Sentou-se
no meio fio, pôs-se a vomitar. Deitou na calçada. Sujaria seu paletó, seus
cabelos, suas calças. Ficaria sujo, tal qual o mundo e o resto das pessoas. Pro inferno! Já estou todo emporcalhado
mesmo. Perdera a gravata no caminho. Ainda deitado na calçada, observava o
céu. Céu sem estrelas: era a luz e a poluição da cidade. Tão me devendo um céu estrelado. Seu rosto era lívido, já não sabia
quanto líquido havia perdido no suor, na urina, no vômito. Olhou o pulso, buscando
o relógio, mas perdeu-o também. Tão me
devendo um relógio. Passou a mão na face: a barba hirsuta. De repente, um
estrondo, ritmo bate estaca, letra de anencefálico. Luz dos faróis se
aproximando, era um Santana velho que trazia aquele som insuportável. Apalpou a
cintura, o coldre ainda estava lá. Tão me
devendo música boa. Levantou-se, estancou na frente do carro:
-
Desliga o som, companheiro.
O
homem que dirigia o carro usava um boné verde, óculos escuros de camelô, bigode
trocador.
-
Vai ...
Antes
que impropérios fossem proferidos, puf,
puf – era o barulho da arma com silenciador.
-
Conheço o tipo pilantra – disse o homem que outrora era só mais um desgraçado
deitado na calçada.
Deu
mais quatro tiros no motor do carro, vasculhou o motorista, achou dinheiro,
deixou-o lá. Tão me devendo gente
honesta, íntegra, reta.
Pegou
o ônibus na esquina. Sentou-se no fundo, ao lado da janela. Parou no alto da
avenida. Foi tomado por uma leve vertigem, perdeu o sentido por alguns
instantes, mas logo voltou a si. Desceu para a zona boêmia da cidade. Luzes de
restaurantes, dos faróis, o samba lhe invadindo o ouvido. Estancou na frente de
um restaurante badalado. Passou um homem à sua frente, ele parecia correto,
perguntou-lhe as horas. São meia noite e
meia, informou. Pensou alto:
-
É agora que nesses restaurantes só se acham os crápulas com suas respectivas
putas.
Agora isso acaba. Um homem gordo saía do restaurante, o terno
era caro, no dedo um anel. É, eu detesto
esses refeces que ficam usando anel. Hoje isso acaba.
Puf!, puf!.
Agora,
ele corria, corria. Ofegava. Mais uma
dose.
Acordou
com um incômodo nos olhos: era a luz do sol, pateticamente posicionada sobre
esse desgraçado, que agora acordava sobre um banco de quaisquer praças dessas
daí.
Tão me devendo óculos escuros.