terça-feira, 26 de abril de 2011

Ciclo Vicioso

Lá estava ele, sentado, meio cabisbaixo, com uma garrafa de conhaque na mão, a caixa de cores incansavelmente ligada e os olhos turvos. Os cabelos estavam oleosos, a barba estava cerrada, endurecendo suas feições; os olhos, vermelhos, como sempre, do sono e da bebida. Os chamados multicoloridos gritavam, berravam,escravizavam. Ele dormiu quando a caixa de cores mandou, assim como comia, tomava banho, se barbeava quando ela mandava.
No outro dia, lá estava ele, de pé, mecânico, pronto para trabalhar. Parecia uma máquina, entrava de serviço às 6 horas e só saía às 19:45, em ponto. Eram necessários quinze minutos para se chegar a sua casa, a conta de se sentar novamente na poltrona, deixar outra garrafa de conhaque pela metade e absorver todos os recados da caixa de cores. Também trabalhava aos fins de semana, em regime melhor: entrava de serviço às 7:25 e saía às 13:00; o resto do dia era exclusivamente dedicado à prática do que se vinha aprendendo toda a semana com a caixa de cores. Ele ia, como todos aqueles cidadãos sem face, com os olhos injetados, zumbis escravizados e lá faziam funcionar a Grande Máquina, fazendo a manutenção do sistema, rodando as grandes engenhocas com o suor do trabalho escravo da semana.
O pior de tudo: mal se davam conta disso, era tudo tão mecânico, desde o ato de comer até o de fornicar. Era tudo simplesmente tão irracional, alienado. Era tudo regido por ela, a Grande Máquina. E era tudo alicerçado por eles: os cidadãos sem face, os alienados, os zumbis, os escravos, os idiotas, os imbecis, os rastejantes...

  

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sob a Luz bruxuleante...

Lá estava ela sob a luz bruxuleante do mesmo lugar de sempre, sentada numa mesa, rodando a chave de casa sob a frágil mesa de plástico amarela, no alento noturno. Distraída como sempre, nem havia notado a sua chegada e a sua presença. Ele sentara ali há algum bom tempo, com seu rosto por escanhoar, os olhos vistosos e saudáveis.
Ele achava que se comunicava com ela pelo olhar e, afinal de contas, não era algo platônico, eles conversavam muito, se davam muito bem, eram amigos! E, finalmente...
- Acho que você precisa de um descanso...
Ela se virou surpresa com a fala inesperada e com a presença “invisível”, sorriu desanimadamente e respondeu:
 - Acho que não.
- Olhe seu rosto, todo depreciado por olheiras desnecessárias! Como você é exagerada! Como é vaidosa! Para que tanta competição?
- Não tem outro assunto? Não se cansa de me censurar e de me chamar de vaidosa?
- Não tenho outro assunto. É o que você é, inevitavelmente.
Ela se levantou irritadiça. Quem era ele, afinal? ; Ele não se moveu, ficou extático, calado, taciturno e paciente como sempre, não tinha medo de que ela se fosse, não lhe escutasse mais.
- Na minha vida, não existe outro assunto que não seja você. Não há espaço para outro assunto que não seja seu estado de ânimo, sua roupa, seus cabelos, seu perfume, seu sorriso... Se isso for crime, serei o maior bandido de todos. Se isso for loucura, eu tenho de ter um manicômio especialmente para mim.
Ela se virou e, pela primeira vez, enxergou o brilho dourado naqueles olhos grandes e castanhos. Nunca pensara nisso, aquele tão taciturno e enigmático ser, também era humano! Também tinha coração, também chorava, sofria, amava, sorria e se sentia feliz! Ela nunca imaginara...
Sob a luz Bruxuleante...

domingo, 17 de abril de 2011

Angústia

Ainda era escuro, mas a britadeira começava o seu trabalho. Um pequeno pássaro amarelo pousava hesitante na sua janela. Ouviam-se os ruídos dos primeiros transeuntes do dia.
Ela, de olhos abertos, deitada em sua cama, e a Angústia irrompendo de seu peito. Era um sentimento tal que botava olheira nos olhos mais descansados, amargava o paladar mais doce e tingia de preto o céu mais azul.
Quando a vontade de dormir, de só viver os sonhos e permanecer no estado REM para sempre supera a vontade de sair para o mundo real, é sinal de que a Angústia fez o seu trabalho.
E lá estava ela, em frente ao espelho, nervosa com suas olheiras, com sua expressão cadavérica, com suas mãos gélidas. Não reconhecia um traço de fibra, nem de felicidade. Talvez ela nunca tenha se sentido tão sozinha como agora.
Era ausência demais, incerteza demais, tudo em demasia. Era Angústia em demasia. Nunca foi tão fria, tão distante, tão angustiada como agora. Talvez o destino se apresente como um fornecedor constante da infelicidade. Talvez seja simplesmente uma fase de superação. Talvez um ou dois dias sejam o bastante para que ela perceba que nunca se deve dar ouvidos à Angústia.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Casa de Velhos

O tempo foi simplesmente passando muito rápido. Olhei por trás do ombro e vi uma mulher de cabelos grisalhos. Olhando de perto se via que seu cabelo na verdade era preto, mas tornara-se grisalho pela velhice e preocupação. Sua pele era alva, mas estava cheia de rugas e estava flácida. O olhar era vago e triste, sem qualquer objetivo, estava sentada na entrada da casa olhando as montanhas à sua volta. Poucos minutos depois,um velho calvo aparece e se senta ao lado da mulher dando-lhe uma xícara de chá de erva-doce.O velho era calvo,com algumas manchas marrons de sol no topo da careca.Usava óculos fundo de garrafa,e vestia uma calça social preta até acima da cintura e uma blusa xadrez encardida e de botões.
E então ele e a mulher estavam pensando. Pensando em como o tempo passara rápido. Pensando nos erros que cometeram que nunca poderiam consertar,pensando em seus filhos e pensando na paz do ambiente que os obrigava a refletir sobre a vida.
O pensamento do homem era pessimista, pensava que a cada minuto estava morrendo, lentamente, mas isso não mudava nada.
Logo no final, o homem e a mulher se deram as mãos e a mulher apoiou a cabeça no ombro do homem e ambos pensaram que nunca amaram um ao outro intensamente como seria o ideal, mas foram companheiros um do outro a vida inteira e era isso que importava.

Os sintomas do Amor

Você que agora está aí sentando lendo estas deprimentes palavras pode estar com estes sintomas e não estar sabendo...
Se os seus olhos brilharem como os dele sempre que se encontram,se suas pupilas se dilatarem,se você se sentir ruborizando sempre que percebe que aquela pessoa também estava olhando para você,se os dias sem aquela pessoa forem escuros e pérfidos e a sensação de estar perto dela beirar um décimo da sensação que você acha que é a felicidade máxima,se  você amanhece pensando nela e percebe que poderia passar dias,noites e tardes inteiras somente com ela,fique atento a partir deste momento.

A partir destes seguintes sintomas,já se considera a doença “Amor”:
Se o seu coração bater tão rápido que parece que vai explodir,se quando você fala com aquela pessoa parece que seu coração vai saltar do peito,se você tem sua respiração sincronizada com a dela,agradeça,porque você é um dos poucos sortudos que sofre da melhor doença do mundo,o  “Amor”.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Quero ser como você!

Quero ser como você
Já não tenho estima própria , já não tenho alma, nem opinião e, para completar, não sei quem ou o que sou.
Só sei de uma coisa: quero ser como você! Quero ter estes teus olhos de gato, estes verdes e lindos olhos. Quero ter este teu cabelo cor de mel, cheio de cachos, quero ter essa pele lisa e corada artificialmente! Quero ter esta estupidez e idiotices superficiais para me encherem a vida de alguma coisa! Quero preocupações fúteis, quero as facilitações da beleza, quero ser incompetente, assim como você!
Não tenho palavras para expressar minha incrível e inefável admiração por você. O que eu quero é um mundo superficial, onde a beleza “pense”, onde eu seja idolatrada pela minha falta de caráter e honestidade. Quero ser, desde cedo, a mais desejada das mulheres, a mais sacana, a mais fácil.
Quero ser a boneca que permanece controlada, ocupada com seu cabelo, com sua roupa e sua maquiagem. Quero que seja assim, tudo na natural perfeição do mundo superficial. Quero me embebedar em festas, ser popular, ser agradável, "fofa" e hipócrita!
Tudo isso para fazer parte da Admirável Nova Sociedade.