quarta-feira, 28 de setembro de 2011

As figuras pictóricas

O pintor inclinava a cabeça, de um lado a outro, sentado no divã vermelho. Os sapatos jogados pelo ateliê, a gravata frouxa em seu pescoço e a camisa branca já toda amassada da noite que havia passado davam-lhe um aspecto desleixado. Na janela principal do ateliê- aquela tão grande que mais parecia uma porta- viam-se os primeiros raios de sol nascendo, pintando o céu de um rosa decadente, angustioso. Nas suas narinas, o cheiro do orvalho. As maçãs do rosto começavam a arder de frio. Os olhos eram a única parte do corpo que estava compenetrada na sua ação: o pintor, com os cabelos oleosos, olhava extático o quadro inacabado que estava postado bem à sua frente. E ele permaneceria inacabado. E por quê? Porque, dessa vez, não havia mãos quentes e singelas para brincar com os cachos da moça. Porque o rubor da carne se extinguira em toda sua selvageria nas noites em que os tecidos lautos da cama foram confundidos com os corpos. Porque os amantes haviam se cansado, porque os lábios deles não mais fremiam de amor. Porque não tiveram onde guardar seus sentimentos. Porque os fragmentaram. Talvez, ainda, os lábios fremissem, os corpos enrubescessem, talvez ainda pudessem ser selvagens, mas já não tinham espaço para isso.
Era digna de comiseração a tristeza sentida pelo pintor, sua decepção. Moldou o quadro à sua forma, confiou-lhe as emoções, esperanças. E, de certa forma, mesmo inacabado, o quadro era bonito. Na pele branca da moça, macia, um rubor para lhe decorar as faces, como um pêssego. Os grandes cachos castanhos espalhados, emaranhados na outra face, dura, de traços firmes, que, através dos raios do sol, adquirira uma cor tal como o cobre. O quadro tinha uma sutileza incrível, que deixaria qualquer crítico extasiado. Mas, para o pintor, isso só seria possível se tivesse terminado sua obra. Na sua reserva recalcitrada, lançou um olhar de ódio a seu quadro.
O horizonte determinava sobre a grande janela a cor âmbar, e as personagens pictóricas se deleitavam em sua eterna, restrita e parca realidade.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Amor à Babel

Amor à Babel
Se os “Contos de Odessa”, ou “A Cavalaria Vermelha” se perdem em aforismos
Meu amor se perde do seguinte modo:
Um querer de ti, na concisão intrínseca da tua boca,
De um agir luxurioso ao tocar na cor macia, indecifrável, puxá-la, na verdade
Na gravidade e no turvo do meu olhar, às vezes, o ódio anda por lá
Mas é ódio que brota do amor e quando vê a quem o coração pertence, se desmancha
Na loucura, a razão do ódio e do amor
No intelecto, a razão da desconfiança e frieza
Na arrogância, mecanismo de autodefesa
Deitas-te no meu peito e escutará o meu coração bater de uma forma leve,
Não por falta de amor, mas porque quem ama nervosamente não ama
E se a noite se encerra nos meus parcos beijos, é porque não posso mostrar saudades imediatas dos teus lábios
[Mas tem sinceridade. E Amor. E concisão, porque amor se sente, não se explica, porque ele é aforístico e confuso em toda sua forma intrínseca de ser]
E tudo quanto quero dizer-te é: Amo-te. [Na digna concisão de Babel]. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Um Ensaio sobre o Egotismo e minha Desafetação

Já anoitece, finalmente. Às vezes, os dias são prolixos demais, à semelhança das pessoas. Com a prolixidade humana, o fastio nos atinge muito mais veemente e rapidamente. Seria presunção da minha parte tomar considerações “huxleryanas”? Sem dúvidas, Huxley estava certo quando afirmou que nós não podemos moldar gostos que não apetecem ao nosso espírito, ou, em casos mais céticos, ao intelecto. O motivo da prolixidade dos dias e do fastio é exatamente esse. A necessidade de idolatria, de ter um pedestal aos pés, de obter a admiração, mesmo que parca, torna o ente um enganado e um enganador. Existem tantas coisas que afligem o ser humano nesse século, inclusive coisas latentes. Cresce o egotismo. Cresce também minha desafetação. As palestras de teor intelectual e filosófico espontâneos, agora acontecem como se fossem a exposição da intelligentsia nata, original, mas, na verdade, não passam de um conhecimento adquirido artificialmente. É preciso que um ser com um pouco mais de argúcia e aversão a valores forjados inicie o desmascaramento das falsas identidades e gostos, com sutileza, sempre. Não há nada mais perverso do que alguém que trata o conhecimento como uma feira de exposição, que o engole para depois vomitar, não sejamos tais como Molly D’Exergillod. O resultado da “imbecilização” mundial é a aleivosa valorização dos entes enganadores, nada mais, o que nos leva, tristemente, à mediocridade, não só espiritual, como intelectual.
O mundo não deve olhá-los como esperança ou consolo, deve lhes fornecer o triste olhar de comiseração. São patéticos em seu comportamento e pensamento, somente dignos de dó. A minha desafetação cresce, se enche de uma sutileza irracional e, no rosto, o sorriso de escárnio.
Mais imbecil do que o próprio egotista, só aquele que o apóia, aquele que o elogia, aquele que o “envaidece”. O verdadeiro intelecto está doente, deprimido; conseguiram destruí-lo.
Prefere-se fechar os olhos durante a prolixidade dos dias, das pessoas e da mediocridade. São feirantes, alardeadores, não gênios ou sábios. Vamos esperar até que o sol nasça de novo e nos intumesça não só com o bom senso, mas também com o senso do ridículo.