“Não houve jeito. Tive de pegar da pena, escrever-lhe, derramar-lhe as mágoas sinceras. Esqueci-me de molhar as plantas. Estagnei, não comi, nem mesmo sei se o sol já nasceu. Se olho pela janela, não vejo nada. Franzo o cenho e continuo não vendo nada. Seria essa situação torpe produto da minha contrição? Esqueci-me de novo. Agora já é outro instante em que me esqueci de ser algo. As rosas que outro dia recebi já murcharam. Receberam outras rosas novas alguns desconhecidos, que pouco tenho curiosidade de entender o comportamento primitivo e reduzido a respostas monossilábicas e olhares ausentes. A mim não me interessa mais o cheiro. Não posso gozar eternamente das rosas. O céu não nasce mais do mesmo jeito, aboletando-se plácido na janela. Nem a água do rio é mais a mesma! Hoje, alguns passarinhos pousaram no peitoril da janela. Alimentei-os. Voaram. Desapareceram na linha do horizonte. Cortaram o céu límpido e calmo. Deixaram somente o movimento das asas e restos de fruta.
Agora a noite cai e as estrelas brilham. As rosas esmorecem com cada passar de noite. Talvez venham girassóis. Acho que posso me contentar com simples girassóis.”