segunda-feira, 30 de maio de 2011

Talvez seja isso

Depois de algumas experiências, que, diga-se de passagem, não podem se considerar devastadoras e sôfregas, tinha finalmente aprendido. Talvez não tenha realmente sido por meio experimental e sim pelo teórico: o contato com algumas literaturas encorpadas, pesadas e de profundo teor filantrópico e analógico a tinha feito uma perfeita conformada, não acomodada, é importante que se diga. Tinha aprendido várias coisas, filosofando até no banho, debaixo da água queimante, tentando entender cada micro palavra e seu possível efeito ou interpretação.

Aprendeu muitas coisas. Uma delas foi colocar uma máscara para si mesma, fingindo que estava tudo bem, guardando divagações em sua lixeira mental, colocando um sorriso de reforço, por assim dizer. Isso a fazia se sentir dura, invicta, vencedora e infalível: já ajudava a sobreviver. Outra de suas muitas aprendizagens foi a conformação com as mudanças. Aprendeu, com certeza, com certas “Mary Rampion”, a romanceada e a real, que não se abate e não se chora com mudanças, e sim se adapta a elas, destemidamente, como se não fosse nada, não usando como incentivo um discurso do tipo “sansanesco”: “Trabalharei mais ainda”. Além disso, recentemente, aprendera a aceitar sua própria pessoa como principal obstáculo em sua vida.
“Agora você está feliz?” Pergunta feita por uma pessoa querida, ao que ela respondeu: “Feliz...não conheço ninguém que seja feliz. Satisfeitos, vários. Ninguém é plenamente feliz. A felicidade está muito acima de um conceito compreensivo, principalmente para seres como nós. A felicidade é a habilidade de lidar com este mundo com leveza, equilíbrio de todas as faculdades e, principalmente, a harmonia entre o discurso e a ação. Nada mais. O problema: não sou assim, nem conseguirei ser”.
Talvez realmente seja isso, vindo de alguma parte, de alguma teoria extraída de uma mente demente e possessiva.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Um Único Obstáculo

Já estou sentindo saudades, já estou com medo, novamente. Estou com medo de cair em certas armadilhas, de voltar a um período sôfrego, de ler John Steinbeck, “O Inverno da Nossa Desesperança”, de voltar a ter aqueles olhos odiosos, amargos e frios. Estou com medo de, novamente, cair no mesmo poço que caí antes... Mas desta vez com uma diferença: não ter uma mão para me resgatar. Cansei de tanta escuridão, de tanta demência. Sinto-me cansada como nunca e sinto que esse longo caminho vai permanecer longo, não vai me levar a lugar algum.

E a água quente caía no cabelo, ela deixava queimar, queimar cada vez mais, porque, quem sabe, talvez, tudo aquilo se dissipasse, o poço, as pessoas, a demência... incluindo a sua existência.

“Deixe queimar, deixe queimar cada vez mais, queime tudo, tudo que encontrar pela frente, não ouse deixar cinzas, não ouse deixar resquícios ou evidências.”

sábado, 14 de maio de 2011

Dessa vez, eu dispenso o sarcasmo

Falo sério. Dessa vez, eu dispenso o sarcasmo. É assunto sério demais: é o meu desejo de ser “maneira”, “descolada” demais. Perceberam o uso das aspas? (como sinto falta do sarcasmo). Por que esses malditos não me deixam beber drinks, vodcas? Por que eles não me deixam fazer uma revolução adolescente?

Não, por favor, eu quero pregar argolas pelo meu corpo inteiro. O meu exemplo não é minha mãe ou meu pai- pra mim, eles são inexistentes-, e sim aqueles hipócritas daquela outra caixa de cores que agora me esqueci do nome. Ser alienado e “emburrecer” é a nova moda. Ler? Pra quê? Eu quero é escrever errado, ser “isperto” no meio da minha gangue drogada.

Eu quero é furar a noite com a minha falta de senso crítico e com o meu pote de imbecilidades. Eu quero é me perder neste imenso labirinto, pra não saber mais como voltar. E eu falo sério: se não me deixarem fumar uma erva (pr’eu ser maneira, gente!) eu vou ficar mais “doidona” ainda.

Quero me acelerar nas baladas, quero freqüentar todas, quero ser livre, quero ser totalmente imune aos “nerds”, “certinhos”, e qualquer outra espécie (será que é com dois “s”?) que possa parecer assustadoramente sensata e muito mais inteligente que eu; não, desses, eu quero distância. Eu adoro viver por um motivo banal, eu adoro ser alienada, mal educada, burra e imbecil. Eu amo viver porque os outros também amam viver (mas tudo porque eles freqüentam as baladas maneiras e bebem até cair).

Eu quero ser assim. Quero cair nessa disfunção sem fim. Não quero “curtar” meu “célebro” (é cérebro?).

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Por que ninguém vê o que vejo?

Parecem cegos, ou, na verdade, preferem ficar imersos em um mundo de divagações fúteis. Ninguém mais vê que não ocorreu apenas mudança psicológica, mas também que seu espírito se tornou mais apagado, menos dedicado e inflamado. O brilho de olhos outrora tão desafiadores, luxuriosos e pecadores, agora não passa de uma cinza opaca e sem graça, que não só toma conta de toda sua face, mas também de sua mente, de seus atos. As lágrimas que antes desciam um rosto retesado, que se fazia firme apesar de tanta exposição, agora são secas, mas têm como lar a face mais tácita que já se viu; o mais irônico de tudo é que tenta, ainda e apesar de tanta fraqueza, ser guardião, se colocar como protetor e servo de outros. Agora, dizem, estão loucos [estes olhos; não aqueles], pois que tanto dialogam, amam, choram e caminham sozinhos. Eles são sofredores da solidão crônica, são vítimas dos próprios pensamentos e certezas. Talvez eles sempre tenham sido filhos da loucura e escuridão, mas só agora nascem com a certeza de que uma rebelião utópica e pacífica pode lhes trazer felicidade. Outros são cegos e imbecis demais para poderem tomar tal conhecimento, ou talvez só estejam ocupados demais com suas próprias dores.



domingo, 8 de maio de 2011

Superficialidade

A necessidade de uma idolatria era imensa. Na cidade das desesperanças, ninguém tinha potencial, ninguém tinha autoconfiança.
Os homens de chapéu coco e as mulheres de saiote cinza. Um joão e uma maria pegavam a condução, um bondinho trincado e precário. Carregavam, nos olhos, bolsas cheias das noites mal dormidas.
A roupa de joão, um pano carcomido, quadriculado e verde. As de maria, um saiote cinza com detalhes em verde. Os sapatos de joão, um sapato preto, furado, deixando a água entrar. Os de maria, um salto vermelho, decorado com estrelinhas já descoloridas pelo uso.
O dia era cinza de poluição fabril, as noites eram sufocantes, sem cheiro de sereno ou de orvalho, somente de enxofre e fumaça.
A noite se aproximava e somente maria voltava para casa. Tinha uma sacola preta em mãos, dentro dela, o resto da refeição do dia, porque o resto era tributo.
O bondinho a deixou em casa. Casa de paredes brancas cheias de fungos, pilastras trincadas, encanamento a céu aberto. Os filhos, sentados de frente para uma caixa de imagens coloridas, imbecilizadas e condicionantes. Vestido com trapos, sujos, com os narizes cheios de coriza seca. Os cabelos engordurados, as pernas cheias de mordidas de ratos. A mãe chegou e logo vieram abraçá-la, pedindo-lhe brinquedos. A mãe, desanimada e cansada, bateu-lhes até que dormissem e se sentou na frente da televisão. Não havia sofá, não havia comida, não havia banheiro, não havia vida.
A noite passou, o dia chegou e maria na acordou.
Os filhos subjugaram-se à cidade das desesperanças.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Contiguidades

A lixeira de oitocentos reais, a educação que sai cara
O banquete que continua, o pedestal que se faz de suor e sangue
A violação das fronteiras, o cidadão que permanece sem identidade
Os impostos que se paga, a violência que se justifica
A corrupção incorruptível, o salário que aumenta
O povo que morre de fome, a festa que continua a badalar
O terno que é comprado, a saúde que sai lesada
A cultura de massa, a cabeça que estende sua flatulência cerebral
O desvio de dinheiro, a mão de obra que sai cara
Para que se importar, então?
São apenas contigüidades...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Assim nós passamos o tempo

E chegas assim, como um furacão, me tocas com lábios quentes, me deita neste teu peito largo e convidativo, vira meu protetor. Depois? Sai com cabelos desgrenhados e face rubra, tendo em tuas mãos o meu coração. Me descabelas, te anacolutas, vira louco quando a noite chega e não há mais amor. É insistente, ao mesmo tempo tácito e irremediavelmente apaixonado. As suas repetições preferidas são doces e refinadas e como são belamente introduzidas em meus ouvidos; são a minha alegria. Para que tanta silepse? Para que tanto anacoluto? Para que tanto apóstrofe? Quando me levanto, tudo quanto sei e tudo quanto quero é continuar tendo esse amor descabido, “lucyesco” a meu modo e “walteresco” ao seu, embora afirme que sou “quarliana”, talvez para dizer, indiretamente- já que acha o “eu te amo” ultrapassado e clichê demais-, que, apesar da minha loucura descabida, que tenho tanto como racionalidade, sou sua única, mas preferida amada.

[Para você que é, aparentemente, um Walter menos idiota e para mim que, aparentemente, sou uma Elinor menos dedicada].