Sobre a cama de tecidos lautos, deliciavam-se com pensamentos ditos ignominiosos, infames, parvos ou, até mesmo, néscios. Com o ar pesado e quente pairando sobre os tecidos e sobre as carnes rubras, com o cheiro enjoativo de lírios e, ainda mais, com os zumbidos das abelhas, ávidas por néctar, a Melancolia se instalou pesada sobre o ambiente. Por isso, por essa própria Melancolia, fazia de tudo [importante notar o fazia; nesse contexto, é atitude de só um ser] para prender, entregar de bandeja o seu alvedrio. “Cara Melancolia, pensava, por que te instala pós a grande morte espiritual?” [antitética frase; a coragem se estabelece, a partir de agora, em demasia]. Cara mesmo, que importante instrumento de autodefesa, contudo de recrudescimento da paranóia já conhecida. Como estava quente, agitados eram os sonhos, profundos, guardados numa caixa quase impenetrável. Na vitrola, disco de dia anterior: Caruso, com suas árias enlouquecedoras.
Qual é a nova doutrina? Que se extingam as satisfações obrigatórias à grei, mormente se antitéticas aos desejos do espírito, da carne ou da mente.
Criatura estóica como o era, suportava as diversas árias, sinfonias de saudade; duelos travava consigo. Incólume nunca estaria, nem no abrigo das palavras.
Melancolia fazia visitas constantes, vinha de surpresa, arrematava os triunfos do dia, saía deixando a pele macilenta, os dedos cada vez mais magros, frios, acabando com os dias rubros.
“Melancolia, cara Melancolia, só quero que te faça minha amiga
Não que me deixeis lívida, vazia ou fria;
Quero que te faças, Melancolia, somente, minha cara amiga”.
A última ária tocou, dormem em paz sob a o brilho abençoado do luar.