O pintor inclinava a cabeça, de um lado a outro, sentado no divã vermelho. Os sapatos jogados pelo ateliê, a gravata frouxa em seu pescoço e a camisa branca já toda amassada da noite que havia passado davam-lhe um aspecto desleixado. Na janela principal do ateliê- aquela tão grande que mais parecia uma porta- viam-se os primeiros raios de sol nascendo, pintando o céu de um rosa decadente, angustioso. Nas suas narinas, o cheiro do orvalho. As maçãs do rosto começavam a arder de frio. Os olhos eram a única parte do corpo que estava compenetrada na sua ação: o pintor, com os cabelos oleosos, olhava extático o quadro inacabado que estava postado bem à sua frente. E ele permaneceria inacabado. E por quê? Porque, dessa vez, não havia mãos quentes e singelas para brincar com os cachos da moça. Porque o rubor da carne se extinguira em toda sua selvageria nas noites em que os tecidos lautos da cama foram confundidos com os corpos. Porque os amantes haviam se cansado, porque os lábios deles não mais fremiam de amor. Porque não tiveram onde guardar seus sentimentos. Porque os fragmentaram. Talvez, ainda, os lábios fremissem, os corpos enrubescessem, talvez ainda pudessem ser selvagens, mas já não tinham espaço para isso.
Era digna de comiseração a tristeza sentida pelo pintor, sua decepção. Moldou o quadro à sua forma, confiou-lhe as emoções, esperanças. E, de certa forma, mesmo inacabado, o quadro era bonito. Na pele branca da moça, macia, um rubor para lhe decorar as faces, como um pêssego. Os grandes cachos castanhos espalhados, emaranhados na outra face, dura, de traços firmes, que, através dos raios do sol, adquirira uma cor tal como o cobre. O quadro tinha uma sutileza incrível, que deixaria qualquer crítico extasiado. Mas, para o pintor, isso só seria possível se tivesse terminado sua obra. Na sua reserva recalcitrada, lançou um olhar de ódio a seu quadro.
O horizonte determinava sobre a grande janela a cor âmbar, e as personagens pictóricas se deleitavam em sua eterna, restrita e parca realidade.