Foi após o fatídico. Eu que
quis, nessa estranha liturgia de matar as saudades e viver amor pelos cheiros,
pelo paladar, pela memória; eu que quis sentir o arrepio repentino, pela metonímia.
Eu que quis a tortura, que foi decidida na leitura. Em ato expresso de profunda e nobre coragem,
para mantê-lo vivo, resignei-me à maceração: como a sua comida preferida, em
recôndito deleite, deixando-me confundir no amargor e no doce: fecho os olhos e
relego o resto à memória; diluo-me na sua colônia; ouço as músicas que aprendi
a gostar. Algo de concupiscente passa de leve sobre a pele, sublevando os
pelos; desde o fatídico, leio poesia todas as noites e decoro os versos, que recito
no silêncio da solidão da noite e na inquietação do pensamento, durante o dia.
Outras vezes, pego da pena e me magoo, como agora. Fui eu que quis.
O Rubem só tinha o
mata-fome, já eu tenho a comida, a música, a poesia, o cheiro. Nunca me atentei
tanto às papilas gustativas nem aos versos dos poemas e às letras das músicas
como agora. É que, frequentemente, “a gente aprende a gostar do queijo através
do amor a quem gosta de queijo”. Foi depois do fatídico.
“Quem pagará o enterro e as flores
se eu me morrer de amores?”