terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cara, minha cara Melancolia

Sobre a cama de tecidos lautos, deliciavam-se com pensamentos ditos ignominiosos, infames, parvos ou, até mesmo, néscios. Com o ar pesado e quente pairando sobre os tecidos e sobre as carnes rubras, com o cheiro enjoativo de lírios e, ainda mais, com os zumbidos das abelhas, ávidas por néctar, a Melancolia se instalou pesada sobre o ambiente. Por isso, por essa própria Melancolia, fazia de tudo [importante notar o fazia; nesse contexto, é atitude de só um ser] para prender, entregar de bandeja o seu alvedrio. “Cara Melancolia, pensava, por que te instala pós a grande morte espiritual?” [antitética frase; a coragem se estabelece, a partir de agora, em demasia]. Cara mesmo, que importante instrumento de autodefesa, contudo de recrudescimento da paranóia já conhecida. Como estava quente, agitados eram os sonhos, profundos, guardados numa caixa quase impenetrável. Na vitrola, disco de dia anterior: Caruso, com suas árias enlouquecedoras.
Qual é a nova doutrina? Que se extingam as satisfações obrigatórias à grei, mormente se antitéticas aos desejos do espírito, da carne ou da mente.
Criatura estóica como o era, suportava as diversas árias, sinfonias de saudade; duelos travava consigo. Incólume nunca estaria, nem no abrigo das palavras.
Melancolia fazia visitas constantes, vinha de surpresa, arrematava os triunfos do dia, saía deixando a pele macilenta, os dedos cada vez mais magros, frios, acabando com os dias rubros.
“Melancolia, cara Melancolia, só quero que te faça minha amiga
Não que me deixeis lívida, vazia ou fria;
Quero que te faças, Melancolia, somente, minha cara amiga”.
A última ária tocou, dormem em paz sob a o brilho abençoado do luar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Promessa

De agora em diante prometo
Em cada suspiro que eu der
Não ser nenhum destes dedicados a você
Prometo que não possuirá nenhum brilho de meus olhos
Prometo não possuirá um toque de minha pele
Nem respirará do perfume que carrego
Não provará do meu intelecto
E muito menos do meu coração.
Não será mais agradado por mim, de nenhuma forma.
Mas, uma coisa eu tenho de admitir
Nem sempre prometer, significa cumprir.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sentou-se no exílio leitoso, interminável, onírico. Viu a luz desaparecer, piscar, justamente para se perder outra vez. Quão deletério, mas, sem dúvidas, prazeroso, era o exílio. Tanto sinal de fraqueza, se esconder ali, deitar-se no peito duro, esconder a face, se debruçar sobre tantas divagações, vastas, imperfeitas. A mente desmantelando-se em confusão, querendo achar onde se perdera. Materialização da racionalidade, não conseguia aceitar a fraqueza da alma. Para tudo isso, os prazeres carnais, ignominiosos. O alheamento de tudo, de todos, era o que sentia; agora, desprezava, odiava as criaturas indefesas e, por isso, chorava. Desprezo às provações, às palestras triviais, à mediocridade aceita, à tolerância excessiva, à idiotice e ao barbarismo, às frivolidades e, assim, a lista se estendia, infinita, desagradável, ofensiva. Pra que tanto anacoluto? Pra que o exílio, afinal? Havia se cansado, então, de tolerar as palestras, queria que todos fossem ignotos?
Por que o corpo não se satisfaz com o que a alma se satisfaz? Têm realmente que estar em constante antítese? Desmantelou-se, ensandecidos pensamentos, “espiralantes”, ilógicos. Cansara de se sentar à janela, cansara de observar as estrelas, já não lhes suportava mais o brilho. Ah! Como a tristeza traz a fealdade à face, mesmo a mais bela, como torna os semblantes aberrantes; a pele avermelhada de irritação com o sal das lágrimas, nariz inchado, aparência pateticamente infeliz, os olhos caídos, também vermelhos. Aos amantes, a distância. Aos viciados, a proibição de seus vícios. Aos gênios, a negação social, por silogismo, mundial. Aos feios, o desprezo. Aos belos, a inveja. Aos ricos, as acusações. Aos pobres, a falta de perspectiva, a negação.
Breve apagar de luzes, a deixar loucos, doentes, parvos, idiotas perderem-se; os poucos que, ao menos exílio têm, se consolam debruçados no frio e duro peito, que nada tem de ofegante, rubro, nada tem de vida.

(...) Aos pecadores de incomensuráveis pecados, o purgatório.
(...) Sonhos dementes, sonhos solitários: “é o lobo na estepe”.
(...) Materialização da tristeza.
O exílio foge, dissipando-se cansado, como comensal, se alimentou de toda força racional, o que sobrou: O vácuo de vastas emoções {memórias} e pensamentos imperfeitos {o incomensurável resquício do pecado dos líricos, poetas e amantes}.

domingo, 14 de agosto de 2011

Sinestesia

Sinestesia
“Sentia-se o carinhar macio, doce, sôfrego, fremente de nervosismo. Era quase inexistente em sua intrínseca particularidade, deleitava-se, comprazia-se; o almíscar quente espiralava do rubor, os panos vestidos de festa a se misturar, confundindo-se em uma só essência, complexa demais para poder se separar, entender, destruir. Afundava-se nas inusitadas sinuosidades, abrindo caminho à eletricidade, ao extático, tudo muito voluptuoso, tudo muito irresponsável. O gosto amargo, aveludado; a reverberar, o som delicioso da reação elétrica, turvava-se e aprofundava-se nessa louca análise espiritual. As carnes escarlates, profundamente inundadas de corpúsculos da sensação fremente, retesavam-se, repeliam-se, deixavam tudo pairando no ar.
Com a janela aberta, o vento entrava nervoso, soprava o negrume de um lado a outro, energizava o que já estava em flâmulas incansáveis, o que estava prestes a entrar em ebulição, fervendo em faíscas de gênios tempestuosos numa mistura “lucyesca”, agressiva, mas extremamente agradável.
A noite agradava-se, pois, com um brilho confuso, misturado; não era o prateado da lua, era um escarlate bonito, altivo, muito acima do enluarado. Lá fora, as cigarras cantavam loucamente os prazeres noturnos, cantavam a beleza das coisas, fatos e acontecimentos; denunciavam os irresponsáveis, gritavam-lhe os crimes incomensuráveis. Faziam isso, as loucas cigarras, devido à inconsciência das contigüidades da noite, do seu esplendor, do seu poder de desgovernar as mais profundas e sólidas racionalidades, de enlouquecer a mais saudável de todas as mentes.
Encaravam-se os gritos das cigarras como árias do mais famoso tenor ou da mais famosa soprano. Não havia crime, nem insatisfação, muito menos proibição.
(...)
A cor âmbar espalhada, ainda nascendo na sua intensidade, não incomodava em nada os turvos, profundos já fechados pela pitoresca satisfação.”

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Tragam-me um balde


Tragam-me um balde, não sei se para vomitar ou se para enfiar minha cabeça dentro. Foi dia cansativo, a noite caía com a brisa noturna soprando quente e pesada, trazendo a necedade que o calor proporcionava não só aos corpos, como à mente também... De repente, quando volto à Terra, escuto dois jovens [idiotas?] falando sobre suas últimas peripécias ou, melhor dizendo, proezas alcoólicas. Precisavam, definitivamente, de medalhas, de ouro, preferencialmente. “Quantas vezes eu já não fiquei bêbado...”. Definitivamente, eu precisava de um balde.
(...)
O sol já estava a pino, estalando as janelas metálicas do carro. Achei que já estava em um estado de espírito tão exaurido pelo calor e barulho que provavelmente estava absorta em nada, estava, provavelmente, pensando no vácuo dentro do meu crânio. Os que assim estavam, absortos, abençoados sejam. Meus ouvidos são incomodados pela narração das mais memoráveis e novas aventuras de Lolita, ou melhor, Lolitas que andavam lendo muito Marquês de Sade.
E, mesmo assim, ninguém teve a piedade e a caridade de me conceder um balde.
(...)
É aí que um mundo dependente de criaturas como essas deve se extinguir ou, pelo menos, intensificar a seleção natural. A juventude canaliza as energias para as superficialidades e vícios do mundo moderno; os adultos continuam como jovens e os velhos lamentam a velhice, as rugas, os cabelos brancos. E quem se sente como Philip Quarles, ironicamente, vira Holden Caulfield, se deprime, se mata, ou encena.
E, ainda fazendo uma ressalva aos quarles e não aos Quarles, a arrogância entre estes é predominante, mas só a arrogância mesmo. Só têm a ela para afagar seu ego, porque o mundo se rebelou, não reconhece mais seus esforços de vaidade.
Somos jovens, demasiados e insuportavelmente jovens.
Somos humanos, demasiados humanos.
Sou, sem qualquer modéstia, Philip Quarles.
A juventude, contrariando Lorde Henry Wotton, não é mais digna de se possuir. Não há mais chama de ser, energia, saber... O que há agora é simplesmente indescritível, é aberração.
E, mesmo assim, ninguém me dá um balde...