domingo, 17 de fevereiro de 2013

Aforismos dum Domingo


Domingo para sorrir. Domingo para escrever. Domingo para não pensar nos tansos. Domingo para me ser. Domingo para visitar minha casa de veraneio. Domingo para não chorar. Domingo para dar vazão à felicidade. Domingo de música. Domingo de céu claro, azul profundo. Domingo sem pesadelos. Domingo sem passado. Domingo sem caldo entornado. Domingo de banho frio sob a brisa bochornal e mediterrânea. Domingo de filme singelo. Domingo de livro singelo. Domingo sem manifesto. Domingo de avião cruzando e espalhando fumaça no céu de brigadeiro. Domingo para escrever, novamente. Domingo para se acabar de sorrir. Domingo de comida gostosa. Domingo de sesta. Domingo quente, suado. Domingo de girassóis e dentes de leão na rua. Domingos sem serpentina, confetes e carros de som. Domingo sem fazer nada, de pernas cansadas do à toa. Meu domingo mais domingoso de todos os tempos; meu dia só meu, o dia de cuidar dessa casinha lhana. Domingo para dar de mãos. Domingo para beijar. Meu domingo sem amor. Meu domingo sem vislumbre futuro. Meu domingo de casa vazia. Ao me perguntarem, na sexta-feira, se eu quero talharim ou espaguete, eu vou responder que eu quero uma massa-domingo – cheia das coisas boas, cheia de mar, sal, tomate, vinho de sobremesa, picanha, vinagrete, bandas que solfejam. O que eu quero é domingo, condensado de felicidade. Domingo para acordar cedo e sair caminhando por essa planície verdejante. Meu domingo sem saudade, sem dano, sem melancolia. Domingo para abraçar. Domingo para dirigir. Graças, domingo sem festa. Eu sei o que eu quero para a posteridade e mais além: eu quero um domingo, tão domingoso e cheio de paz quanto esse. Sextas-feiras e sábados: os dias de ser daninha, sôfrega, em que eu anseio por ser, mas não consigo. Domingo de reclusão aqui, de frente para a janela de vidro embaçado. Meu domingo eterno, que está na essência da carne de músculo esgarçado que eu chamo de coração.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ausência


Dói-me saber-te tão longe
Embrenhado em uma campina verdejante
O torso queimado de sol
Tua voz acompanhando o canto do rouxinol;
Faz-me indagar minha volta ao grande alvoroço:
Quero logo deixar esse calvário
Deixar de riso solitário
Que minha alma anda impregnada dum mormaço
E a cura é dar-te logo um apertado abraço
Mesmo que abraço ligeiro, assim desajeitado
Abraço teu, petrificado;
A noite é ainda baixa e serena
E, para dormir,
Só a tua doce cantilena;
A madrugada traz trovoada,
E eu anseio pela próxima alvorada

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sobre as notícias de 01/02/2013




















Os ratos saíram do esgoto
subiram às ruas
e assustaram o povo ignoto

os ratos se esparramaram
cheios de fezes e detritos
rolaram e se deleitaram

e o povo acolheu-os
de cabeça baixa, de cabeça débil
e o povo foi servil

os ratos roeram-lhe as roupas
comeram-lhe os olhos
beberam o sangue do coração
macularam o espírito do povo
e já logo tiraram a esperança de ano-novo

já é tarde, pois
e a corrupção
já chegou, encheu e transbordou no peito

e esse foi meu sonho; apenas sonho, não verdade
mas sinto dizer-te:
quando acordei, o sonho era realidade