domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Última Utopia

“Se um dia nesse refúgio nos encontrássemos, eu talvez diria ‘não’ e você diria ‘sim’, tão improvável como o meu refúgio!”.

E os dois se deixavam cair naquela folhagem acobreada que farfalhava sutilmente. Lambuzavam-se de beijos apaixonados, se abraçavam eternamente. Deram-se as mãos como dois amantes ingênuos.
À sombra do grande carvalho nu pelo outono, só se viam risos altos, declarando a mais pura das felicidades. Ajeitava os óculos para que não machucassem seu nariz longo e anguloso. A única beleza física ali era a de perfil.
Olhava a sua amada, engrandecido, admirado com a beleza daquelas madeixas negras que, no sol, tinham um charme de cobre inigualável. Admirava o tom da sua pele alva, daquela delicadeza de flor.
Os cabelos dele estavam molhados, atrapalhando a sua repartição. Os olhos eram as mesmas agulhas de sempre, mas decididamente castanhos e não negros como se achava. O rosto por escanhoar, corado pelos raios gentis de sol.
Ele, agora, admirava aquela boca de um vermelho coral, um vermelho natural. O almíscar quente que ela exalava cada vez que se abria.
Não conseguia de forma alguma sorrir; estava pasmo demais para tal. Estava pasmo demais até para respirar; O engendrar de toda aquela rede de mentiras finalmente se fazia valer a pena.
E os dois pensaram a mesma coisa: Valia-se enganar quem e quantos fossem, desde que pudessem se aproveitar, enquanto durasse aquele amor imaturo, inconsequente e, acima de tudo, ingênuo.
Essa era última de muitas utopias.