimada e cansada, bateu-lhes até que dormissem e se sentou na frente da televisão. Não havia sofá, não havia comida, não havia banheiro, não havia vida.
A noite passou, o dia chegou e maria na acordou.
Os filhos subjugaram-se à cidade das desesperanças.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Contiguidades

A lixeira de oitocentos reais, a educação que sai cara
O banquete que continua, o pedestal que se faz de suor e sangue
A violação das fronteiras, o cidadão que permanece sem identidade
Os impostos que se paga, a violência que se justifica
A corrupção incorruptível, o salário que aumenta
O povo que morre de fome, a festa que continua a badalar
O terno que é comprado, a saúde que sai lesada
A cultura de massa, a cabeça que estende sua flatulência cerebral
O desvio de dinheiro, a mão de obra que sai cara
Para que se importar, então?
São apenas contigüidades...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Assim nós passamos o tempo

E chegas assim, como um furacão, me tocas com lábios quentes, me deita neste teu peito largo e convidativo, vira meu protetor. Depois? Sai com cabelos desgrenhados e face rubra, tendo em tuas mãos o meu coração. Me descabelas, te anacolutas, vira louco quando a noite chega e não há mais amor. É insistente, ao mesmo tempo tácito e irremediavelmente apaixonado. As suas repetições preferidas são doces e refinadas e como são belamente introduzidas em meus ouvidos; são a minha alegria. Para que tanta silepse? Para que tanto anacoluto? Para que tanto apóstrofe? Quando me levanto, tudo quanto sei e tudo quanto quero é continuar tendo esse amor descabido, “lucyesco” a meu modo e “walteresco” ao seu, embora afirme que sou “quarliana”, talvez para dizer, indiretamente- já que acha o “eu te amo” ultrapassado e clichê demais-, que, apesar da minha loucura descabida, que tenho tanto como racionalidade, sou sua única, mas preferida amada.

[Para você que é, aparentemente, um Walter menos idiota e para mim que, aparentemente, sou uma Elinor menos dedicada]. 

terça-feira, 26 de abril de 2011

Ciclo Vicioso

Lá estava ele, sentado, meio cabisbaixo, com uma garrafa de conhaque na mão, a caixa de cores incansavelmente ligada e os olhos turvos. Os cabelos estavam oleosos, a barba estava cerrada, endurecendo suas feições; os olhos, vermelhos, como sempre, do sono e da bebida. Os chamados multicoloridos gritavam, berravam,escravizavam. Ele dormiu quando a caixa de cores mandou, assim como comia, tomava banho, se barbeava quando ela mandava.
No outro dia, lá estava ele, de pé, mecânico, pronto para trabalhar. Parecia uma máquina, entrava de serviço às 6 horas e só saía às 19:45, em ponto. Eram necessários quinze minutos para se chegar a sua casa, a conta de se sentar novamente na poltrona, deixar outra garrafa de conhaque pela metade e absorver todos os recados da caixa de cores. Também trabalhava aos fins de semana, em regime melhor: entrava de serviço às 7:25 e saía às 13:00; o resto do dia era exclusivamente dedicado à prática do que se vinha aprendendo toda a semana com a caixa de cores. Ele ia, como todos aqueles cidadãos sem face, com os olhos injetados, zumbis escravizados e lá faziam funcionar a Grande Máquina, fazendo a manutenção do sistema, rodando as grandes engenhocas com o suor do trabalho escravo da semana.
O pior de tudo: mal se davam conta disso, era tudo tão mecânico, desde o ato de comer até o de fornicar. Era tudo simplesmente tão irracional, alienado. Era tudo regido por ela, a Grande Máquina. E era tudo alicerçado por eles: os cidadãos sem face, os alienados, os zumbis, os escravos, os idiotas, os imbecis, os rastejantes...

  

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sob a Luz bruxuleante...

Lá estava ela sob a luz bruxuleante do mesmo lugar de sempre, sentada numa mesa, rodando a chave de casa sob a frágil mesa de plástico amarela, no alento noturno. Distraída como sempre, nem havia notado a sua chegada e a sua presença. Ele sentara ali há algum bom tempo, com seu rosto por escanhoar, os olhos vistosos e saudáveis.
Ele achava que se comunicava com ela pelo olhar e, afinal de contas, não era algo platônico, eles conversavam muito, se davam muito bem, eram amigos! E, finalmente...
- Acho que você precisa de um descanso...
Ela se virou surpresa com a fala inesperada e com a presença “invisível”, sorriu desanimadamente e respondeu:
 - Acho que não.
- Olhe seu rosto, todo depreciado por olheiras desnecessárias! Como você é exagerada! Como é vaidosa! Para que tanta competição?
- Não tem outro assunto? Não se cansa de me censurar e de me chamar de vaidosa?
- Não tenho outro assunto. É o que você é, inevitavelmente.
Ela se levantou irritadiça. Quem era ele, afinal? ; Ele não se moveu, ficou extático, calado, taciturno e paciente como sempre, não tinha medo de que ela se fosse, não lhe escutasse mais.
- Na minha vida, não existe outro assunto que não seja você. Não há espaço para outro assunto que não seja seu estado de ânimo, sua roupa, seus cabelos, seu perfume, seu sorriso... Se isso for crime, serei o maior bandido de todos. Se isso for loucura, eu tenho de ter um manicômio especialmente para mim.
Ela se virou e, pela primeira vez, enxergou o brilho dourado naqueles olhos grandes e castanhos. Nunca pensara nisso, aquele tão taciturno e enigmático ser, também era humano! Também tinha coração, também chorava, sofria, amava, sorria e se sentia feliz! Ela nunca imaginara...
Sob a luz Bruxuleante...

domingo, 17 de abril de 2011

Angústia

Ainda era escuro, mas a britadeira começava o seu trabalho. Um pequeno pássaro amarelo pousava hesitante na sua janela. Ouviam-se os ruídos dos primeiros transeuntes do dia.
Ela, de olhos abertos, deitada em sua cama, e a Angústia irrompendo de seu peito. Era um sentimento tal que botava olheira nos olhos mais descansados, amargava o paladar mais doce e tingia de preto o céu mais azul.
Quando a vontade de dormir, de só viver os sonhos e permanecer no estado REM para sempre supera a vontade de sair para o mundo real, é sinal de que a Angústia fez o seu trabalho.
E lá estava ela, em frente ao espelho, nervosa com suas olheiras, com sua expressão cadavérica, com suas mãos gélidas. Não reconhecia um traço de fibra, nem de felicidade. Talvez ela nunca tenha se sentido tão sozinha como agora.
Era ausência demais, incerteza demais, tudo em demasia. Era Angústia em demasia. Nunca foi tão fria, tão distante, tão angustiada como agora. Talvez o destino se apresente como um fornecedor constante da infelicidade. Talvez seja simplesmente uma fase de superação. Talvez um ou dois dias sejam o bastante para que ela perceba que nunca se deve dar ouvidos à Angústia.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Casa de Velhos

O tempo foi simplesmente passando muito rápido. Olhei por trás do ombro e vi uma mulher de cabelos grisalhos. Olhando de perto se via que seu cabelo na verdade era preto, mas tornara-se grisalho pela velhice e preocupação. Sua pele era alva, mas estava cheia de rugas e estava flácida. O olhar era vago e triste, sem qualquer objetivo, estava sentada na entrada da casa olhando as montanhas à sua volta. Poucos minutos depois,um velho calvo aparece e se senta ao lado da mulher dando-lhe uma xícara de chá de erva-doce.O velho era calvo,com algumas manchas marrons de sol no topo da careca.Usava óculos fundo de garrafa,e vestia uma calça social preta até acima da cintura e uma blusa xadrez encardida e de botões.
E então ele e a mulher estavam pensando. Pensando em como o tempo passara rápido. Pensando nos erros que cometeram que nunca poderiam consertar,pensando em seus filhos e pensando na paz do ambiente que os obrigava a refletir sobre a vida.
O pensamento do homem era pessimista, pensava que a cada minuto estava morrendo, lentamente, mas isso não mudava nada.
Logo no final, o homem e a mulher se deram as mãos e a mulher apoiou a cabeça no ombro do homem e ambos pensaram que nunca amaram um ao outro intensamente como seria o ideal, mas foram companheiros um do outro a vida inteira e era isso que importava.

Os sintomas do Amor

Você que agora está aí sentando lendo estas deprimentes palavras pode estar com estes sintomas e não estar sabendo...
Se os seus olhos brilharem como os dele sempre que se encontram,se suas pupilas se dilatarem,se você se sentir ruborizando sempre que percebe que aquela pessoa também estava olhando para você,se os dias sem aquela pessoa forem escuros e pérfidos e a sensação de estar perto dela beirar um décimo da sensação que você acha que é a felicidade máxima,se  você amanhece pensando nela e percebe que poderia passar dias,noites e tardes inteiras somente com ela,fique atento a partir deste momento.

A partir destes seguintes sintomas,já se considera a doença “Amor”:
Se o seu coração bater tão rápido que parece que vai explodir,se quando você fala com aquela pessoa parece que seu coração vai saltar do peito,se você tem sua respiração sincronizada com a dela,agradeça,porque você é um dos poucos sortudos que sofre da melhor doença do mundo,o  “Amor”.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Quero ser como você!

Quero ser como você
Já não tenho estima própria , já não tenho alma, nem opinião e, para completar, não sei quem ou o que sou.
Só sei de uma coisa: quero ser como você! Quero ter estes teus olhos de gato, estes verdes e lindos olhos. Quero ter este teu cabelo cor de mel, cheio de cachos, quero ter essa pele lisa e corada artificialmente! Quero ter esta estupidez e idiotices superficiais para me encherem a vida de alguma coisa! Quero preocupações fúteis, quero as facilitações da beleza, quero ser incompetente, assim como você!
Não tenho palavras para expressar minha incrível e inefável admiração por você. O que eu quero é um mundo superficial, onde a beleza “pense”, onde eu seja idolatrada pela minha falta de caráter e honestidade. Quero ser, desde cedo, a mais desejada das mulheres, a mais sacana, a mais fácil.
Quero ser a boneca que permanece controlada, ocupada com seu cabelo, com sua roupa e sua maquiagem. Quero que seja assim, tudo na natural perfeição do mundo superficial. Quero me embebedar em festas, ser popular, ser agradável, "fofa" e hipócrita!
Tudo isso para fazer parte da Admirável Nova Sociedade.  

quinta-feira, 31 de março de 2011

Uma análise de mim mesma

Um ser de natureza complicada, de difícil entendimento. Irritadiça, talvez ousada demais. E não é preciso mencionar sua arrogância magistral. Tem a consciência de seu extremo atraso espiritual e, devido a isso, até se torna um ente suportável, convivente. Seus períodos de decadência são os piores: sente-se no fundo de um poço que não tem saída, nem luz, nem ar... Custa a sair dele e, quando sai, retoma a sua indecisão nata. É obsessiva com alegorias e enigmas humanos. Nega com todas as suas forças seus ciúmes doentios. Antes que eu me esqueça, essa criatura também ama e o amor dela, apesar dos ciúmes loucos, é uma das poucas coisas agradáveis em sua natureza:  é um sentimento sincero, preocupado, observador, intenso, luxurioso e nobre. Mas não é só o amor a única coisa agradável neste ser exótico; há também a amizade, que ela guarda com todo esmero, cuida diariamente, valoriza adequadamente e apóia fielmente. Além de tudo isso, tem certo magnetismo em seus sorrisos que até podem ser chamados de carismáticos. Quando está feliz, quase se explode, fala alto, fica rubra, parece uma louca! À primeira vista, por certas falas, pode parecer elitista, radical, até preconceituosa, mas, na verdade, esta criatura é tão singular em suas falas, em seus defeitos, em seus gostos, que só se conhece sua verdadeira identidade e seus verdadeiros ideais quando se aproxima, cautelosamente, pois sua desconfiança com relação a seres humanos é unânime, não há exceções. Não se chateia fácil, mas vive em extremos. Quando se “fatiga” de estar feliz, uma onda de melancolia e arrependimento lhe abala o coração, inundando-o de uma desconfiança e uma descrença de si própria. Logo, freqüentemente evita ter seus prazeres, viver suas paixões, justamente para não ter o arrependimento de ter sido feliz em alguma hora, para que a melancolia e a descrença não invadam seu coração como o fazem após um curto período de felicidade. Sim, eu sei que esta criatura é extremamente complicada, às vezes tão complicada que é melhor se afastar. Talvez seja por isso que ela se sinta tão sozinha, tão sem importância, tão descrente das coisas que faz, justamente pelo fato de ela própria não se entender, o que comumente acontece.
Afinal de contas, depois de tudo isto, ela não passa de mais uma criatura rastejante, asquerosa, atrasada espiritualmente, como todos os outros seres que existem no Universo.


domingo, 27 de março de 2011

O motivo de "Ex-amor"

Soube que estás amargo, já tem escassos sorrisos, no máximo, quando se sucede de dá-los, é um sorriso amargo, sem graça.
Nem sei por que me importo tanto com você, já que afirmo, me engano, dizendo que te esqueci. Talvez eu não esteja preparada para te esquecer, para ser independente de seu olhar e da sua doçura tão característica. Talvez eu ainda não esteja preparada para deixar de fazer de você meu principal assunto, meu principal pensamento.
Quem sabe eu seja viciada em você, mais precisamente neste amor idealizado, que eu fiz questão de criar como perfeito, que eu fiz questão de esconder em um mundo que só eu conheço e que é incompreensível a um estranho.
Quanto tempo já se faz, pois, que te amo? Uma eternidade, um coração, várias aflições, dezenas de ciúmes, algumas preocupações, infinitas saudades e nenhuma lágrima. Esse é o tempo que te amei e que ainda, apesar de várias coisas, te amo. É o tempo todo especificado, desmembrado, confesso.
Esse meu amor é luxurioso e consegue ser, ao mesmo tempo, casto e puro. É utópico em todos os mundos existentes, mas realizável em meu imaginário. Gosto desta ficção, deste romance folhetinesco que escrevo quase todos os dias para me consolar e matar algumas saudades.

Eu te chamo de “ex-amor” única e exclusivamente porque já está na hora de te chamar assim, de te esquecer, de queimar todos esses romances que foram escritos e reescritos querendo sempre reviver um algo mais. Resigno-me, pois, a parar de te amar, a entrar em “reabilitação”, a limpar de meu organismo a droga mais tóxica que já contaminou o corpo de um ente.
Se finda agora e para sempre o que daria mais um romance folhetinesco à moda de Byron, um romance ultra-romântico, característico do tempo em que as moças ainda eram ingênuas.



quinta-feira, 24 de março de 2011

Odeiam a minha forma "Huxleriana"

Começo a palestrar. Palestrar à Huxley. Os olhares das lesmas brancas tornam-se lânguidos e desconfiados, alguns até de piedade, vejo um virar de olhos?
Acho que nunca ouviram uma palestra à Huxley antes, porque se pelo menos pudessem entender o quão especial é uma, não olhariam languidamente, ou melhor, não olhariam de soslaio.
Mas “Huxley” afirma:
1.  A beleza é finita; A inteligência, não.
2.  A falta de investimento no intelecto traz graves consequências;
3.  As conversas ocas engessam-nos o cérebro.
4.  Trata esse teu olha presunçoso, pois ele ainda lhe trará problemas.

Entre outras coisas mais, “Huxley” afirma e reafirma. Queria eu ficar calada para todo o sempre e deixar de ser julgada, mas não possuo sangue de barata.
A definição de ser medíocre mudou de nome: ser normal. Banalizar aquele que ascende sua cultura a um grau mais elevado, inverter o certo pelo errado, deixar as coisas se arrastarem no próprio ritmo destas.

O ser normal agora significa viver alienado, deixar que o mundo gire sem saber o porquê. O ser normal significa pendurar argolas pelo corpo inteiro. Significa não fazer nada além do necessário. Significa não ter a tão rara exuberante chama do “ser”.

Quão intrinsecamente lesmas brancas eles podem ser? Refiro-me àquelas lesmas que se rastejam toda a vida e que poupam o mínimo esforço que poderiam fazer para chegar mais longe.

Deitada em minha cama, fiquei imaginando o que Huxley diria, ou melhor, escreveria sobre a atual juventude:
“Preguiçosa, insuportavelmente fútil e oca.”
“Um bando de lesmas brancas que caçam o que fazer nos cantos mais subversivos da mente.”

Levando em consideração a reação das lesmas brancas à minha palestra à Huxley, julgo que deveria ficar calada.

Levando em consideração tudo que já li de Huxley, julgo que devo falar pelos cotovelos.
Seus olhares de soslaio se tornam cada vez mais um incentivo para fazer crescer minha palestra à Huxley.
Prefiro viver à parte dessa juventude de alienações, a fazer parte dela e ter o cérebro completa e decadentemente engessado.