Os últimos dias têm sido
chuvosos, invariavelmente nublados, cheios de um mormaço infinito; muitos são
os relâmpagos luzidios e raivosos. Cheios de uma ventania que leva para longe
galhos frágeis e minha alegria-patética-amarela, que eu achava ter guardado a
sete chaves. Os dias estão repletos de gafanhotos, e as cigarras foram todas
embora.
Existem dores tão maiores e tão
mais belas, existe a Cecília Meireles, existe o Fernando Pessoa; e existe você,
que sabe falar com os olhos – coisa rara, coisa mui bela. Mesmo que tudo quanto
transmita seja o sofrimento passado, a clausura presente e, quiçá, a derrocada
futura. Existe você que é a fumaça mais bonita e triste que já vi; a fumaça que
é produto da intensa atividade industrio-sentimental que mora no meu peito
arfo-asmático.
Existe esse ruído invisível que
passa pela rua, rasgando-a em saudade crua. Esse ruído que se dele em saudade
ínclita, honesta. Esse ruído tão insólito que não mora lá fora, mas cá dentro,
que perturba tanto, mas, nas noites em que tremo de medo, traz outra doce
alegria-patética-amarela – que a todo custo tento guardar, mas me escapa por
dois, três dias, até voltar novamente.
Existia, antes desses dias,
aquela beleza torta, que é a beleza da poluição, no fim do horizonte, pintando
o céu de um confuso rosa-laranja-amarelado. O nascer da aurora sob o voo
delicioso dos pássaros. Viver agarrada a terra tem um preço; deveria se viver
nas nuvens de algodão-doce, o problema é que, ao menor sopro, elas se desfazem
e se desmancham em uma grande tempestade.
Existem noites de silêncio
morto e noites de silêncio em que a vida se faz sentir. Há muito, muito, que
essas noites passaram a ter um silêncio morto, inconfundível pelo seu
embotamento mental, pela predominância da saudade funesta.
Agora mesmo, na minha jaula de
silêncio morto, presa entre montanhas, enquanto caem os céus lá fora e cá
dentro, eu deito a minha alma nas palavras, como meus amigos deitaram e
guardaram as suas nas letras mais graves, mais belas e amarelas, dentro das
capas mais duras, esgarçadas e sem título.