quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Sonho

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Era um chacoalhar muito violento, numa escuridão infinita e muito plena, cheia de soluços, gemidos e choros muito altos e lamurientos, muito cheios de uma dor incontida. E uns feixes de luz, vez ou outra, irrompiam: uma luz muito fraca, trêmula. E o ar sufocava com cheiro de doença e ranço. E havia um desespero muito intrínseco na tensão escura e crua. Umas caras muito pálidas, empapadas dum suor mortiço, umas caras pálidas que só iam aumentando muito, com narizes cheios de coriza muito seca, umas caras muito bexiguentas e contorcidas de dor e morbidez. Um gás muito luzidio que impregnava na garganta, muito debater de pernas, o barulho de respirações asfixiadas e uma porta, ao final, escancarada. Uma manada em pânico, todos corriam muito desesperados; ninguém alcançava a porta, que de repente se fechou, e a escuridão foi muito mais plena e cheia de um silêncio daninho, medroso. Um calor intenso, queimando as roupas de lã muito grossa, deixando todos nus, animalescos, muitos gritos aterrorizados. Uma exaustão muito grande e cheia de olheiras. E veio uma água muito viscosa e muito quente

Que a todos nós afogou.






terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Lembranças


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Era quando o Natal era um tanto nostálgico e melancólico. A essa altura, é tudo um borrão muito escuro e misturado. Lembro-me de que aqueles Natais se sucediam em noites que encerravam dias muito chuvosos e nublados. Aliás, lembro-me somente das noites. Aquele jardim imenso, mergulhado na escuridão; cheiro de orvalho nas roseiras; os guarda-chuvas jogados bem no canto da cozinha; um som metálico de chaves batendo em portões altos - que tinham, em seu cume, espécie de lanças. E, na sala de parca luz, todos os ouvidos, exceto os meus, eram moucos para os carros que chegavam. Meu estômago ardendo de fome, ansiando pela meia-noite, pela ceia. Aquela pequenina árvore de natal com uma caixinha de música embutida a tocar uma musiquinha de Natal bem baixinha e rouca. O som das taças sendo retiradas da copa. Tudo se sucedia numa meia luz, numa luz bem fraquinha que iluminava os móveis de madeira envernizada; o cheiro da decoração de cera; a escuridão do corredor; e a ansiedade de criança debruçada sobre o peitoril da janela - aquela janela de vidro bem antiga que, com o tempo, acabou emperrando e abrindo apenas até a metade. E, na cozinha, sobre uma cadeira de madeira, um som bem velho tocando um sambinha bem simpático, enquanto as travessas de comida iam sendo arrumadas; a churrasqueira apinhada de gente, as cadeiras descendo aquela rampa, o velotrol rosa encostado bem pertinho do lixo. Foi tudo um vislumbre, uma sombra, um pequeno tormento de ansiedade, um pequeno nervoso, uma pequena melancolia...
(...)
O dia começou cheio de brisas, com um céu muito azul, sem nuvens. E foi ficando mais abafado, cada vez mais quente, enquanto andava carregando caixas de doces pela rua cheia de árvores. O suor me foi escorrendo pela face, que foi ficando muito rubra e muito franzida de tentar proteger os olhos do sol.
E a tarde se estendeu da mesma maneira: muito quente. O calor entrava vigoroso no quarto, e eu me retirei para o mármore frio, junto a um livro que me provocava uma nostalgia infantil. E a noite chegou bastante agradável, fresca, cheia de brisas que balouçavam as folhas e flores do “petit jardin”. E eu me deleitei com os pastéis de Belém, com o licor de pequi – ainda naquela metonímia interminável? -, retirando-me tarde, ébria tanto quanto se permitisse - mais de satisfação e dum sono gostoso que de álcool-, pronta a abrir janelas e ouvir as gargalhadas e luzes e fogos intermináveis nas diversas e altas varandas. E, dessa vez, não foi um borrão, não foi um obscurantismo, uma agonia ansiosa, uma interminável melancolia; dessa vez, não foi nada além de luz e harmonia.
[e prenúncio de um Admirável Novo Tempo]                     

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Infância

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Estava aqui me lembrando da infância
Aqueles clarões de fogos de artifício
Que se arrebentavam no céu da estância

Estava aqui me lembrando da infância
Debaixo dum grande e pesado pé de jabuticaba
Tão gostosos aqueles frutos que até me saía a baba

Estava aqui me lembrando da infância
Daquela água cristalina
Do meu medo daquela neblina
Que me aparecia bem na esquina...

Estava aqui me lembrando da infância, da infância, da IN-FÂN-CIA
Quando eu me esbaldava sem disciplina
Quando eu podia ter uma campina

Estou aqui me lembrando da infância
Quando eu ainda não sofria de saudade
Nem tinha maldade

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Estático


Eu queria era tirar uma foto disso tudo
Ou até mesmo pintar um retrato

                 [Mostrar ao mundo
                 o tanto
                 que
                esse amor é perniciosamente profundo 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


Essa é a história de certo nó
 apertado, muito bem feito
 delicado feito ele só

Essa é a história de um nó
Constante, imperioso
Destrutivo e rancoroso

Essa é a história de um nó
Tão forte que nem cipó
Que
Esganava sem dó
A minha garganta de gente só

Num belo dia, apertou demais
E eu virei pó