quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Sonho

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Era um chacoalhar muito violento, numa escuridão infinita e muito plena, cheia de soluços, gemidos e choros muito altos e lamurientos, muito cheios de uma dor incontida. E uns feixes de luz, vez ou outra, irrompiam: uma luz muito fraca, trêmula. E o ar sufocava com cheiro de doença e ranço. E havia um desespero muito intrínseco na tensão escura e crua. Umas caras muito pálidas, empapadas dum suor mortiço, umas caras pálidas que só iam aumentando muito, com narizes cheios de coriza muito seca, umas caras muito bexiguentas e contorcidas de dor e morbidez. Um gás muito luzidio que impregnava na garganta, muito debater de pernas, o barulho de respirações asfixiadas e uma porta, ao final, escancarada. Uma manada em pânico, todos corriam muito desesperados; ninguém alcançava a porta, que de repente se fechou, e a escuridão foi muito mais plena e cheia de um silêncio daninho, medroso. Um calor intenso, queimando as roupas de lã muito grossa, deixando todos nus, animalescos, muitos gritos aterrorizados. Uma exaustão muito grande e cheia de olheiras. E veio uma água muito viscosa e muito quente

Que a todos nós afogou.






terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Lembranças


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Era quando o Natal era um tanto nostálgico e melancólico. A essa altura, é tudo um borrão muito escuro e misturado. Lembro-me de que aqueles Natais se sucediam em noites que encerravam dias muito chuvosos e nublados. Aliás, lembro-me somente das noites. Aquele jardim imenso, mergulhado na escuridão; cheiro de orvalho nas roseiras; os guarda-chuvas jogados bem no canto da cozinha; um som metálico de chaves batendo em portões altos - que tinham, em seu cume, espécie de lanças. E, na sala de parca luz, todos os ouvidos, exceto os meus, eram moucos para os carros que chegavam. Meu estômago ardendo de fome, ansiando pela meia-noite, pela ceia. Aquela pequenina árvore de natal com uma caixinha de música embutida a tocar uma musiquinha de Natal bem baixinha e rouca. O som das taças sendo retiradas da copa. Tudo se sucedia numa meia luz, numa luz bem fraquinha que iluminava os móveis de madeira envernizada; o cheiro da decoração de cera; a escuridão do corredor; e a ansiedade de criança debruçada sobre o peitoril da janela - aquela janela de vidro bem antiga que, com o tempo, acabou emperrando e abrindo apenas até a metade. E, na cozinha, sobre uma cadeira de madeira, um som bem velho tocando um sambinha bem simpático, enquanto as travessas de comida iam sendo arrumadas; a churrasqueira apinhada de gente, as cadeiras descendo aquela rampa, o velotrol rosa encostado bem pertinho do lixo. Foi tudo um vislumbre, uma sombra, um pequeno tormento de ansiedade, um pequeno nervoso, uma pequena melancolia...
(...)
O dia começou cheio de brisas, com um céu muito azul, sem nuvens. E foi ficando mais abafado, cada vez mais quente, enquanto andava carregando caixas de doces pela rua cheia de árvores. O suor me foi escorrendo pela face, que foi ficando muito rubra e muito franzida de tentar proteger os olhos do sol.
E a tarde se estendeu da mesma maneira: muito quente. O calor entrava vigoroso no quarto, e eu me retirei para o mármore frio, junto a um livro que me provocava uma nostalgia infantil. E a noite chegou bastante agradável, fresca, cheia de brisas que balouçavam as folhas e flores do “petit jardin”. E eu me deleitei com os pastéis de Belém, com o licor de pequi – ainda naquela metonímia interminável? -, retirando-me tarde, ébria tanto quanto se permitisse - mais de satisfação e dum sono gostoso que de álcool-, pronta a abrir janelas e ouvir as gargalhadas e luzes e fogos intermináveis nas diversas e altas varandas. E, dessa vez, não foi um borrão, não foi um obscurantismo, uma agonia ansiosa, uma interminável melancolia; dessa vez, não foi nada além de luz e harmonia.
[e prenúncio de um Admirável Novo Tempo]                     

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Infância

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Estava aqui me lembrando da infância
Aqueles clarões de fogos de artifício
Que se arrebentavam no céu da estância

Estava aqui me lembrando da infância
Debaixo dum grande e pesado pé de jabuticaba
Tão gostosos aqueles frutos que até me saía a baba

Estava aqui me lembrando da infância
Daquela água cristalina
Do meu medo daquela neblina
Que me aparecia bem na esquina...

Estava aqui me lembrando da infância, da infância, da IN-FÂN-CIA
Quando eu me esbaldava sem disciplina
Quando eu podia ter uma campina

Estou aqui me lembrando da infância
Quando eu ainda não sofria de saudade
Nem tinha maldade

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Estático


Eu queria era tirar uma foto disso tudo
Ou até mesmo pintar um retrato

                 [Mostrar ao mundo
                 o tanto
                 que
                esse amor é perniciosamente profundo 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


Essa é a história de certo nó
 apertado, muito bem feito
 delicado feito ele só

Essa é a história de um nó
Constante, imperioso
Destrutivo e rancoroso

Essa é a história de um nó
Tão forte que nem cipó
Que
Esganava sem dó
A minha garganta de gente só

Num belo dia, apertou demais
E eu virei pó

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

desses dias de cárcere


 zumbe-me do canto da sala um mosquito inadvertido pousa no granito frio enquanto aquecem-me lágrimas de teus olhos caídas quentes e salgadas da dor que não apazigua mas se faz entender   nossa miséria prolixa o mosquito vem chegando perto a enxurrada me cai nos ombros e na janela arrastando-me para o insólito a voz tremula nada nos esclarece a nós o mosquito continua a zumbir  tento acudir nos meus seios saliva de lamúria inquieta e raivosa absorta na negridão dos teus olhos escorro junto aos humores que te saem dos olhos e da boca como a própria excreção tu em  perdição  mal te conheço e já me perturbas tanto que me dissolvo infinita em teu pranto  .


terça-feira, 27 de novembro de 2012

elegia de ímpios


mares negros salgados arrostam a chuva estala sobre o toldo de ferro arrostam grandes e profundos mares negros cheios de sal despejam-se e misturam-se junto a chuva arrasta-se para a sarjeta contínua espera janela quebrada d’alma esgueira  escuro acolhe bruxeleia esperança mas sobrepujante dor que me cai dos mares negros salgados dos teus olhos famintos de furor

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Bastará


Chegou arrastando os pés. Tinha uns olhos inchados de tanto dormir, o espírito, no entanto, sempre cansado, assinalando, na face, algumas rugas ao entorno dos olhos. O chão, áspero, em contato com aquele andar mole, produzia um farfalhar de lixa, frio e distante. Arrastou a cadeira, dependurou a bolsa, sentou-se. Dizia-se exausto, doente, prostrado, desanimado, desrespeitado: o que é que havia mesmo era que estava morrendo. Seu rosto mais estreito, emagrecido. As bochechas, os braços, as pernas flagravam-se em uma ligeira flacidez de preocupações, falta de tempo, cuidados, muita bebida e fumo, que lhe escureceu a pele e os dentes, deixando cheiro de nicotina em mãos amarelo-doentes. Esperava, debalde, um alento externo que lhe inspirasse vida.

A sua camisa azul estava amassada, cheia de respingos de gordura, com um cheiro de ranço e traça. E o cabelo mal cuidado assemelhava-se ao dos pedintes a quem havia concedido esmola para as drogas: distribuição de renda. A calça estava com uns torrões de terra na barra, na região das nádegas e próximo aos bolsos.

Demorou-se na cadeira, puxando assunto, esperando, como sempre, o alento. Como não viesse, levantou-se. Quase tropeçou no cadarço desamarrado: expeliu, pois, impropérios. Culpa de sapatos ou das pedras que neles se encontram.

“Está mais triste que fora outrora...”

Sucedeu que, num dia de chuva pesada e relampejosa, encontrou seu alento, após copos de bebida, desperdiçando lágrimas na sarjeta, com diagnóstico de hipertensão, colesterol alto e de angústia aguda e insolúvel.

sábado, 20 de outubro de 2012

Primeiro Anseio Pelo Amargor


Quero conhecer-te, cavalheiro
Conhecer a ti e a teus olhos sorrateiros
 Que tão negros e tão ressentidos
                                     [ esquivos, lançando centelhas de gênio
Expõem um amor interrompido

Quero ouvir-te a voz
Que tanto grita, exclama , sussurra e ama
Que se faz feroz
Cavalheiro, é a tua demora que faz minha cólera

Quero sentir teu cheiro
Que dizem por aí ser de forasteiro
Não tens aquele jeito rafeiro
Antes, tem sentimentos ligeiros
                                     [ e volúveis e mutáveis

De tudo, só lamento uma coisa:
 Tornas tão caro o desprezo
                                     [ ouço
Que não vives em outro estado
Senão de desamparo.




domingo, 7 de outubro de 2012

Casório (ou: Relato de Festa segundo um único desejo e Descanso merecido)


Casaram-se, finalmente, Tomás e Tereza. O sinistro sucedeu-se numa noite de ventos fortes, que traziam consigo hálito de tempestade. Era tão forte essa ventania, que ele temeu que ela se gripasse, com aquelas "canelas de porcelana" de fora: o vestido, fugindo à tradição, era curto, chegava-lhe na altura dos joelhos. Ele não chorou, não fez a barba, não usou terno (a camisa de linho azul clara, a calça cinza e o sapato lhe bastaram). Também não se lembrou. E, no que concerne à pobre moça, Tereza, não sabemos o que o fatídico fez à sua memória ou ao seu estado de espírito. No cabelo, usou uma tiara de flores ornamentada, nos extremos, com pequenos cristais cor de rosa.

Nesse casório - tão propalado pelos cochichos, pelos ruídos e expressões de incredulidade, logo Tomás!- também não houve padre, igreja ou aliança. Aconteceu na estância. Reuniram-se os amigos, que desejavam – ou não - o sucesso do casal.

Os forros das mesas levantavam-se com as rajadas de vento. As cigarras faziam-se ouvir, a música era alta, a comida e a bebida, de incomparável qualidade. A festa foi se prolongando e não se sabe quando terminou. Também, é irrelevante.

(...)

Depois da reunião de amigos, veio o descanso merecido. Tomás voltou corado de sol, cheio de lembranças e sem nenhum deslumbramento.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fumante


Tinha andar sestroso, excêntrico. Trazia os cabelos empapados de um suor moribundo e, no bolso da camisa quadriculada de vermelho, uma simpática caixa de cigarros. A calça trazia um borrão marrom, na parte da coxa, e outro branco, na barra: terra e cloro. Uma mochila surrada e calejada de fainas distantes e árduas era trazida firmemente às costas.

- Você se incomoda com cigarro, fia? , indagou, com uma rouquidão incômoda, a uma mulher de ar pesaroso. A mulher, com a cabeça, negou.

No banco, demorou-se. Olhar parado, cigarro aceso. Tirou papéis e documentos da mochila, correu-lhes o olhar, organizou-os, depositou-os numa pasta azul. As mulheres passavam, e ele as perscrutava, mantendo o olhar indiferente. Às vezes, deixava escapar algo de aprovação, outras tantas, de crítica e deboche. Virou-se para o vidro fumê da loja, passou a mão pelos cabelos. Em relance, seus olhos revelaram-se num castanho denso, acostumado a mágoas.

Ria sozinho, olhando para o céu de final de tarde. O Plaza começava a se abarrotar de gente. E ele gozava seu anonimato, sua invisibilidade, seu mutismo. Ninguém o via, mas ele via a todos e analisava-os com uma impressionante e acintosa meticulosidade. Era, sem dúvidas, uma figura bastante curiosa, aparentemente surgida da inexistência ou da própria estranheza. Num intervalo rigoroso de dez minutos, ele tirava um relógio de prata de dentro do bolso da calça, checava a hora, tornava a guardá-lo. Fumou três cigarros, gargalhou duas vezes, tentou limpar a calça por mais de um quarto de hora. O relógio do Plaza badalou seis vezes.

O itinerante retirou-se: tinha hora marcada em qualquer lugar. Descartou o cigarro. Lá fora, deu sinal para o ônibus que ia em direção à rodoviária. De repente, o Plaza ficou desinteressante.

domingo, 23 de setembro de 2012

De profundis (ou: sobre amar pela metonímia)


Foi após o fatídico. Eu que quis, nessa estranha liturgia de matar as saudades e viver amor pelos cheiros, pelo paladar, pela memória; eu que quis sentir o arrepio repentino, pela metonímia. Eu que quis a tortura, que foi decidida na leitura.  Em ato expresso de profunda e nobre coragem, para mantê-lo vivo, resignei-me à maceração: como a sua comida preferida, em recôndito deleite, deixando-me confundir no amargor e no doce: fecho os olhos e relego o resto à memória; diluo-me na sua colônia; ouço as músicas que aprendi a gostar. Algo de concupiscente passa de leve sobre a pele, sublevando os pelos; desde o fatídico, leio poesia todas as noites e decoro os versos, que recito no silêncio da solidão da noite e na inquietação do pensamento, durante o dia. Outras vezes, pego da pena e me magoo, como agora. Fui eu que quis.

O Rubem só tinha o mata-fome, já eu tenho a comida, a música, a poesia, o cheiro. Nunca me atentei tanto às papilas gustativas nem aos versos dos poemas e às letras das músicas como agora. É que, frequentemente, “a gente aprende a gostar do queijo através do amor a quem gosta de queijo”. Foi depois do fatídico.

“Quem pagará o enterro e as flores
 se eu me morrer de amores?”

sábado, 15 de setembro de 2012

Dos Princípios de Tomás


Como gafanhotos em cópula, estavam misturados, imersos um no outro, indistinguíveis, perdidos em pernas, lençóis e suor. Ruídos embargados saíam de bocas entreabertas e extasiadas.  Era noite e fazia calor impossível, atenuado apenas por ventos que, pela janela, entravam agressivos, trazendo cheiro de capim-limão.

E, ao espelho, restou o papel de refletir. Tomás amou Sabina. Não só aquela Sabina, mas tantas outras que já se perdera a conta; e, enquanto alimentado por um espírito libertino e Leve, amou-as todas com vigor, celeridade e animosidade.

Tomás continuava, em profunda compenetração; o espelho a refletir; olhos azuis cobertos por pálpebras frementes. Findou-se, e ele escalou Sabina com o olhar, agarrou-lhe o queixo, direcionou-a para o espelho. Riu-se. Ela também, em agrado. Para aquele Tomás, não existiriam Terezas, apenas Sabinas; aprazível ideia.

Vestiu-se na manhã seguinte com a mesma camisa, que cheirava a bebida e suor. Sabina já havia ido. Tomás recolheu o lençol, os travesseiros, colocou-os para lavar. Trocam-se os lençóis, passam-se as Sabinas com a mesma frequência com que se quebram gizes e se estouram pincéis.

Apanhou a bolsa de couro, foi à sua lida hebdomadária. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Imanente Fuga


Eu cá tenho dúvidas acerca da veracidade dos fatos apresentados:
O sol estava a pino. O suor lhe escorria sobre as faces. Limpava-o com o lenço que trazia sempre no bolso da calça. O elevador estava cheio: era o feriado. A bolsa de couro pesava-lhe os ombros, papéis, injunções, burocracias de trabalho. Passou displicente e impávido pela secretaria. Nem bom feriado. A barba estava grande, roçava sua pele, aumentava-lhe o calor. No queixo, começavam a despontar fios brancos, resultado do processo inexorável de maturação, de desgaste e dolência e fel. Indeléveis são as marcas de dentro. Desceu o morro e chegou ao estacionamento. Subiu no jipe, jogou a bolsa sobre o travesseiro.
(...)
O vapor d’água embaçou o espelho. Enxugou-se com a toalha, limpou, com ela, o espelho. Que aparência horrível. Teve vontade de ir-se. O problema era ser ele. Não sê-lo seria a solução. Na cama, o mais novo objeto repousava nu, sob o edredom verde. Saiu do banho, cauteloso, temerário de um despertar que lhe exigisse palavras e consolos.
(...)
Andava acelerado, fechando os carros, ultrapassando sinais. E só se fazia ouvir o esforço do motor. Indeléveis são as marcas de dentro. Era menos de duas horas da tarde quando chegou à estrada.
(...)
Fazia frio. Pegou os jornais. Foi seu primeiro dia: túrbido, ele andou pelas ruas. Nunca andou tanto. Foi o seu primeiro dia. O cabelo, que estava grande, caía-lhe na testa. Os olhos azuis eram dolentes. Num gesto de preocupação, passou a mão pelo que seriam pálidas sobrancelhas. Naquele dia, voltou tarde.
(...)
O cheiro de mata lhe invadiu as narinas. Com seu jeito de petiz, riu-se de si, da sua sorte. Estacionou o carro em frente a casa. Numa preocupação infantil, certificou-se de que a pipa estava no porta-malas.
(...)
Comprou a farinha, peixe; comeu outras frutas do cerrado que não aquela sua preferida. Era aquilo que considerava a melhor coisa do mundo. Indeléveis são as marcas de dentro. Escutou um barulho de carro no jardim.
- Pai?
É a fuga imanente, impossível.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Naquel'outra Noite


Foi entorpecimento de tristeza, de ausência tua, de falta de ti deitado sobre o meu seio, quieto, meditabundo, engendrando recônditos planos de amor; deslizando a face sobre a pele, esquivando-se de pensamentos e memórias, molhando-me de lágrimas cáusticas e de fel. E, da tua ausência, a mim, rapaz, restou-me pés gelados que enfiei sob as cobertas, que outrora eram a quentura de um corpo caloso de abandonos, desprezos e renúncias; ausentaste-te.

Rapaz, naquel’outra noite, que não teve samba nem chorinho, as horas passaram arrastadas. E eu furei meu dedo no espinho das rosas da sala. E lembrei-me também que, com esse teu jeito de petiz, eras um bom conhecedor da arte culinária e, sendo assim, adoravas fazer ovos mexidos, camarões e sopinhas depois dos nossos acaçapados gaudérios!

“Tudo pisado, tudo partido, tudo, no chão, jogado”

E atravessaste a rua apressado, aprumado, passando a mão na cabeça, seguindo pela nuca, oscilando de um lado a outro, num molejo de dor. Virou à esquerda. Ausentaste-te. Levou uma garganta seca e rouca, uma dor de ouvido, um resfriado. Deixou-me com a navalha, os tapetes molhados e aroma de colônia. Partiu imberbe; mas, antes, fez-me escutar da tua boca este favo de canção:

“Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor...”

Pois foi que o velho passou, virou à esquerda. E a flor, rapaz, a flor ficou, na janela, olhando-o dobrar esquinas, desaparecendo e reaparecendo pelos quarteirões, na sombra dos prédios, nas torres de rádio da serra, nos faróis dos carros, nos sinos, nos pássaros, na luz da aurora e em espólios de amor. 

sábado, 11 de agosto de 2012

Nos últimos

Cruzou a rua apressado, costurando por entre os carros e, com olhos vívidos, encarava o rútilo violento que os faróis irrogavam sobre a sua face. Segura, bem firme nas mãos, uma sacola branca. Olhava, aterrado, as ruas, coçava a barba, que crescia impossível e hirsuta. Hirto e imperioso passava a mão nos cabelos, descendo até a nuca. E repetia essa liturgia enquanto andava açodado. O céu se enegreceu e pesadas nuvens surgiram.

E andava tão veloz, tão despreocupado, tão displicente daquela urbanidade. Aprumado, deixava a cabeça oscilar de um lado a outro enquanto andava. E chegava perto dos ônibus e não subia. E sinalizava virar à esquerda, mas nunca virava. E cruzava tantas ruas quanto pudesse, e o mais rápido quanto fosse possível, como se estivesse fugindo de algo. E, de repente, sumiu. Não foi por entre os carros nem por entre as pessoas. Deliu-se de tal forma que não o vi mais.

E talvez tivesse seguido por aquele quarteirão, perto daquela outra praça. Ou talvez, como se tivesse escutado uns pensamentos, virou mesmo à esquerda.

Passavam as mulheres, e ele as olhava, com uma solicitude exagerada, numa correspondência às gentilezas das passantes. E a sacola batia em suas pernas, e ele sempre a olhar o conteúdo. E a bolsa pesava nos seus ombros, querendo cair, mas ele ajeitava-a. E retesava e chacoalhava o pescoço. Poderia ter passado num bar, pedido uma cerveja e, por lá mesmo, ter ficado até tarde. Poderia ter pegado o Defender branco, sertões, e ter ido ao Conservatório.

E tudo se dissolveu em Tomara, durante uma madrugada toda feita de vinho, vitrola e “a coisa mais divina/ que há no mundo/ é viver cada segundo/ como nunca mais”.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Felicitas Aeternum


“O dia amanhecia cinzento. Fiquei um bom tempo olhando para o teto do quarto antes de levantar. Descobri-me enfarado de escrever. Há três dias enfurnado em casa, acordando às 6:00, escrevendo até as 18:00, sem parar. Tocava piano, comia qualquer coisa e das 20:30 às 23:00, eu contribuía para o esgotamento do estoque dos vários Louis XIII que tinha em casa. Precisava sair do apartamento, senão, ou ficava louco ou morria de esgotamento cerebral. Fui ao banheiro: meus olhos verdes emoldurados de um cansaço escuro, um sorriso verdadeiramente feliz despontando de sob aquela barba imensa. Eu também precisava de um banho. Confesso: não havia tomado nenhum banho naqueles três dias. Escritores, quando obsessivos por uma obra, beiram à loucura. E eu já tinha essa predisposição. Eu peguei a lâmina de barbear e molhei todo meu rosto, espalhei o creme de barbear, passei a lâmina cuidadosamente. Observando-me melhor no espelho, os cabelos negros e bem cortados estavam imersos numa oleosidade indisfarçável. Entrei para o banho. Não percebi quão sujo eu me sentia até sentir a água quente batendo no meu corpo. Ensaboei-me três vezes, corpo inteiro. Esfreguei meu couro cabeludo sem dó. Finda a liturgia, saí. Finalmente limpo, enxuguei-me. Pus o meu suéter preto, uma calça de brim cinza.

Estava caminhando pela rua, em direção ao ponto de ônibus em frente à chocolataria. Pensava que os meus dias intensos debruçados sobre a máquina de escrever não tinham me rendido muitas páginas úteis: chuto umas trinta páginas, no máximo. Sim, eu escrevo à máquina. Elas são uma paixão. Tenho três disponíveis em casa e mais quatro dentro de uma caixa de vidro que mandei construir especialmente para elas, a fim de que pudesse admirá-las. Sim, eu levo as minhas paixões a sério.  Chegando ao ponto de ônibus, vi que ele abrigava, pelo menos, uma dezena de pessoas. Por isso, concluí que deveriam ser umas 6:00. A linha que eu iria pegar era a do centro. Eu tinha carro, mas gostava de andar de ônibus, principalmente quando o destino era o centro: eu, relutantemente, descobri que, lá, era o valhacouto da minha inspiração, por mais que não acreditasse em inspiração. O povo estava abatido, e a minha face, apesar do cansaço, era um claro contraste daquele abatimento. Quando vi o ônibus cheio, logo desisti de ir ao centro. Segui caminhando, toda vida, pela rua da farmácia. Quando cheguei à esquina, encontrei meu ex-professor, Adelmo, com sua característica maleta, seus óculos aro de tartaruga, sua calça até o umbigo:

- Professor! Quanto tempo, como está o senhor?

Olhou-me por uns segundos, antes de se lembrar de mim:

- Rapaz! Sim, já faz algum tempo, uns dois anos? Como está você?
- Bem, senhor. O que faz aqui?
- Somente caminhando. Hoje, vou dar a última aula antes da greve.
- Greve?

Fomos andando por toda a avenida, enquanto ele me contava dos bastidores da faculdade. Adelmo sempre foi pontual ao extremo. Por isso mesmo, faltava mais de uma hora e meia para sua primeira aula: viva os ingleses, o povo mais pontual do mundo! Estava morto de fome, então pedi que parássemos na Doces de Portugal. Sentamos nas mesas. Enquanto eu devorava um bolo de fios de ovos, ele me contava no que o governo estava transformando as federais:

- Estão sucateadas. Alunos cada vez mais incapazes conseguem entrar, não sei como isso vai se resolver. Todos os professores estão desesperados.

Não sei por que motivo, disse:

- O povo está abatido.

Adelmo aquiesceu, olhou-me longamente e acendeu um cigarro, velho hábito seu, e perguntou:

- E você, rapaz, o que anda fazendo?
- Escrevendo, senhor.
Sorriu-me:
- Sobre o quê?
- Uma obra feliz, entende? Quero escrever a primeira obra feliz desse mundo. Não é uma comédia. Uma obra que, quando as pessoas terminem de ler, não se sintam pesadas, mas também não se sintam Leves. Que elas se sintam libertas, felizes... Pelo menos, é esse o objetivo.
- Você sempre foi um sonhador. No entanto, meu melhor aluno.
- Precisamos sonhar com alguma coisa, afinal. Aliás, mesmo inconscientemente, estamos nos anestesiando da realidade, mesmo que por alguns segundos. Se a vivêssemos intensa, como verdadeiramente ela é, não hesitaríamos em tirar nossa vida.
- Quando a velhice bater às suas portas, diga-me se vai sonhar com alguma coisa.
- Ah, a velhice! Tão, permita-me dizer, erroneamente preconizada pelos poetas como o início da amargura do ser.
- Acho que isso é imutável, meu caro, até para um sonhador como você.
- Certamente, uma mentira vira verdade de tanto a repetirmos. As pessoas, quando velhas, deveriam ser mais felizes. Que solidão, o quê! Abrace-a. Faça dela sua principal companhia.  Eu ficaria feliz em ver quanto eu já vivi, quanto eu aprendi. A solidão não seria nada perto disso. O problema é que o ser humano nunca faz balanços: sempre toma como totalidade o lado ruim das coisas, quer carregar o mundo nas costas. Pretendo ser um velho diferente, se eu chegar lá...
- Não fale asneiras, eterno sonhador. Gostaria de ler o livro, quando sair. Lembra-se quando escreveu um ensaio sobre a felicidade, num trabalho da faculdade? O melhor que já li. Lembro que leu Ernest Hemingway, Henry Thoreau, Charles Dickens, tudo para saber em quê não se inspirar/ adotar, para que o ensaio sobre a Felicidade fosse feliz, não melancólico. Perfeito. Leu de tudo que poderia ler.

Desatei a rir, tinha levado dois meses preparando o ensaio, com a mesma obsessão que, agora, dedicava à minha obra. Depois, disse-me:

- Ora, jurava que tinha virado professor.
 - Não tenho paciência para esses acadêmicos imbecis que pontuam como orangotangos, sem perspicácia de estilo, sem interesse pelo impacto literário. Aliás, são uns verdadeiros analfabetos literários. Realmente, professor, reconheço que o senhor irá para o céu! Os acadêmicos dessa geração são verdadeiros macacos!
- Confesso que não posso deixar de concordar!

Adelmo gargalhou. E eu, por conseguinte. Em seguida:

- Como faz para viver, então?
- Escrevo vários artigos para diversos jornais e revistas, além de vários argumentos para a TV. Só esse ano, acredito eu, fiz 10 argumentos. Artigos incontáveis. De vez em quando, arrisco-me a escrever novelas. É claro que, como escritor, tenho que me prostituir intelectualmente, mas eu me redimo com outras obras. Há um saudável contrabalanço.

Conversamos longamente e, naquele dia, Adelmo perdeu seu horário pela primeira vez. Depois da minha conversa com o professor, num arroubo nostálgico, visitei meu antigo colégio que ainda fazia o mesmo sucesso de antes. Inúmeras aprovações nos cursos mais concorridos. Continuavam marqueteiros como sempre. Um banner na entrada. Meu irmão sempre diz que eu fui uma grande decepção para o colégio. ‘Você era bom em tudo. Professores de Biologia te empurravam para a Medicina. Os de matemática e física para as Engenharias. Os de Química para a própria Química e para a Engenharia Química. Somente os de Português ficavam neutros. Já sabiam o que você escolheria’. Eu permaneci na frente do portão, do outro lado da rua, enquanto todos os alunos chegavam. Dei o bom-dia a todos eles. Inclusive a uma ex-professora minha, que já tinha os fios da cabeça prateados. Acho que ela não se lembrou de mim. Gostei daquele momento em que permaneci invisível e esquecido do mundo. Reparei como a rua do colégio era bonita. Inclinada, era cheia de árvores e, pela manhã, o sol derramava um lírico dourado pelas folhas caídas pelo chão, que o vento levantava com uma brisa leve.

Cheguei à minha casa no início da noite. Descobri-me sozinho e abracei a solidão. Abri meu último Louis XIII, bebi-o todo, enquanto tocava piano, escrevia e, pela primeira vez, cozinhava. Era madrugada quando caí na cama, sentindo o cansaço de um corpo que andou o dia inteiro. A Felicidade me acolheu em seus braços, e eu dormi. Um ermitão feliz e sonhador. E sorri-me com esse pensamento."

sábado, 14 de julho de 2012

Para se acabar na quarta-feira



Essa noite, com sede de vida, abri as janelas de par em par e deixei que o vento de um inverno ameno entrasse no quarto, acompanhado da música que lá fora se pronunciava alta em chorinhos, sambas e bossa nova. Esqueci-me do mundo. Pousou a mão em meus ombros, enquanto eu observava a rua vazia. Riu um riso sapeca, lépido: fez-me rir também. Consagrou-se o momento com uma nostalgia do que nunca vivi, ou melhor, do que nunca vivemos. Candidamente, rimos os dois, até que nossos olhos começaram a lacrimejar. Ambos partilhávamos dessa sede de vida que é insopitável, em nosso caso, ao menos. Com a noite às portas das onze e meia, a música foi obrigada a parar, com essa maçada que nos jogam os tediosos de que a música, em seu mais nobre estado de pronúncia, incomoda e atrapalha o sono [dos finos e importantes]. Assim que ela cessou, olhou para mim com ar de quem não se satisfez com aqueles poucos chorinhos.

 Éramos de uma época distante, certamente: deveríamos e gostaríamos de viver no século XX, lá pelos anos 1960, 1970. Mas a nossa vitrola era o próprio computador. Assim, deveríamos nos virar com nossas músicas e a imaginação. Houve um transporte confuso, mas de beleza inefável. As varandas, todas elas, pela primeira vez, estavam com as luzes acesas, de modo que ouvíamos o falatório, que era sopro de vida, com prazer. Esse sopro foi reforçado pela música e pela brisa fria. De onde estávamos, podíamos ver as montanhas e as luzes da cidade e do tráfego.

 Em Lazy Day, seus olhos negros faiscaram com um brilho feliz, sua face, corada pelo frio, iluminou-se. Concedemo-nos o direito de dançar, ato que seria vexaminoso se realizado na presença de um público. Rodopiou-me infinitas vezes, colocou-me em seus braços, pegou em minhas mãos, levantou-me. E, ao encostar a cabeça no seu peito, senti as batidas fortes e compassadas do seu coração, senti seu peito másculo e duro vividamente quente: era o sopro de vida.
Estávamos em Sometimes, e o vinho estava fechado.  O pão ciabatta e o patê ainda não tinham sido tocados. Não sentíamos fome, frio, cansaço. Era o sopro de vida. A TV estava no mudo, e o telefone, fora do gancho. O interfone também. 
Num seu ato de loucura, aumentou o som, colocando-o no máximo.

Em Vacation, parou um pouco, olhando-me fundo nos olhos. Distingui em seu olhar uma tristeza aguda e que tentava, em debalde, ocultar-se de mim. Quando me vi em seus olhos, vi que reconheceu a mesma coisa nos meus também. Nem o sopro de vida. Pegou o vinho, tirou a rolha de cortiça e, inconsequentemente, jogou-a pela janela. Tive medo de que acertasse a cabeça de alguém ou a janela de algum vizinho. O líquido derramava-se suave, num escarlate sanguíneo e sedutor.

Estávamos em Youth, quando a lucidez voltou a seu corpo e abaixou o volume. Bebemos o vinho, em um silêncio agradável que era pertencente aos amantes mais íntimos. Pegou as torradas. Acho que as comemos todas. As luzes de algumas varandas se apagaram.  Voa tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar/ por um momento de sonho e fantasia/ e tudo se acabar na quarta-feira.

Eu sem você não tenho porque/porque sem você não sei nem chorar/sou chama sem luz/jardim sem luar/luar sem amor. O nosso poeta comum, mais uma dentre as várias partilhas nossas. Lembro-me bem, lembro-me com aquela nostalgia do que não vivi, do que não vivemos. Envolveu-me com braços fortes, numa violência romanceada, delicada, açorada. Sua voz saiu grave, imperiosa:

- Se quiser, podemos nos perder do mundo aqui, para sempre ou pelo resto da noite.

Estávamos roxos de nós, numa reciprocidade sôfrega e aluada. E depois, fomos conduzidos, não sei pelo quê, à pequena morte. Até o sopro de vida.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O que, daqui, pode brotar?


De um emoldurado turvo e de caráter onírico, uma rua se estendia à minha frente. Tudo parecia envolto numa película esverdeada, que dava à cena sabor de recordação. Na esquina da rua, uma farmácia. Na memória onírica, o ressoar de tal Edifício das Quadradas Perdidas. Supus que fosse aquele, ao lado da farmácia, perto da praça, que eu já não sabia mais o nome. Era verde musgo, como a película leitosa que envolvia a cena, e era cúbico, um pedido do sugestivo nome. E, em uma fusão efêmera e desordeira, eu cheguei ao corredor principal do edifício. Ao som de uma ária (ou talvez só fosse Edith Piaf), eu me atentei: tinha objetivo certo, desde o início da cena. Uma patota de crianças veio correndo e gritando, pareciam felizes, saudáveis, vestiam-se às antigas, os meninos com as boinas, as meninas, com saiote e laço. Era tudo sabor de memória. Não deveria estar frio, pois o cabelo dos meninos estava empapado de suor. Não sei por que eles correram por aquele corredor, espraiando sua cândida felicidade, mas tive meu momento de Leveza.

Eu andei contínua e exaustivamente pelo corredor. Estanquei em frente à porta de onde saíam as árias. E, num sussurro confidencial: “Deve ser aqui”. Então, saiu, com uma toalha enrolada na cintura, tampando seu sexo. Estava com cabelos molhados; a face corada pelo vapor d’água. E, quando me viu, surpreendeu-se. Falou algumas coisas que a película não me deixou ouvir, mas que foram prontamente respondidas com reações subconscientes e automáticas.

Mais uma fusão. Uma peça modesta, um sofá preto, uma televisão antiga, uma vitrola. Sua figura com a cabeça apoiada nas mãos. O disco na vitrola rodava. Era Vinícius, no seu “Samba em Prelúdio”. Estava com o olhar baixo, de forma que não pude apreciar a já sabida beleza da cor dos  seus olhos. Vertiginosamente, a imagem se desintegrou num tal violento golpe de realidade, que fez arder meus olhos. Tanto ele, como seus olhos, de que tanto gosto de falar, estavam imersos na poesia de Vinícius, deixei-os.

Saí dessa película com as crianças gritando lá fora, com o “Samba em Prelúdio”, com a condescendência da minha própria mente em matar saudades numa mistura prazerosa do que eu adoro, saí com a tristeza de não ter podido ver seus olhos. Saí e, durante todo o dia, fiquei com esse teatro demente impregnado na mente, sem saber o significado do vapor d’água, da ária, do Vinícius, da praça e da vitrola, sem apreciar o azul profundo e denso desses olhos aluados. As crianças devem ter descido ao parque da praça e gritado sua felicidade.


"Ah que saudade
que vontade de ver renascer
nossa vida"

(...)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sobre Solidão


Era um rio plácido, corria manso, límpido e foi nele que me joguei. E senti a água fria envolvendo meu corpo, numa frieza que faz sofrer os ossos, mas apraz a alma. E não importava se havia luz: a água do rio me arrastava, eu ia de um lado a outro, aceitando numa  calma de quem nada teme do mundo o chacoalhar que a água me irrogava. As flores fizeram-se ser ouvidas pelo cheiro, pela sua alma latente. Eu pisei em terra, sujei-me da lama e me deitei sobre a margem do rio. Um refúgio não mais incólume; um refúgio cansado de tanto proteger, cansado de se sustentar. Não havia viv’alma, nem olhos, bocas, porque se se tem tudo isso, não se tem mais paz, não se tem mais o direito de inexistir. Despi-me de essência, cuidado, brio, vaidade. Despi-me de próprias roupas. E, um pouco mais à frente, nem sei mais onde, estendiam-se os mares de morros, as minhas vulgares montanhas. E meus olhos se impressionaram com a beleza das nuvens. Os meus personagens não têm nome: são todos refrações do próprio ente que, mais do que nunca, desconheço em ideal, propósito de existência, personalidade e caráter. Os pássaros fizeram-se ser ouvidos pelo seu canto edenizado, bem como o vento que soprou as árvores, embevecido da natureza virginal, do ânimo desobrigado e da Solidão idílica. De nada adianta pegar da pena, porque penas e cartas e apelos e gritos e pedidos são mudos e perdidos em Mundo. Eu me senti cansada antes mesmo de subir a minha montanha vulgar. Mas eu subi. De lá de cima, eu pude vislumbrar o meu rio, pude sentir a claridade, o calor, pude observar as nuvens sem deturpações.  Eu me concentrei nos passos, observei cada pedregulho, cada gramínea, senti cada mialgia, cada sede, cada orgulho, cada escarpa. Sob a sombra da Solidão, eu fechei e descansei meus olhos. Depois me preocuparia com a descida. Desobriguei-me sem sombra, sem água, sem certeza de sucesso. Desobriguei-me somente com a aceitação.

domingo, 24 de junho de 2012

(...)


Sentou-se no meio fio, pôs-se a vomitar. Deitou na calçada. Sujaria seu paletó, seus cabelos, suas calças. Ficaria sujo, tal qual o mundo e o resto das pessoas. Pro inferno! Já estou todo emporcalhado mesmo. Perdera a gravata no caminho. Ainda deitado na calçada, observava o céu. Céu sem estrelas: era a luz e a poluição da cidade. Tão me devendo um céu estrelado. Seu rosto era lívido, já não sabia quanto líquido havia perdido no suor, na urina, no vômito. Olhou o pulso, buscando o relógio, mas perdeu-o também. Tão me devendo um relógio. Passou a mão na face: a barba hirsuta. De repente, um estrondo, ritmo bate estaca, letra de anencefálico. Luz dos faróis se aproximando, era um Santana velho que trazia aquele som insuportável. Apalpou a cintura, o coldre ainda estava lá. Tão me devendo música boa. Levantou-se, estancou na frente do carro:
- Desliga o som, companheiro.
O homem que dirigia o carro usava um boné verde, óculos escuros de camelô, bigode trocador.
- Vai ...
Antes que impropérios fossem proferidos, puf, puf – era o barulho da arma com silenciador.
- Conheço o tipo pilantra – disse o homem que outrora era só mais um desgraçado deitado na calçada.
Deu mais quatro tiros no motor do carro, vasculhou o motorista, achou dinheiro, deixou-o lá. Tão me devendo gente honesta, íntegra, reta.
Pegou o ônibus na esquina. Sentou-se no fundo, ao lado da janela. Parou no alto da avenida. Foi tomado por uma leve vertigem, perdeu o sentido por alguns instantes, mas logo voltou a si. Desceu para a zona boêmia da cidade. Luzes de restaurantes, dos faróis, o samba lhe invadindo o ouvido. Estancou na frente de um restaurante badalado. Passou um homem à sua frente, ele parecia correto, perguntou-lhe as horas. São meia noite e meia, informou. Pensou alto:

- É agora que nesses restaurantes só se acham os crápulas com suas respectivas putas.
Agora isso acaba. Um homem gordo saía do restaurante, o terno era caro, no dedo um anel. É, eu detesto esses refeces que ficam usando anel. Hoje isso acaba.
Puf!, puf!.
Agora, ele corria, corria. Ofegava. Mais uma dose.
Acordou com um incômodo nos olhos: era a luz do sol, pateticamente posicionada sobre esse desgraçado, que agora acordava sobre um banco de quaisquer praças dessas daí.
Tão me devendo óculos escuros.

domingo, 10 de junho de 2012

Inerente


Desculpa-me, mas não pude evitar:

“Pegou a cadeira de metal, colocou-a no jardim. Observava o mato que se estendia à sua frente. Turvou o olhar e, durante algum tempo, em nada pensou. Foi quando um movimento chamou-o de seus devaneios, trouxe-o à realidade: era o Marquinhos abrindo a porteira, vindo em sua direção. Quinto dos infernos! (como gostava dessa expressão! Ah, agora, sim, mineiro por completo), pensou. Rapidamente, Marquinhos o alcançou. Nas mãos, uma sacola. Chegou-se a ele, ofegante:

-Mamãe mandou pr’ocê.
De súbito, sorriu: era a simpatia. Gostava do Marquinhos, da sua mãe, Dona Aparecida, o busílis era o seu humor naqueles dias.
- Ô, Marquinhos, muito obrigado, não precisava incomodar. O que é que tem aqui?
Comprimiu os lábios, hábito seu quando indagava alguém.
- O pequi e o frango com angu e o arroz que cê gosta. Mamãe estranhou o nhô não ter ido comê lá com a gente...mandô eu trazê aqui.

Pequi...

- Aham, pede desculpas pra sua mãe, Marquinhos, é que eu ando meio distraído, mas muito obrigado. Espera aí, só um minuto...

E correu a casa, deixou a comida em cima da mesa de madeira. A cozinha era deveras simples, aliás, a casa nem sua era: Marquinhos também a havia arranjado para que ele passasse os feriados, fins de semana, dias que quisesse: era a simpatia. Chegou-se ao Marquinhos:
- Faz um favor, Marquinhos? Será que pode ir comigo ao terreno?
- Uai, se o nhô tiver precisando, eu vô.
- Então, vambora.
Entraram no jipe velho, branco e simpático. Passou-se algum tempo em que só se via mato, depois passaram o córrego, chegaram a um descampado:
- Ajuda a medir aqui, Marquinhos.
Mediram, mediram, mediram novamente. Anotações, mais anotações. O sol estava muito forte, tostava sua pele, a toleima do calor começou a vir, o suor começou a lhe descer pelo rosto:
- Chega, acho que tá bom.
- Ocê já fechou negócio com o Firmino?
- Já, sim.
E foi ao córrego, molhou a face. Mal sabia do azul denso dos seus olhos. Não sabia que horas eram, nem poderia, nem queria: céu ainda era azul, sem nuvens, mas o sol tinha caído um pouco. Quem se importa?
- E ela?
- Ela quem, Marquinhos?
- Sua muié, uai, quedê ela? Veio não?
- Não.
E endureceu o olhar, o maxilar, olhou para o céu. Ouviu um corvo grasnar.
- Vambora.
Deixou o Marquinhos em sua casa. Não, obrigado, Marquinhos, tenho umas coisas a fazer, fica para a próxima. Agradeça à sua mãe.
Chegou a casa. A comida estava morna: Droga...dane-se. Comeu o frango com angu, o arroz: Ah! Isso é dos deuses... E o pequi? O pequi, ou melhor, os pequis, ele os comeu quase todos: Três para durante a semana. Eram dez pequis, eram.
Assim, passaram-se quatro dias, banho frio, sem luz elétrica, relógio, telefone, televisão, celular, nada da “excelsa” civilização. Nada do barulho do tráfego, nem das buzinas, nem da Amanda. Nem da Amanda, pensou. No final da tarde de domingo, arrumou as coisas, colocou-as no carro. Deu partida no motor. Belo ronco, o do motor. Ligou o rádio:

‘Vem, vamos embora, que esperar não é saber/quem sabe faz a hora, não espera acontecer’

Que coincidência!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

[Ratione nihil]

A caldeira do jornal sibila mais uma vez. Nem sorrisos, nem amores, nem fome, sede ou cansaço. Somente o Nada. E não há luz. Remexeu-se mais: uma vertigem. A torneira pingava implicante. Tudo tão insignificante, desinteressante, simples. Tanta exigência pelo simples! O complexo é indesejado, deve ser descartado, hermético em demasia! Não há resposta, nem saída, não há, ao menos, pergunta. A garganta seca. A madrugada ainda estava debruçada sobre a janela. Resolveu se debruçar também: o vento era frio. Nos postes, não havia luz. A rua era deserta, vida não havia. Inexistir, não propriamente morrer, mas inexistir. É uma resolução afirmativa: não é desejo de morrer, é desejo de inexistir. Mais um estouro da caldeira, a impaciência traduzida em fortuitos noturnos. Que é isso, pois? Que é que ocorre? Cheiro de girassóis acentuando a vertigem. Acender o abajur, o abajur... William, que William é esse? Boa música, boa comida, bom banho, ah!, é o Kapell, ele, sim:  aumente, sim, pois, não? Que significado, que coisa esquisita, que olheiras, que displicência, que simplista, que complexo: entendam-se!
Mas a anedonia não lhe privaria também da vertigem, dessa dor, dessa tontura? Deixe estar que passa...esse lamaçal, qual o quê! Nada disso, olha no espelho, olha! E o teatro, o cinema? Fostes ao jardim? Qual o quê, tempo não tenho!
Abajur, onde está o abajur? E o interruptor? Luz não há. Molhou o rosto, a água era quente, fria, morna, escaldante? De onde vem esse sangue? Estanque-o rápido. Kapell? Sim, senhor? Kapell, romântico, quadros, que vertigem...morangos? e para mim? Prazer, prazer...não, senhor, daqui não sai nada: nem ideia, nem pensamento fluido, nem sanidade. Por onde anda que não te vejo mais? Ah, nem eu sei, saí por aí...bom te ver, bom te ver. Cordiais, despedidas, sim, aumente um pouco mais, que é isso? Violino? Não, não, piano. Massa ignara!
Kapell, novamente? Sim, ele mesmo, quer que aumente? E essa caldeira, quanto barulho, aumente mais! Vamos, o que é isso? Mais que gosto dele, muito, muito mais! Não, senhor, não é violino, é piano, sim, sim, acho-o melhor que Rachmaninov, sim, qual o problema? Massa ignara! Está perdendo a razão? Não, eu não, por que estaria? Está dizendo coisas sem sentido! Não, que é isso, claro que não, agora resolve decrescer nessa nota, pois aumente mais! Onde está o maldito abajur que não o acho? Eu mal sei.
Pois então aumente mais!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sal


- Peça bênção a seu pai.
O menino, rubro de contrariedade, aproxima-se, cabisbaixo, interiorizando sua recalcitração.
- Bênção, meu pai.
O pai beijou-lhe a cabeça: era sua bênção. Na mesa, sentaram-se todos para comer, os três irmãos. O menino que pedira a bênção ao pai sentou-se entre o irmão mais velho e a mãe. Começaram a falar de algumas coisas que não entendia. Decidiu-se levantar. O pai, com severidade, puxou-lhe pelo braço, sentou-o na cadeira:
- Coma.
Só fez-se mais nervoso. Salgou a comida a esmo, um protesto. O pai, vendo tamanha feita, retesou os músculos da face. Agora, era um tirano:
- Vai comer todo o sal que pôs no prato.
O menino, sem resistir, chorou. No seu âmago, sangue escorria. Odiou o pai, mas comeu todo o sal.
- Com a licença do senhor.
Correu pelo jardim, atravessou o chão batido de terra e foi em direção ao córrego. Bebeu a água que, límpida e plácida, refletia seu rosto. Achou que beberia toda a água do mundo. Achou que morreria. Tirou a camisa, as botas, a calça e a cueca. A água estava morna. O sol, as nuvens e o céu, solidários. Bebeu toda a água que pôde. Saiu e, assim mesmo, encharcado, pôs as roupas. A barriga lhe pesava e fazia um barulho deveras divertido. Chegou a casa, subiu ao seu quarto, mas, antes:
- Com a bênção do senhor.

domingo, 20 de maio de 2012

Ecce aenigmate


Tornou-se uma figura tão interessante, com um magnetismo tão intenso que já não consigo tirar-lhe dos pensamentos. O olhar, um vício insustentável. Vestia-se com seus molambos, um protesto às injunções e fatuidades sociais.
                                                      ?
“Barbeava-se com cuidado e precisão indizíveis. Mais um movimento da lâmina, que caminhava pelo seu rosto, retirando-lhe a espuma branca. Cortou-se. Mais um movimento. Outro corte. Finda a liturgia, partiu pequenos pedaços de papel e colocou-os sobre o ferimento. Sua face, cheirosa de erva doce. Seu corpo, já mostrando os primeiros sinais de desleixo, a proeminência da barriga. Segunda-feira. ‘Um dia já seria o suficiente para que o ser humano obtivesse o necessário para sobreviver’, mas teria de trabalhar, e trabalhar como um burro de carga, pelo resto da semana. Os primeiros raios de sol aboletavam-se na janela do banheiro. Enrolado na toalha, esquecido do mundo, abriu bruscamente a porta do banheiro. Esqueceu-se da namorada que dormia. Um movimento conhecido, dobrando os joelhos, abrindo um pouco mais os olhos, ‘Desculpe, meu bem’. Nem beijo, nem abraço, nem  bom dia, nem sorriso. Antes de se vestir, sentou-se no pé da cama e deixou seus ombros curvarem.”
(...)
Fusão para a cachoeira. Fusão para o frango com quiabo. Fusão para o sexo prosaico, animal. Fusão para o jipe branco na estrada.
(...)
"Só lhe faltava estar envolvido em um crime para se tornar protagonista da literatura fonsequiana. Levantou-se, foi se vestir. Alguns minutos depois, achava-se com uma calça jeans de lavagem azul clara, com um detalhe de pano atrás, uma camisa amarela excessivamente comprida, um tênis caramelo. Olhou novamente sua namorada estendida na cama. Balançou a cabeça, de um lado para outro, negativamente. Desaprovava a si próprio. Ao passar pela sala, olhou-se novamente no espelho. Levantou a sobrancelha, fazendo a sua expressão única. Saiu assim mesmo, sem amarrar os cadarços ou pentear o cabelo; sem beijo na namorada, sem perfume, de estômago vazio. Colocou a bolsa de couro atravessada. Lembrou-se de pegar o celular. Iria almoçar com o pai num restaurante popular perto do trabalho.”
                                                 ?

O público se intriga com tanta revelação e pouca elucidação. Ecce aenigmate.

sábado, 12 de maio de 2012

"Como vento em palmeira seca"


      

A mim pouco me importava se já era escuro ou se já deveria encerrar a noite na mesma pequena morte de todos os dias. Saí às ruas, a procurar por mim, pelos meus olhos, pelos meus sorrisos, até por minha vontade procurei. Nada disso encontrei. Em vez disso, descendo a rua, vi um andarilho bêbado e cambaleante, pivetes e meretrizes. Nenhuma árvore balançava com o lírico som do vento. Nenhuma construção imagética. Nada. Somente o intenso Nada que se propagava pela noite. Não sei se fazia frio. Tudo quanto senti foi uma queimação nas narinas e uma asfixia sem fim. Seria um estranho quadro de hipóxia? 

Eu corri. Corri o mais rápido que pude. Estava lívida quando lá cheguei. Quando, de novo, estava sob a jabuticabeira, colhendo doces frutos, esquecida do mundo. Mas ainda havia Incerteza. Um peso se abateu sobre mim. Meus ombros se curvaram, meus olhos foram ficando turvos.

O Lobo na estepe uiva. Assim, esse louco Jogo das Contas de Vidro, no qual me perco sempre um pouco mais a cada vez que me aprofundo, realiza-se irremediável e incontido . Mordazes e perversos usam-me, subjugam-me e, logo em seguida, descartam-me.

É como o cão que gane sob o luar, temeroso do escuro, “como o vento em palmeira seca”, como a jabuticabeira que nunca chega, é como a realidade que nunca se basta e só atormenta, é a ausência do meu incólume refúgio.

Usa-me e descarta-me. Descarta-me e usa-me, “por gentileza”. Quanta servilidade! Quanta covardia!

[São essas as Correntes]

domingo, 6 de maio de 2012

Despojos


“Os homens ensinaram que há dois caminhos na vida: o caminho da Natureza e o da Graça. Deve-se escolher qual dos dois irá seguir. A Graça não atende a indulgências. Antes, atende ao Desprezo, Esquecimento e Indiferença. Aceita insultos e golpes. A Natureza busca somente sua Satisfação, não a dos outros.”
Tombou abruptamente sob a chuva. Caía-lhe furiosa, lavando-lhe a face, os cabelos, arrepiando-lhe a pele, sufocando-lhe. Entrava-lhe pelas narinas, descia-lhe pelo corpo, congelava-lhe o movimento. Sucedeu-se naquele estrambólico outono, quando o céu é de um azul melancólico, que espraia a frieza e a contrição. O sol desabava. Não trazia mais nenhum calor.




“Onde está a Graça?”
“Não posso dizer-lhe.”
“Ela é terna?”
“Ela atende ao desprezo, à vaidade, à demência, à mediocridade e à autodestruição.”
“E ela é vasta, incolor, inodora. Ela vem com o jugo e se estabelece incontida. Vicia-nos em sua convivência perversa.”
“E a paixão?”
“Paixão pelo quê?”


(...)


“Você falou comigo através do vento, da água e dessa Árvore.”
 “Mas não há como seguir o caminho da Natureza. E também a Graça é inalcançável.”
“Esqueci-me de você...”


(...)


E, sendo hermética assim, a situação:
Encerrou-se em desespero. Ainda estava tombada sob própria crueza. 

domingo, 29 de abril de 2012

Das intertextualidades dessa vida


“Encarava-me acintosamente. Por um momento, tive vontade de lhe esmurraçar aquela cara irônica e ácida. Parei, reparei em seu rosto. Ele continuava olhando descaradamente. Resolvi, então, cumprimentá-lo: baixei a cabeça, cordialmente, como que aquiescendo. Com o mesmo gesto, ele respondeu. Definitivamente, era uma figura pitoresca: uns olhos azuis densos, que, muito provavelmente, perdiam-se em insanidade, o rosto maltratado de olheiras, os cabelos dum castanho claro, as sobrancelhas quase inexistentes de tão claras, os cílios armados; suas roupas não possuíam uma combinação harmônica: um blusão azul, com alguns rabiscos, uma calça jeans surrada...sim, é certo, trazia certo enleio implícito nos gestos e, até mesmo, no olhar louco. Pude reparar, então, quando da volta da minha lucidez, minha própria imagem: não havia sujeito algum, além de mim e meu reflexo no espelho. Céus, como estava idêntico ao meu pai.
(...)
É triste lembrar-me de meu pai nos seus últimos dias de vida. Morreu aos poucos, ficando cada dia mais dependente: limpavam-lhe, davam-lhe de comer, barbeavam-lhe. Não era em nada parecido com aquele homem de outrora que tanto trabalho havia dado à minha mãe: um mulherengo nato. Posso dizer que dele herdei os olhos azuis, sua paixão incontrolável pelas mulheres e sua maneira hiperbólica de expressar opiniões e agir. Nunca o conheci, intimamente falando. Durante nove anos da minha vida, não o vi: partiu em suas aventuras, deixando a mim e a meus irmãos sob os cuidados de uma contrita e amarga mãe. Como estava parecido com ele! O rosto macilento, a barba hirsuta, o desleixo com as roupas. Estava começando a engordar...
(...)
As minhas memórias são turvas, sim, e pouco me lembro de meu pai, mas, na última vez em que estivemos juntos, antes de ele morrer, ele me falava, enquanto olhava para as coxas da enfermeira que dele cuidava, que ‘mulheres, ah!, meu filho, mulheres!, sempre que tiver uma oportunidade, faça-as sorrir para você!’. Depois disso, pouco me lembro; a loucura, em toda sua potência, havia se apossado de mim, das minhas memórias, desfigurando-as, transformando-as, fazendo de mim um eterno perdido em própria existência.
(...)
Nunca amei uma mulher: uma volubilidade indomável, que, ao menos, supre meu sentimento covarde, extingue o meu medo de solidão e abstinência sexual. No último ano, conheci uma que se mostrou interessante,num extenso complexo emocional, profundamente entrópica, tal qual Clarice Lispector...


- O senhor já quer fechar a conta?


E permaneço obscuro, tal qual o nosso protagonista de Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos. As semelhanças são deveras significativas."