domingo, 23 de setembro de 2012

De profundis (ou: sobre amar pela metonímia)


Foi após o fatídico. Eu que quis, nessa estranha liturgia de matar as saudades e viver amor pelos cheiros, pelo paladar, pela memória; eu que quis sentir o arrepio repentino, pela metonímia. Eu que quis a tortura, que foi decidida na leitura.  Em ato expresso de profunda e nobre coragem, para mantê-lo vivo, resignei-me à maceração: como a sua comida preferida, em recôndito deleite, deixando-me confundir no amargor e no doce: fecho os olhos e relego o resto à memória; diluo-me na sua colônia; ouço as músicas que aprendi a gostar. Algo de concupiscente passa de leve sobre a pele, sublevando os pelos; desde o fatídico, leio poesia todas as noites e decoro os versos, que recito no silêncio da solidão da noite e na inquietação do pensamento, durante o dia. Outras vezes, pego da pena e me magoo, como agora. Fui eu que quis.

O Rubem só tinha o mata-fome, já eu tenho a comida, a música, a poesia, o cheiro. Nunca me atentei tanto às papilas gustativas nem aos versos dos poemas e às letras das músicas como agora. É que, frequentemente, “a gente aprende a gostar do queijo através do amor a quem gosta de queijo”. Foi depois do fatídico.

“Quem pagará o enterro e as flores
 se eu me morrer de amores?”

sábado, 15 de setembro de 2012

Dos Princípios de Tomás


Como gafanhotos em cópula, estavam misturados, imersos um no outro, indistinguíveis, perdidos em pernas, lençóis e suor. Ruídos embargados saíam de bocas entreabertas e extasiadas.  Era noite e fazia calor impossível, atenuado apenas por ventos que, pela janela, entravam agressivos, trazendo cheiro de capim-limão.

E, ao espelho, restou o papel de refletir. Tomás amou Sabina. Não só aquela Sabina, mas tantas outras que já se perdera a conta; e, enquanto alimentado por um espírito libertino e Leve, amou-as todas com vigor, celeridade e animosidade.

Tomás continuava, em profunda compenetração; o espelho a refletir; olhos azuis cobertos por pálpebras frementes. Findou-se, e ele escalou Sabina com o olhar, agarrou-lhe o queixo, direcionou-a para o espelho. Riu-se. Ela também, em agrado. Para aquele Tomás, não existiriam Terezas, apenas Sabinas; aprazível ideia.

Vestiu-se na manhã seguinte com a mesma camisa, que cheirava a bebida e suor. Sabina já havia ido. Tomás recolheu o lençol, os travesseiros, colocou-os para lavar. Trocam-se os lençóis, passam-se as Sabinas com a mesma frequência com que se quebram gizes e se estouram pincéis.

Apanhou a bolsa de couro, foi à sua lida hebdomadária. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Imanente Fuga


Eu cá tenho dúvidas acerca da veracidade dos fatos apresentados:
O sol estava a pino. O suor lhe escorria sobre as faces. Limpava-o com o lenço que trazia sempre no bolso da calça. O elevador estava cheio: era o feriado. A bolsa de couro pesava-lhe os ombros, papéis, injunções, burocracias de trabalho. Passou displicente e impávido pela secretaria. Nem bom feriado. A barba estava grande, roçava sua pele, aumentava-lhe o calor. No queixo, começavam a despontar fios brancos, resultado do processo inexorável de maturação, de desgaste e dolência e fel. Indeléveis são as marcas de dentro. Desceu o morro e chegou ao estacionamento. Subiu no jipe, jogou a bolsa sobre o travesseiro.
(...)
O vapor d’água embaçou o espelho. Enxugou-se com a toalha, limpou, com ela, o espelho. Que aparência horrível. Teve vontade de ir-se. O problema era ser ele. Não sê-lo seria a solução. Na cama, o mais novo objeto repousava nu, sob o edredom verde. Saiu do banho, cauteloso, temerário de um despertar que lhe exigisse palavras e consolos.
(...)
Andava acelerado, fechando os carros, ultrapassando sinais. E só se fazia ouvir o esforço do motor. Indeléveis são as marcas de dentro. Era menos de duas horas da tarde quando chegou à estrada.
(...)
Fazia frio. Pegou os jornais. Foi seu primeiro dia: túrbido, ele andou pelas ruas. Nunca andou tanto. Foi o seu primeiro dia. O cabelo, que estava grande, caía-lhe na testa. Os olhos azuis eram dolentes. Num gesto de preocupação, passou a mão pelo que seriam pálidas sobrancelhas. Naquele dia, voltou tarde.
(...)
O cheiro de mata lhe invadiu as narinas. Com seu jeito de petiz, riu-se de si, da sua sorte. Estacionou o carro em frente a casa. Numa preocupação infantil, certificou-se de que a pipa estava no porta-malas.
(...)
Comprou a farinha, peixe; comeu outras frutas do cerrado que não aquela sua preferida. Era aquilo que considerava a melhor coisa do mundo. Indeléveis são as marcas de dentro. Escutou um barulho de carro no jardim.
- Pai?
É a fuga imanente, impossível.