terça-feira, 21 de junho de 2011

Com o tempo, a gente se acostuma

Com o tempo, a gente se acostuma

Com o tempo, a gente se acostuma com o frio
Com o tempo, a gente se acostuma com a solidão
Com o tempo, a gente se acostuma a fingir que é feliz
Com o tempo, a gente se acostuma a fingir que o amor é bom
Com o tempo, a gente se acostuma a fingir que vive
Às vezes, sobem as perguntas com ar rebelde, tentando inflamar
Às vezes, descem as lágrimas com ar carente pra cativar
Às vezes, sobe a cólera para perturbar
E não se muda. Não se xinga. E não se vive.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Passam os passos

Lá longe, no corredor frio, que era invadido por alguns tímidos raios luminosos, um passo conhecido passava ritmado. Sentia-se o ar altivo, sentia-se o cheiro quente, sentia-se uma tristeza crônica. Entrou, se dedicou, gritou muito, abafou o choro no seu coração, cantou um pouco para espantar qualquer resquício de fraqueza. Um corpo já calejado de dores não só corpóreas, mas também emocionais. Uma mente abstrata, que não estabelecia rumo, nem tinha lógica. No olhar, um quê qualquer de inteligência insalubre e, ao redor dos olhos, a olheira que nunca se dissipava. O sol começava a lhe irritar o couro cabeludo, começava a lhe fazer descer o suor, aumentava seu estado, que agora sentia, de constante toleima. Era assim a sua atualidade que nunca mudava. Saía pra tarde de junho, tarde irritante, triste. Saía pra ela com ar de quem sempre vence, mas que no fundo sabe que a “sua vitória” nunca poderá ser considerada realmente um triunfo. Nunca foi. Nunca será. No final, nunca se vence.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Praça Nevada

Às vezes dava raiva, ele pensava, passando a mão nos cabelos negros e grossos. Aquela neve caindo lá fora, dando um clima esquisito, como se estivesse em um daqueles filmes que se passam em cenários estranhos, com personagens e acontecimentos estranhos. Vê-la ali, sob o carvalho, tentando se proteger e segurando uma rosa na mão. Ele tinha uma vontade torturante de correr gritando, naquele frio cortante, mesmo que estivesse sem casaco, mesmo que estivesse nu, só para abraçá-la, dizer que a protegeria, dizer a ela que deixasse ser seu abrigo, seu refúgio. Queria beijá-la pra sempre, nunca mais soltar. Queria que a neve derretesse em seus cabelos enquanto ela entrelaçava com força os cabelos dele. Queria poder ser um ser só, juntamente com ela. Era uma coisa desesperadora. E vê-la ali, chorando, deixando seu rosto ser queimado pelo frio era simplesmente demais.
         
O que viram? Um louco atravessando o pátio, escorregando na neve, se espatifando no chão, levantando e gritando, gritando de felicidade, e, junto aos braços, sua maior jóia, seu maior tesouro. Traziam os lábios grudados, como se nunca fossem se soltar...