domingo, 24 de junho de 2012

(...)


Sentou-se no meio fio, pôs-se a vomitar. Deitou na calçada. Sujaria seu paletó, seus cabelos, suas calças. Ficaria sujo, tal qual o mundo e o resto das pessoas. Pro inferno! Já estou todo emporcalhado mesmo. Perdera a gravata no caminho. Ainda deitado na calçada, observava o céu. Céu sem estrelas: era a luz e a poluição da cidade. Tão me devendo um céu estrelado. Seu rosto era lívido, já não sabia quanto líquido havia perdido no suor, na urina, no vômito. Olhou o pulso, buscando o relógio, mas perdeu-o também. Tão me devendo um relógio. Passou a mão na face: a barba hirsuta. De repente, um estrondo, ritmo bate estaca, letra de anencefálico. Luz dos faróis se aproximando, era um Santana velho que trazia aquele som insuportável. Apalpou a cintura, o coldre ainda estava lá. Tão me devendo música boa. Levantou-se, estancou na frente do carro:
- Desliga o som, companheiro.
O homem que dirigia o carro usava um boné verde, óculos escuros de camelô, bigode trocador.
- Vai ...
Antes que impropérios fossem proferidos, puf, puf – era o barulho da arma com silenciador.
- Conheço o tipo pilantra – disse o homem que outrora era só mais um desgraçado deitado na calçada.
Deu mais quatro tiros no motor do carro, vasculhou o motorista, achou dinheiro, deixou-o lá. Tão me devendo gente honesta, íntegra, reta.
Pegou o ônibus na esquina. Sentou-se no fundo, ao lado da janela. Parou no alto da avenida. Foi tomado por uma leve vertigem, perdeu o sentido por alguns instantes, mas logo voltou a si. Desceu para a zona boêmia da cidade. Luzes de restaurantes, dos faróis, o samba lhe invadindo o ouvido. Estancou na frente de um restaurante badalado. Passou um homem à sua frente, ele parecia correto, perguntou-lhe as horas. São meia noite e meia, informou. Pensou alto:

- É agora que nesses restaurantes só se acham os crápulas com suas respectivas putas.
Agora isso acaba. Um homem gordo saía do restaurante, o terno era caro, no dedo um anel. É, eu detesto esses refeces que ficam usando anel. Hoje isso acaba.
Puf!, puf!.
Agora, ele corria, corria. Ofegava. Mais uma dose.
Acordou com um incômodo nos olhos: era a luz do sol, pateticamente posicionada sobre esse desgraçado, que agora acordava sobre um banco de quaisquer praças dessas daí.
Tão me devendo óculos escuros.

domingo, 10 de junho de 2012

Inerente


Desculpa-me, mas não pude evitar:

“Pegou a cadeira de metal, colocou-a no jardim. Observava o mato que se estendia à sua frente. Turvou o olhar e, durante algum tempo, em nada pensou. Foi quando um movimento chamou-o de seus devaneios, trouxe-o à realidade: era o Marquinhos abrindo a porteira, vindo em sua direção. Quinto dos infernos! (como gostava dessa expressão! Ah, agora, sim, mineiro por completo), pensou. Rapidamente, Marquinhos o alcançou. Nas mãos, uma sacola. Chegou-se a ele, ofegante:

-Mamãe mandou pr’ocê.
De súbito, sorriu: era a simpatia. Gostava do Marquinhos, da sua mãe, Dona Aparecida, o busílis era o seu humor naqueles dias.
- Ô, Marquinhos, muito obrigado, não precisava incomodar. O que é que tem aqui?
Comprimiu os lábios, hábito seu quando indagava alguém.
- O pequi e o frango com angu e o arroz que cê gosta. Mamãe estranhou o nhô não ter ido comê lá com a gente...mandô eu trazê aqui.

Pequi...

- Aham, pede desculpas pra sua mãe, Marquinhos, é que eu ando meio distraído, mas muito obrigado. Espera aí, só um minuto...

E correu a casa, deixou a comida em cima da mesa de madeira. A cozinha era deveras simples, aliás, a casa nem sua era: Marquinhos também a havia arranjado para que ele passasse os feriados, fins de semana, dias que quisesse: era a simpatia. Chegou-se ao Marquinhos:
- Faz um favor, Marquinhos? Será que pode ir comigo ao terreno?
- Uai, se o nhô tiver precisando, eu vô.
- Então, vambora.
Entraram no jipe velho, branco e simpático. Passou-se algum tempo em que só se via mato, depois passaram o córrego, chegaram a um descampado:
- Ajuda a medir aqui, Marquinhos.
Mediram, mediram, mediram novamente. Anotações, mais anotações. O sol estava muito forte, tostava sua pele, a toleima do calor começou a vir, o suor começou a lhe descer pelo rosto:
- Chega, acho que tá bom.
- Ocê já fechou negócio com o Firmino?
- Já, sim.
E foi ao córrego, molhou a face. Mal sabia do azul denso dos seus olhos. Não sabia que horas eram, nem poderia, nem queria: céu ainda era azul, sem nuvens, mas o sol tinha caído um pouco. Quem se importa?
- E ela?
- Ela quem, Marquinhos?
- Sua muié, uai, quedê ela? Veio não?
- Não.
E endureceu o olhar, o maxilar, olhou para o céu. Ouviu um corvo grasnar.
- Vambora.
Deixou o Marquinhos em sua casa. Não, obrigado, Marquinhos, tenho umas coisas a fazer, fica para a próxima. Agradeça à sua mãe.
Chegou a casa. A comida estava morna: Droga...dane-se. Comeu o frango com angu, o arroz: Ah! Isso é dos deuses... E o pequi? O pequi, ou melhor, os pequis, ele os comeu quase todos: Três para durante a semana. Eram dez pequis, eram.
Assim, passaram-se quatro dias, banho frio, sem luz elétrica, relógio, telefone, televisão, celular, nada da “excelsa” civilização. Nada do barulho do tráfego, nem das buzinas, nem da Amanda. Nem da Amanda, pensou. No final da tarde de domingo, arrumou as coisas, colocou-as no carro. Deu partida no motor. Belo ronco, o do motor. Ligou o rádio:

‘Vem, vamos embora, que esperar não é saber/quem sabe faz a hora, não espera acontecer’

Que coincidência!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

[Ratione nihil]

A caldeira do jornal sibila mais uma vez. Nem sorrisos, nem amores, nem fome, sede ou cansaço. Somente o Nada. E não há luz. Remexeu-se mais: uma vertigem. A torneira pingava implicante. Tudo tão insignificante, desinteressante, simples. Tanta exigência pelo simples! O complexo é indesejado, deve ser descartado, hermético em demasia! Não há resposta, nem saída, não há, ao menos, pergunta. A garganta seca. A madrugada ainda estava debruçada sobre a janela. Resolveu se debruçar também: o vento era frio. Nos postes, não havia luz. A rua era deserta, vida não havia. Inexistir, não propriamente morrer, mas inexistir. É uma resolução afirmativa: não é desejo de morrer, é desejo de inexistir. Mais um estouro da caldeira, a impaciência traduzida em fortuitos noturnos. Que é isso, pois? Que é que ocorre? Cheiro de girassóis acentuando a vertigem. Acender o abajur, o abajur... William, que William é esse? Boa música, boa comida, bom banho, ah!, é o Kapell, ele, sim:  aumente, sim, pois, não? Que significado, que coisa esquisita, que olheiras, que displicência, que simplista, que complexo: entendam-se!
Mas a anedonia não lhe privaria também da vertigem, dessa dor, dessa tontura? Deixe estar que passa...esse lamaçal, qual o quê! Nada disso, olha no espelho, olha! E o teatro, o cinema? Fostes ao jardim? Qual o quê, tempo não tenho!
Abajur, onde está o abajur? E o interruptor? Luz não há. Molhou o rosto, a água era quente, fria, morna, escaldante? De onde vem esse sangue? Estanque-o rápido. Kapell? Sim, senhor? Kapell, romântico, quadros, que vertigem...morangos? e para mim? Prazer, prazer...não, senhor, daqui não sai nada: nem ideia, nem pensamento fluido, nem sanidade. Por onde anda que não te vejo mais? Ah, nem eu sei, saí por aí...bom te ver, bom te ver. Cordiais, despedidas, sim, aumente um pouco mais, que é isso? Violino? Não, não, piano. Massa ignara!
Kapell, novamente? Sim, ele mesmo, quer que aumente? E essa caldeira, quanto barulho, aumente mais! Vamos, o que é isso? Mais que gosto dele, muito, muito mais! Não, senhor, não é violino, é piano, sim, sim, acho-o melhor que Rachmaninov, sim, qual o problema? Massa ignara! Está perdendo a razão? Não, eu não, por que estaria? Está dizendo coisas sem sentido! Não, que é isso, claro que não, agora resolve decrescer nessa nota, pois aumente mais! Onde está o maldito abajur que não o acho? Eu mal sei.
Pois então aumente mais!