sábado, 20 de outubro de 2012

Primeiro Anseio Pelo Amargor


Quero conhecer-te, cavalheiro
Conhecer a ti e a teus olhos sorrateiros
 Que tão negros e tão ressentidos
                                     [ esquivos, lançando centelhas de gênio
Expõem um amor interrompido

Quero ouvir-te a voz
Que tanto grita, exclama , sussurra e ama
Que se faz feroz
Cavalheiro, é a tua demora que faz minha cólera

Quero sentir teu cheiro
Que dizem por aí ser de forasteiro
Não tens aquele jeito rafeiro
Antes, tem sentimentos ligeiros
                                     [ e volúveis e mutáveis

De tudo, só lamento uma coisa:
 Tornas tão caro o desprezo
                                     [ ouço
Que não vives em outro estado
Senão de desamparo.




domingo, 7 de outubro de 2012

Casório (ou: Relato de Festa segundo um único desejo e Descanso merecido)


Casaram-se, finalmente, Tomás e Tereza. O sinistro sucedeu-se numa noite de ventos fortes, que traziam consigo hálito de tempestade. Era tão forte essa ventania, que ele temeu que ela se gripasse, com aquelas "canelas de porcelana" de fora: o vestido, fugindo à tradição, era curto, chegava-lhe na altura dos joelhos. Ele não chorou, não fez a barba, não usou terno (a camisa de linho azul clara, a calça cinza e o sapato lhe bastaram). Também não se lembrou. E, no que concerne à pobre moça, Tereza, não sabemos o que o fatídico fez à sua memória ou ao seu estado de espírito. No cabelo, usou uma tiara de flores ornamentada, nos extremos, com pequenos cristais cor de rosa.

Nesse casório - tão propalado pelos cochichos, pelos ruídos e expressões de incredulidade, logo Tomás!- também não houve padre, igreja ou aliança. Aconteceu na estância. Reuniram-se os amigos, que desejavam – ou não - o sucesso do casal.

Os forros das mesas levantavam-se com as rajadas de vento. As cigarras faziam-se ouvir, a música era alta, a comida e a bebida, de incomparável qualidade. A festa foi se prolongando e não se sabe quando terminou. Também, é irrelevante.

(...)

Depois da reunião de amigos, veio o descanso merecido. Tomás voltou corado de sol, cheio de lembranças e sem nenhum deslumbramento.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fumante


Tinha andar sestroso, excêntrico. Trazia os cabelos empapados de um suor moribundo e, no bolso da camisa quadriculada de vermelho, uma simpática caixa de cigarros. A calça trazia um borrão marrom, na parte da coxa, e outro branco, na barra: terra e cloro. Uma mochila surrada e calejada de fainas distantes e árduas era trazida firmemente às costas.

- Você se incomoda com cigarro, fia? , indagou, com uma rouquidão incômoda, a uma mulher de ar pesaroso. A mulher, com a cabeça, negou.

No banco, demorou-se. Olhar parado, cigarro aceso. Tirou papéis e documentos da mochila, correu-lhes o olhar, organizou-os, depositou-os numa pasta azul. As mulheres passavam, e ele as perscrutava, mantendo o olhar indiferente. Às vezes, deixava escapar algo de aprovação, outras tantas, de crítica e deboche. Virou-se para o vidro fumê da loja, passou a mão pelos cabelos. Em relance, seus olhos revelaram-se num castanho denso, acostumado a mágoas.

Ria sozinho, olhando para o céu de final de tarde. O Plaza começava a se abarrotar de gente. E ele gozava seu anonimato, sua invisibilidade, seu mutismo. Ninguém o via, mas ele via a todos e analisava-os com uma impressionante e acintosa meticulosidade. Era, sem dúvidas, uma figura bastante curiosa, aparentemente surgida da inexistência ou da própria estranheza. Num intervalo rigoroso de dez minutos, ele tirava um relógio de prata de dentro do bolso da calça, checava a hora, tornava a guardá-lo. Fumou três cigarros, gargalhou duas vezes, tentou limpar a calça por mais de um quarto de hora. O relógio do Plaza badalou seis vezes.

O itinerante retirou-se: tinha hora marcada em qualquer lugar. Descartou o cigarro. Lá fora, deu sinal para o ônibus que ia em direção à rodoviária. De repente, o Plaza ficou desinteressante.