segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Que foi feito da Coragem?



Nesta alma pusilânime
em que estou encarcerada
só o que tenho é coração inânime
gelado
de tão amedrontado, petrificado;
que foi feito da coragem?
ela nunca existiu, aquele vislumbre escuro
era apenas miragem -
estou cansada de tentar a ilusão uma verdade
chega, chega desse mundo faminto de vaidade...
o tormento cansa, a falta da razão, as imanentes covardias
tudo isso é a ventania
que me embaça os olhos com a neblina
e que me cobre com o manto da minha sina
que é medo constante de extirpar deletéria rotina...
como agora é só tempestade, eu me escondo no enclausurado retiro
onde tudo quanto preciso fazer é lamentar invisível no suspiro

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sobre jaula, neve e Escuridão



São 01:30, pelo relógio que tique-taqueia sobre a cômoda. Do teto de gesso muito branco e nebuloso, cai-me uma neve espessa, que congela meu sangue e me queima impiedosamente. A neve continua saindo do gesso, amontoando-se no chão. São 2:00 e neva muito forte, o chão de madeira já todo coberto de gelo, meus pés afundados na maciez branca, ardente; olho fascinada, constatando a maravilha do gelo que brota da cal. 3:00 e todo o gelo escorre por entre as tábuas de madeira. O céu da madrugada estrelado, muito límpido; por que a neve parou? O que é esse dano? O que é que mora nessa jaula, onde uma nevasca se projeta do teto, onde existem ruídos invisíveis, onde eu sinto o gosto do sal...

Eu tremo do frio que vem de dentro, tremo do frio que exsuda um suor dilacerante. Coloco a cabeça para fora da janela em busca da minha razão: recebo um vento agressivo na face; meus lábios se cortaram e, na minha boca, sinto um gosto férrico.
Na minha vigília – que acabou se tornando tão habitual quanto os ruídos invisíveis e saudosos – eu fico vendo a esfera celeste girar, fico vendo o céu negro-límpido se pintar de rosa claro. 

Fico vendo a pequena morte das estrelas dando lugar a uma luz que vem da mais profunda escuridão; a luz que vai entrando pela janela, iluminando o grande pedaço de rocha, no qual está fincado meu corpo; no qual, eu perdi a minha razão em algum buraco de siri ou de toupeira; no qual, eu perdi minha voz em algum leito de rio; fico vendo a luz entrar no pedaço de rocha do qual eu não faço mais parte. Aquela escuridão imensa, quente, insólita é a beleza mais bela, é beleza que trai os sentidos; é a beleza que de tão bela é inconcebível; e de tão inconcebível virou o buraco de siri ou de toupeira no qual eu perdi a minha razão. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Que foi feito das cigarras?


Os últimos dias têm sido chuvosos, invariavelmente nublados, cheios de um mormaço infinito; muitos são os relâmpagos luzidios e raivosos. Cheios de uma ventania que leva para longe galhos frágeis e minha alegria-patética-amarela, que eu achava ter guardado a sete chaves. Os dias estão repletos de gafanhotos, e as cigarras foram todas embora.

Existem dores tão maiores e tão mais belas, existe a Cecília Meireles, existe o Fernando Pessoa; e existe você, que sabe falar com os olhos – coisa rara, coisa mui bela. Mesmo que tudo quanto transmita seja o sofrimento passado, a clausura presente e, quiçá, a derrocada futura. Existe você que é a fumaça mais bonita e triste que já vi; a fumaça que é produto da intensa atividade industrio-sentimental que mora no meu peito arfo-asmático.

Existe esse ruído invisível que passa pela rua, rasgando-a em saudade crua. Esse ruído que se dele em saudade ínclita, honesta. Esse ruído tão insólito que não mora lá fora, mas cá dentro, que perturba tanto, mas, nas noites em que tremo de medo, traz outra doce alegria-patética-amarela – que a todo custo tento guardar, mas me escapa por dois, três dias, até voltar novamente.

Existia, antes desses dias, aquela beleza torta, que é a beleza da poluição, no fim do horizonte, pintando o céu de um confuso rosa-laranja-amarelado. O nascer da aurora sob o voo delicioso dos pássaros. Viver agarrada a terra tem um preço; deveria se viver nas nuvens de algodão-doce, o problema é que, ao menor sopro, elas se desfazem e se desmancham em uma grande tempestade.

Existem noites de silêncio morto e noites de silêncio em que a vida se faz sentir. Há muito, muito, que essas noites passaram a ter um silêncio morto, inconfundível pelo seu embotamento mental, pela predominância da saudade funesta.

Agora mesmo, na minha jaula de silêncio morto, presa entre montanhas, enquanto caem os céus lá fora e cá dentro, eu deito a minha alma nas palavras, como meus amigos deitaram e guardaram as suas nas letras mais graves, mais belas e amarelas, dentro das capas mais duras, esgarçadas e sem título.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ruído da Minha Ruína


É mais um ruído invisível que passa pela rua
Rasgando-me em saudade crua;
É mais um ruído que segue em direção à lua
quando minha razão recua;
É um ruído que se impõe sempre
corro à janela: sequer um vislumbre;
Meu peito desvanecendo-se, corroído
enquanto prevalece o invisível ruído;
Minha cabeça se alimentando da ideia imutável
mesmo sabendo irrealizável;
Sofro com a nostalgia
 e mui difícil me parece essa travessia;
Creio esvair-me,
Primeiro que mentir-me:
Esse é o ruído da minha ruína,
esse é o ruído do meu escape



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Amor-desprezo


Uns olhos perdidos
entre o desprezo e o amor incontido;
entre o peito rubro e arfo
e o desprezo aparente e safo;
um coração dado – de forma recorrente
ou à rúbida profusão
ou à danosa implosão;
quando o desprezo é flavescente,
a face a dançar aos olhos bem indiferente,
sabe-se o amor, cá dentro, além de incandescente
incontingente;
perdoa-me, então, por esse amor-desprezo
que tento evitar à custa
do maior desespero

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O meu não saber


Eu não sabia que existiam coisas tão boas
um silêncio de pássaro cantando sobre o carvalho
meus pés molhados de orvalho
um brilho de tarde finda
o balouçar de árvores mui lindas
juro que não sabia que
o mergulho lá no fundo
dar-me-ia o mundo;
a água quente e pacata
e o cheiro de mata mal cuidada;
não sabia que o pé afundando em pura lama
tornaria esclarecido
esse meu espírito danosamente embrutecido;
assim, repentinamente, viu-se cheio de chama
e, com ar de quem proclama,
berra sua alegria
que por ser em demasia
virou ousadia
num mundo louco, doente
em que ninguém está ciente
dessa estranha sonolência
que nos cega às coisas mais lindas da existência


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Livro, flor e saudade



Ah, meu bem, muito obrigada pelos presentes
pelo livro e pela flor, que me deste
ingênuo e sisudo, para comemorar o amor
o aperto no coração continua; aquele aperto ruim, incessante
meu bem, tu acertaste, sim, na flor
mas queria-te perto; fazer sarar essa dor
o livro só faz aumentar saudades tuas
saudades tantas do ser ausente
que o coração se contorce impotente
ontem, recebi o teu escrito
que de tão bonito
desejei-lhe ser infinito
li-o enquanto, na face, sentia o vento galerno
e meu coração ficou deveras apertado
de tanto querer, de volta, o amado.