quinta-feira, 17 de novembro de 2011

As estrelas já foram todas contadas

Sentado em cadeira de balanço, rosto bexiguento, nariz adunco, aposentado. Lia um romance chinfrim, contemporâneo. Tinha aversão a produções artísticas contemporâneas. Para ele, autores contemporâneos eram falhas imitações dos verdadeiros talentos, nada mais eram do que cópias extremamente mal feitas, adaptadas a uma realidade de ignotos. Amargo, sempre amargo, eterno insatisfeito.  Casmurro, melancólico, ranzinza, excessivamente austero, de poucas palavras; detestava doces, principalmente aqueles de compota, eram quase como a vida: no início, bonitos, cheios de viço, extremamente doces; no final, cheios de uma água azeda, amarga. Com efeito, um ilhado, calejado de amor não correspondido, modelo do pessimismo. Olhou pela janela, todas aquelas flores oferecendo seu perfume, aquele mato hirsuto, aquele horizonte deserto. Já bebera de todas as bebidas, já lera todos os livros, já pintara todos os quadros, já regara todas as plantas, já queimara toda a lenha, já enxugara todos os copos, já comera todos os pratos, já aprendera a costurar de todos os modos, a falar todas as línguas. Não amara. Quer dizer, amar, amou. Perversas são as circunstâncias, enervantes condições que nos impõe essa vida que, mesmo longe de ser Severina – tinha uma casa, comida e bebida à farta, livros, cama boa, conforto, sua horta, sua terra, seu céu... - era dura.  Era dura de uma forma curiosa: ao mesmo que fornecia tudo, não fornecia nada e continuava assim, nessa dicotomia. Ficava sempre à espera de mudança, novidade, mas as chuvas choviam, as primaveras passavam, e a vida mesma, monótona, cava. Que podia ele ver naquele véu espesso que é o destino? Nada. Mesma rotina de vida vazia, coração inerte, cabeça cheia, olhos diáfanos.
Já viajara a todos os países, já conhecera todas as culturas, já frequentara todas as festas. Nada, novamente. Sentara-se todas as noites, olhara as estrelas, engendrara planos dos mais maquiavélicos: queria mudança, mesmo que parca, mesmo que débil. Não via mais a vida com olhos cândidos fazia tempo, não mais lia Huxley com espírito arguto e, muito menos, palestrava apaixonado. Os Césares, Augustos, Plínios, Fermat consistiam apenas na necessidade insopitável de a vida perpetuar sobre o desejo de fim, de exclusão límbica.

Que podia ver ou esperar o rosto bexiguento através do espesso véu se até todas as estrelas foram contadas?



terça-feira, 8 de novembro de 2011

A mim me pergunto e me afirmo

A mim me intriga e enraivece este,
Se é que posso chamar assim, fenômeno
Em que são os sentidos- instintos famintos- os eternos guias
Nesse fenômeno de selvagens, em que tudo se compartilha:
Sexo, gesto, olhar, triunfo, tristeza e até última melodia.
Nesse que, apesar de tanta selvageria, é aspiração de toda vida
É pupilo de poeta, e paz nenhuma jamais será obtida 
É perturbação pra toda biografia.
A mim me satisfaz ser objeto de pesquisa
A mim me pergunto
Pesquisa cruel, não?
Pergunta essa que atravessa a história em enervante lentidão.
Pobre deste tão bonito, singular fenômeno
Já transformado por muitos em indignante devassidão
A mim me afirmo: Esse fenômeno é de difícil definição
Mas agora achei uma que lhe cabe com perfeição:
Perversa distração