Tinha andar sestroso, excêntrico.
Trazia os cabelos empapados de um suor moribundo e, no bolso da camisa
quadriculada de vermelho, uma simpática caixa de cigarros. A calça trazia um
borrão marrom, na parte da coxa, e outro branco, na barra: terra e cloro. Uma
mochila surrada e calejada de fainas distantes e árduas era trazida firmemente às
costas.
- Você se incomoda com cigarro, fia? , indagou, com uma rouquidão
incômoda, a uma mulher de ar pesaroso. A mulher, com a cabeça, negou.
No banco, demorou-se. Olhar
parado, cigarro aceso. Tirou papéis e documentos da mochila, correu-lhes o
olhar, organizou-os, depositou-os numa pasta azul. As mulheres passavam, e ele
as perscrutava, mantendo o olhar indiferente. Às vezes, deixava escapar algo de
aprovação, outras tantas, de crítica e deboche. Virou-se para o vidro fumê da
loja, passou a mão pelos cabelos. Em relance, seus olhos revelaram-se num
castanho denso, acostumado a mágoas.
Ria sozinho, olhando para o céu
de final de tarde. O Plaza começava a
se abarrotar de gente. E ele gozava seu anonimato, sua invisibilidade, seu
mutismo. Ninguém o via, mas ele via a todos e analisava-os com uma impressionante
e acintosa meticulosidade. Era, sem dúvidas, uma figura bastante curiosa,
aparentemente surgida da inexistência ou da própria estranheza. Num intervalo
rigoroso de dez minutos, ele tirava um relógio de prata de dentro do bolso da
calça, checava a hora, tornava a guardá-lo. Fumou três cigarros, gargalhou duas
vezes, tentou limpar a calça por mais de um quarto de hora. O relógio do Plaza badalou seis vezes.
O itinerante retirou-se: tinha
hora marcada em qualquer lugar. Descartou o cigarro. Lá fora, deu sinal para o
ônibus que ia em direção à rodoviária. De repente, o Plaza ficou desinteressante.