Domingo
para sorrir. Domingo para escrever. Domingo para não pensar nos tansos. Domingo
para me ser. Domingo para visitar minha casa de veraneio. Domingo para não
chorar. Domingo para dar vazão à felicidade. Domingo de música. Domingo de céu
claro, azul profundo. Domingo sem pesadelos. Domingo sem passado. Domingo sem
caldo entornado. Domingo de banho frio sob a brisa bochornal e mediterrânea.
Domingo de filme singelo. Domingo de livro singelo. Domingo sem manifesto.
Domingo de avião cruzando e espalhando fumaça no céu de brigadeiro. Domingo
para escrever, novamente. Domingo para se acabar de sorrir. Domingo de comida
gostosa. Domingo de sesta. Domingo quente, suado. Domingo de girassóis e dentes
de leão na rua. Domingos sem serpentina, confetes e carros de som. Domingo sem
fazer nada, de pernas cansadas do à toa. Meu domingo mais domingoso de todos os
tempos; meu dia só meu, o dia de cuidar dessa casinha lhana. Domingo para dar
de mãos. Domingo para beijar. Meu domingo sem amor. Meu domingo sem vislumbre
futuro. Meu domingo de casa vazia. Ao me perguntarem, na sexta-feira, se eu
quero talharim ou espaguete, eu vou responder que eu quero uma massa-domingo –
cheia das coisas boas, cheia de mar, sal, tomate, vinho de sobremesa, picanha,
vinagrete, bandas que solfejam. O que eu quero é domingo, condensado de
felicidade. Domingo para acordar cedo e sair caminhando por essa planície
verdejante. Meu domingo sem saudade, sem dano, sem melancolia. Domingo para
abraçar. Domingo para dirigir. Graças, domingo sem festa. Eu sei o que eu quero
para a posteridade e mais além: eu quero um domingo, tão domingoso e cheio de
paz quanto esse. Sextas-feiras e sábados: os dias de ser daninha, sôfrega, em
que eu anseio por ser, mas não consigo. Domingo de reclusão aqui, de frente
para a janela de vidro embaçado. Meu domingo eterno, que está na essência da
carne de músculo esgarçado que eu chamo de coração.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Ausência
Dói-me
saber-te tão longe
Embrenhado
em uma campina verdejante
O
torso queimado de sol
Tua
voz acompanhando o canto do rouxinol;
Faz-me
indagar minha volta ao grande alvoroço:
Quero
logo deixar esse calvário
Deixar
de riso solitário
Que
minha alma anda impregnada dum mormaço
E a
cura é dar-te logo um apertado abraço
Mesmo
que abraço ligeiro, assim desajeitado
Abraço
teu, petrificado;
A
noite é ainda baixa e serena
E,
para dormir,
Só a
tua doce cantilena;
A
madrugada traz trovoada,
E eu
anseio pela próxima alvorada
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Sobre as notícias de 01/02/2013
Os ratos saíram do esgoto
subiram
às ruas
e
assustaram o povo ignoto
os ratos
se esparramaram
cheios de fezes e detritos
rolaram e
se deleitaram
e o povo
acolheu-os
de cabeça
baixa, de cabeça débil
e o povo
foi servil
os ratos
roeram-lhe as roupas
comeram-lhe
os olhos
beberam o
sangue do coração
macularam o
espírito do povo
e já logo
tiraram a esperança de ano-novo
já é
tarde, pois
e a
corrupção
já chegou, encheu e transbordou no peito
e esse foi meu sonho; apenas sonho, não verdade
mas sinto
dizer-te:
quando
acordei, o sonho era realidade
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