Lá estava ele, sentado, meio cabisbaixo, com uma garrafa de conhaque na mão, a caixa de cores incansavelmente ligada e os olhos turvos. Os cabelos estavam oleosos, a barba estava cerrada, endurecendo suas feições; os olhos, vermelhos, como sempre, do sono e da bebida. Os chamados multicoloridos gritavam, berravam,escravizavam. Ele dormiu quando a caixa de cores mandou, assim como comia, tomava banho, se barbeava quando ela mandava.
No outro dia, lá estava ele, de pé, mecânico, pronto para trabalhar. Parecia uma máquina, entrava de serviço às 6 horas e só saía às 19:45, em ponto. Eram necessários quinze minutos para se chegar a sua casa, a conta de se sentar novamente na poltrona, deixar outra garrafa de conhaque pela metade e absorver todos os recados da caixa de cores. Também trabalhava aos fins de semana, em regime melhor: entrava de serviço às 7:25 e saía às 13:00; o resto do dia era exclusivamente dedicado à prática do que se vinha aprendendo toda a semana com a caixa de cores. Ele ia, como todos aqueles cidadãos sem face, com os olhos injetados, zumbis escravizados e lá faziam funcionar a Grande Máquina, fazendo a manutenção do sistema, rodando as grandes engenhocas com o suor do trabalho escravo da semana.
O pior de tudo: mal se davam conta disso, era tudo tão mecânico, desde o ato de comer até o de fornicar. Era tudo simplesmente tão irracional, alienado. Era tudo regido por ela, a Grande Máquina. E era tudo alicerçado por eles: os cidadãos sem face, os alienados, os zumbis, os escravos, os idiotas, os imbecis, os rastejantes...