quinta-feira, 29 de março de 2012

Missiva (a quem interessar possa)

“Não houve jeito. Tive de pegar da pena, escrever-lhe, derramar-lhe as mágoas sinceras. Esqueci-me de molhar as plantas. Estagnei, não comi, nem mesmo sei se o sol já nasceu. Se olho pela janela, não vejo nada. Franzo o cenho e continuo não vendo nada. Seria essa situação torpe produto da minha contrição? Esqueci-me de novo. Agora já é outro instante em que me esqueci de ser algo. As rosas que outro dia recebi já murcharam. Receberam outras rosas novas alguns desconhecidos, que pouco tenho curiosidade de entender o comportamento primitivo e reduzido a respostas monossilábicas e olhares ausentes. A mim não me interessa mais o cheiro. Não posso gozar eternamente das rosas. O céu não nasce mais do mesmo jeito, aboletando-se plácido na janela. Nem a água do rio é mais a mesma! Hoje, alguns passarinhos pousaram no peitoril da janela. Alimentei-os. Voaram. Desapareceram na linha do horizonte. Cortaram o céu límpido e calmo. Deixaram somente o movimento das asas e restos de fruta.
Agora a noite cai e as estrelas brilham. As rosas esmorecem com cada passar de noite. Talvez venham girassóis. Acho que posso me contentar com simples girassóis.”

terça-feira, 27 de março de 2012

Momentum

Abra estes teus olhos, abra-os bem
Para que eu possa encará-los, estes teus olhos
Que são tão impávidos!
Abra-os bem, estes teus olhos metálicos!
Abra-os bem para que possa neles enxergar o lindo céu azul
Para enxergar sua loucura, sua inexpressão lírica
Ou, abra-os, para que possa mergulhar nessa água cálida
Feche-os somente durante a noite, feche-os para que esteja, sensorial e emocionalmente, penetrável 
Feche-os quando começar a se concentrar no cheiro
Feche-os principalmente porque imerso estamos na noite
Feche-os, aperte-os, segrede-os
 E que essa lepidez perdure, nesse pungente fechar e abrir de olhos;
E que só se abram, novamente, estes teus metálicos olhos 
Quando os primeiros raios luminosos aboletarem-se na clarabóia
Quando o primeiro canto dos pássaro irromper neste solo
Quando teus olhos puderem sustentar as cores de nossas loucuras
Abra-os bem, estes teus tão metálicos e inexpressivos olhos!

sexta-feira, 2 de março de 2012

A dor invadiu-me profunda, uma dor de existência, uma dor de desestruturação.  Não existe felicidade no estado descrito pelo senso comum, não existe sequer parcialmente; muito duvido que exista no estado Epicurista, mas a redenção é algo belo diante da derrota.

Minhas mãos ainda são firmes, minha postura se encurvou um pouco; estou sob uma pesada rocha, entre a contrição e o abismo espiritual. Em que estado me encontro, então? Será numa transição louca entre o pouco delimitado, enredado e o determinado?

A pedra começa a pesar demais. O tempo é única e exclusivamente uma percepção, nada mais. Mas por que esse instante-já não termina? Cansei de senti-lo, de vivê-lo. A mesmice é perniciosa ao meu espírito.

Um gosto de ferro, tanto quanto quente na boca. Senti que era sangue. Lambi-o sofregamente. Desejo abandonar a rocha, mas ela esmaga. O tempo está seco, e o céu, muito azul, sem nenhuma nuvem.

No céu, o movimento do sol, inexorável. É noite, e tudo quanto há é o frio, e o desejo de exclusão eterna. Não vejo estrada nesse deserto. Ele é contínuo e mutante, nunca será constante numa metamorfose apetecível.  E tudo é definido pelo caos.