segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Esse seu estado meditabundo

O sol era inclemente, e você, recolhido a poucas palavras, precisava alimentar o intelecto. Aquela mistura de escritório e saguão era o melhor lugar, tinha toda a frieza e alheamento desejados. Normalmente, quando lá se recolhia, ficava trancafiado em suas próprias lucubrações por horas, desenhando cenas lúbricas no ar, desenhando personagens que eram refrações de sua alma. Esses olhos de topázio derretido, às vezes, banhavam-se nas pinturas ou no piano de calda, localizado no centro do recinto. Algumas raras vezes, interrompia seus devaneios para se extasiar tocando a Nocturnes número vinte de Chopin. Outras tantas vezes, preferia entregar-se a Maria Callas, em sua Casta Diva. Imaginava a vida do casal Arnolfini. Quando lia, podia notar seus músculos se retesando, numa estrutura complexa, provavelmente resultado de algumas revelações filosóficas. Na última visita que ela havia feito, ele se concentrava na leitura de um volume de “Amores Risíveis”, volume este de extrema raridade literária; a presença dela quase não foi notada nesse dia.
Só saía desse seu abrigo – que se situava no topo do torreão- quando o sol se punha. Mesmo nos dias de verão, confinava-se ali. Pancrácios eram aqueles que se sentavam nas cadeiras de veraneio, tostando a pele; não entendia como alguém conseguia permanecer naquele estado de torpeza todos os dias do verão. Gostava do outono, era quando saía e ia em direção ao bosque. Era quando ia ao lago, era quando via o sol se pôr. Era quando seu amor pela aquela figura desconhecida aflorava. Lembro-me que, quando essa época chegava, vestia um sobretudo, botas de couro, mas não um chapéu; chapéu, achava ele, tornava os homens tolos, confinava seus pensamentos, produto do calor insuportável que provocavam. Esses eram os únicos dias em que sorria com assiduidade, que observava atentamente o céu, que se separava do seu abrigo, que se desprendia das palavras...
Nunca declarou amor a quem amava. No fundo, aquele seu estado meditabundo era infindável.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

As insuficiências

As insuficiências
Já essas parcas e frágeis, até insuficientes palavras não me bastam
Por isso, ando a buscar outras; outras que não cessem em sentido oco
Outras que descrevam o estado misto de dolência e felicidade espontânea
Misto de descrença e esperança
Preciso, sinceramente, de outras palavras;
Que descrevam sozinhas, sem circunlóquios, as tempestades internas
Que saibam, independentes, fazer um retrato do ser
Que saibam transformar todos esses aforismos em verdadeiros conselhos, em lições e filosofias;
Procuro, sinceramente, desesperadamente, outras palavras;
Quero-as em imediato!
Quero-as outras, reinventadas e diferentes, profundas e transformadoras...
Quero-as veementemente;
Quero que produzam as lágrimas, quero que produzam sorrisos, de escarninho ou sinceros;
Quero-as tanto!
Quero-as para que se fundam a mim, para que sejam, para sempre, meu consolo, meu escape.
Quero-as para que possa confessar amores e ódios, questionamentos e tolices;
Quero-as para tudo, para companhia de toda vida!
Quero-as para desmancharem as agruras;
Quero-as para iluminar, intensificar;
Admito, pois, que, nessas insuficiências de ser
                                                            [sejam exclusivamente minhas ou não
Somente as palavras –e, principalmente, essas outras palavras- são condições de minha existência.