
Era
um chacoalhar muito violento, numa escuridão infinita e muito plena, cheia de
soluços, gemidos e choros muito altos e lamurientos, muito cheios de uma dor
incontida. E uns feixes de luz, vez ou outra, irrompiam: uma luz muito fraca,
trêmula. E o ar sufocava com cheiro de doença e ranço. E havia um desespero
muito intrínseco na tensão escura e crua. Umas caras muito pálidas, empapadas
dum suor mortiço, umas caras pálidas que só iam aumentando muito, com narizes
cheios de coriza muito seca, umas caras muito bexiguentas e contorcidas de dor
e morbidez. Um gás muito luzidio que impregnava na garganta, muito debater de
pernas, o barulho de respirações asfixiadas e uma porta, ao final, escancarada.
Uma manada em pânico, todos corriam muito desesperados; ninguém alcançava a
porta, que de repente se fechou, e a escuridão foi muito mais plena e cheia de
um silêncio daninho, medroso. Um calor intenso, queimando as roupas de lã muito
grossa, deixando todos nus, animalescos, muitos gritos aterrorizados. Uma
exaustão muito grande e cheia de olheiras. E veio uma água muito viscosa e
muito quente
Que a todos nós afogou.

