- Peça bênção a seu
pai.
O menino, rubro de
contrariedade, aproxima-se, cabisbaixo, interiorizando sua recalcitração.
- Bênção, meu pai.
O pai beijou-lhe a
cabeça: era sua bênção. Na mesa, sentaram-se todos para comer, os três irmãos.
O menino que pedira a bênção ao pai sentou-se entre o irmão mais velho e a mãe.
Começaram a falar de algumas coisas que não entendia. Decidiu-se levantar. O
pai, com severidade, puxou-lhe pelo braço, sentou-o na cadeira:
- Coma.
Só fez-se mais
nervoso. Salgou a comida a esmo, um protesto. O pai, vendo tamanha feita,
retesou os músculos da face. Agora, era um tirano:
- Vai comer todo o
sal que pôs no prato.
O menino, sem
resistir, chorou. No seu âmago, sangue escorria. Odiou o pai, mas comeu todo o
sal.
- Com a licença do
senhor.
Correu pelo jardim,
atravessou o chão batido de terra e foi em direção ao córrego. Bebeu a água
que, límpida e plácida, refletia seu rosto. Achou que beberia toda a água do
mundo. Achou que morreria. Tirou a camisa, as botas, a calça e a cueca. A água
estava morna. O sol, as nuvens e o céu, solidários. Bebeu toda a água que pôde.
Saiu e, assim mesmo, encharcado, pôs as roupas. A barriga lhe pesava e fazia um
barulho deveras divertido. Chegou a casa, subiu ao seu quarto, mas, antes:
- Com a bênção do
senhor.
