quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sal


- Peça bênção a seu pai.
O menino, rubro de contrariedade, aproxima-se, cabisbaixo, interiorizando sua recalcitração.
- Bênção, meu pai.
O pai beijou-lhe a cabeça: era sua bênção. Na mesa, sentaram-se todos para comer, os três irmãos. O menino que pedira a bênção ao pai sentou-se entre o irmão mais velho e a mãe. Começaram a falar de algumas coisas que não entendia. Decidiu-se levantar. O pai, com severidade, puxou-lhe pelo braço, sentou-o na cadeira:
- Coma.
Só fez-se mais nervoso. Salgou a comida a esmo, um protesto. O pai, vendo tamanha feita, retesou os músculos da face. Agora, era um tirano:
- Vai comer todo o sal que pôs no prato.
O menino, sem resistir, chorou. No seu âmago, sangue escorria. Odiou o pai, mas comeu todo o sal.
- Com a licença do senhor.
Correu pelo jardim, atravessou o chão batido de terra e foi em direção ao córrego. Bebeu a água que, límpida e plácida, refletia seu rosto. Achou que beberia toda a água do mundo. Achou que morreria. Tirou a camisa, as botas, a calça e a cueca. A água estava morna. O sol, as nuvens e o céu, solidários. Bebeu toda a água que pôde. Saiu e, assim mesmo, encharcado, pôs as roupas. A barriga lhe pesava e fazia um barulho deveras divertido. Chegou a casa, subiu ao seu quarto, mas, antes:
- Com a bênção do senhor.

domingo, 20 de maio de 2012

Ecce aenigmate


Tornou-se uma figura tão interessante, com um magnetismo tão intenso que já não consigo tirar-lhe dos pensamentos. O olhar, um vício insustentável. Vestia-se com seus molambos, um protesto às injunções e fatuidades sociais.
                                                      ?
“Barbeava-se com cuidado e precisão indizíveis. Mais um movimento da lâmina, que caminhava pelo seu rosto, retirando-lhe a espuma branca. Cortou-se. Mais um movimento. Outro corte. Finda a liturgia, partiu pequenos pedaços de papel e colocou-os sobre o ferimento. Sua face, cheirosa de erva doce. Seu corpo, já mostrando os primeiros sinais de desleixo, a proeminência da barriga. Segunda-feira. ‘Um dia já seria o suficiente para que o ser humano obtivesse o necessário para sobreviver’, mas teria de trabalhar, e trabalhar como um burro de carga, pelo resto da semana. Os primeiros raios de sol aboletavam-se na janela do banheiro. Enrolado na toalha, esquecido do mundo, abriu bruscamente a porta do banheiro. Esqueceu-se da namorada que dormia. Um movimento conhecido, dobrando os joelhos, abrindo um pouco mais os olhos, ‘Desculpe, meu bem’. Nem beijo, nem abraço, nem  bom dia, nem sorriso. Antes de se vestir, sentou-se no pé da cama e deixou seus ombros curvarem.”
(...)
Fusão para a cachoeira. Fusão para o frango com quiabo. Fusão para o sexo prosaico, animal. Fusão para o jipe branco na estrada.
(...)
"Só lhe faltava estar envolvido em um crime para se tornar protagonista da literatura fonsequiana. Levantou-se, foi se vestir. Alguns minutos depois, achava-se com uma calça jeans de lavagem azul clara, com um detalhe de pano atrás, uma camisa amarela excessivamente comprida, um tênis caramelo. Olhou novamente sua namorada estendida na cama. Balançou a cabeça, de um lado para outro, negativamente. Desaprovava a si próprio. Ao passar pela sala, olhou-se novamente no espelho. Levantou a sobrancelha, fazendo a sua expressão única. Saiu assim mesmo, sem amarrar os cadarços ou pentear o cabelo; sem beijo na namorada, sem perfume, de estômago vazio. Colocou a bolsa de couro atravessada. Lembrou-se de pegar o celular. Iria almoçar com o pai num restaurante popular perto do trabalho.”
                                                 ?

O público se intriga com tanta revelação e pouca elucidação. Ecce aenigmate.

sábado, 12 de maio de 2012

"Como vento em palmeira seca"


      

A mim pouco me importava se já era escuro ou se já deveria encerrar a noite na mesma pequena morte de todos os dias. Saí às ruas, a procurar por mim, pelos meus olhos, pelos meus sorrisos, até por minha vontade procurei. Nada disso encontrei. Em vez disso, descendo a rua, vi um andarilho bêbado e cambaleante, pivetes e meretrizes. Nenhuma árvore balançava com o lírico som do vento. Nenhuma construção imagética. Nada. Somente o intenso Nada que se propagava pela noite. Não sei se fazia frio. Tudo quanto senti foi uma queimação nas narinas e uma asfixia sem fim. Seria um estranho quadro de hipóxia? 

Eu corri. Corri o mais rápido que pude. Estava lívida quando lá cheguei. Quando, de novo, estava sob a jabuticabeira, colhendo doces frutos, esquecida do mundo. Mas ainda havia Incerteza. Um peso se abateu sobre mim. Meus ombros se curvaram, meus olhos foram ficando turvos.

O Lobo na estepe uiva. Assim, esse louco Jogo das Contas de Vidro, no qual me perco sempre um pouco mais a cada vez que me aprofundo, realiza-se irremediável e incontido . Mordazes e perversos usam-me, subjugam-me e, logo em seguida, descartam-me.

É como o cão que gane sob o luar, temeroso do escuro, “como o vento em palmeira seca”, como a jabuticabeira que nunca chega, é como a realidade que nunca se basta e só atormenta, é a ausência do meu incólume refúgio.

Usa-me e descarta-me. Descarta-me e usa-me, “por gentileza”. Quanta servilidade! Quanta covardia!

[São essas as Correntes]

domingo, 6 de maio de 2012

Despojos


“Os homens ensinaram que há dois caminhos na vida: o caminho da Natureza e o da Graça. Deve-se escolher qual dos dois irá seguir. A Graça não atende a indulgências. Antes, atende ao Desprezo, Esquecimento e Indiferença. Aceita insultos e golpes. A Natureza busca somente sua Satisfação, não a dos outros.”
Tombou abruptamente sob a chuva. Caía-lhe furiosa, lavando-lhe a face, os cabelos, arrepiando-lhe a pele, sufocando-lhe. Entrava-lhe pelas narinas, descia-lhe pelo corpo, congelava-lhe o movimento. Sucedeu-se naquele estrambólico outono, quando o céu é de um azul melancólico, que espraia a frieza e a contrição. O sol desabava. Não trazia mais nenhum calor.




“Onde está a Graça?”
“Não posso dizer-lhe.”
“Ela é terna?”
“Ela atende ao desprezo, à vaidade, à demência, à mediocridade e à autodestruição.”
“E ela é vasta, incolor, inodora. Ela vem com o jugo e se estabelece incontida. Vicia-nos em sua convivência perversa.”
“E a paixão?”
“Paixão pelo quê?”


(...)


“Você falou comigo através do vento, da água e dessa Árvore.”
 “Mas não há como seguir o caminho da Natureza. E também a Graça é inalcançável.”
“Esqueci-me de você...”


(...)


E, sendo hermética assim, a situação:
Encerrou-se em desespero. Ainda estava tombada sob própria crueza.