quarta-feira, 18 de julho de 2012

Felicitas Aeternum


“O dia amanhecia cinzento. Fiquei um bom tempo olhando para o teto do quarto antes de levantar. Descobri-me enfarado de escrever. Há três dias enfurnado em casa, acordando às 6:00, escrevendo até as 18:00, sem parar. Tocava piano, comia qualquer coisa e das 20:30 às 23:00, eu contribuía para o esgotamento do estoque dos vários Louis XIII que tinha em casa. Precisava sair do apartamento, senão, ou ficava louco ou morria de esgotamento cerebral. Fui ao banheiro: meus olhos verdes emoldurados de um cansaço escuro, um sorriso verdadeiramente feliz despontando de sob aquela barba imensa. Eu também precisava de um banho. Confesso: não havia tomado nenhum banho naqueles três dias. Escritores, quando obsessivos por uma obra, beiram à loucura. E eu já tinha essa predisposição. Eu peguei a lâmina de barbear e molhei todo meu rosto, espalhei o creme de barbear, passei a lâmina cuidadosamente. Observando-me melhor no espelho, os cabelos negros e bem cortados estavam imersos numa oleosidade indisfarçável. Entrei para o banho. Não percebi quão sujo eu me sentia até sentir a água quente batendo no meu corpo. Ensaboei-me três vezes, corpo inteiro. Esfreguei meu couro cabeludo sem dó. Finda a liturgia, saí. Finalmente limpo, enxuguei-me. Pus o meu suéter preto, uma calça de brim cinza.

Estava caminhando pela rua, em direção ao ponto de ônibus em frente à chocolataria. Pensava que os meus dias intensos debruçados sobre a máquina de escrever não tinham me rendido muitas páginas úteis: chuto umas trinta páginas, no máximo. Sim, eu escrevo à máquina. Elas são uma paixão. Tenho três disponíveis em casa e mais quatro dentro de uma caixa de vidro que mandei construir especialmente para elas, a fim de que pudesse admirá-las. Sim, eu levo as minhas paixões a sério.  Chegando ao ponto de ônibus, vi que ele abrigava, pelo menos, uma dezena de pessoas. Por isso, concluí que deveriam ser umas 6:00. A linha que eu iria pegar era a do centro. Eu tinha carro, mas gostava de andar de ônibus, principalmente quando o destino era o centro: eu, relutantemente, descobri que, lá, era o valhacouto da minha inspiração, por mais que não acreditasse em inspiração. O povo estava abatido, e a minha face, apesar do cansaço, era um claro contraste daquele abatimento. Quando vi o ônibus cheio, logo desisti de ir ao centro. Segui caminhando, toda vida, pela rua da farmácia. Quando cheguei à esquina, encontrei meu ex-professor, Adelmo, com sua característica maleta, seus óculos aro de tartaruga, sua calça até o umbigo:

- Professor! Quanto tempo, como está o senhor?

Olhou-me por uns segundos, antes de se lembrar de mim:

- Rapaz! Sim, já faz algum tempo, uns dois anos? Como está você?
- Bem, senhor. O que faz aqui?
- Somente caminhando. Hoje, vou dar a última aula antes da greve.
- Greve?

Fomos andando por toda a avenida, enquanto ele me contava dos bastidores da faculdade. Adelmo sempre foi pontual ao extremo. Por isso mesmo, faltava mais de uma hora e meia para sua primeira aula: viva os ingleses, o povo mais pontual do mundo! Estava morto de fome, então pedi que parássemos na Doces de Portugal. Sentamos nas mesas. Enquanto eu devorava um bolo de fios de ovos, ele me contava no que o governo estava transformando as federais:

- Estão sucateadas. Alunos cada vez mais incapazes conseguem entrar, não sei como isso vai se resolver. Todos os professores estão desesperados.

Não sei por que motivo, disse:

- O povo está abatido.

Adelmo aquiesceu, olhou-me longamente e acendeu um cigarro, velho hábito seu, e perguntou:

- E você, rapaz, o que anda fazendo?
- Escrevendo, senhor.
Sorriu-me:
- Sobre o quê?
- Uma obra feliz, entende? Quero escrever a primeira obra feliz desse mundo. Não é uma comédia. Uma obra que, quando as pessoas terminem de ler, não se sintam pesadas, mas também não se sintam Leves. Que elas se sintam libertas, felizes... Pelo menos, é esse o objetivo.
- Você sempre foi um sonhador. No entanto, meu melhor aluno.
- Precisamos sonhar com alguma coisa, afinal. Aliás, mesmo inconscientemente, estamos nos anestesiando da realidade, mesmo que por alguns segundos. Se a vivêssemos intensa, como verdadeiramente ela é, não hesitaríamos em tirar nossa vida.
- Quando a velhice bater às suas portas, diga-me se vai sonhar com alguma coisa.
- Ah, a velhice! Tão, permita-me dizer, erroneamente preconizada pelos poetas como o início da amargura do ser.
- Acho que isso é imutável, meu caro, até para um sonhador como você.
- Certamente, uma mentira vira verdade de tanto a repetirmos. As pessoas, quando velhas, deveriam ser mais felizes. Que solidão, o quê! Abrace-a. Faça dela sua principal companhia.  Eu ficaria feliz em ver quanto eu já vivi, quanto eu aprendi. A solidão não seria nada perto disso. O problema é que o ser humano nunca faz balanços: sempre toma como totalidade o lado ruim das coisas, quer carregar o mundo nas costas. Pretendo ser um velho diferente, se eu chegar lá...
- Não fale asneiras, eterno sonhador. Gostaria de ler o livro, quando sair. Lembra-se quando escreveu um ensaio sobre a felicidade, num trabalho da faculdade? O melhor que já li. Lembro que leu Ernest Hemingway, Henry Thoreau, Charles Dickens, tudo para saber em quê não se inspirar/ adotar, para que o ensaio sobre a Felicidade fosse feliz, não melancólico. Perfeito. Leu de tudo que poderia ler.

Desatei a rir, tinha levado dois meses preparando o ensaio, com a mesma obsessão que, agora, dedicava à minha obra. Depois, disse-me:

- Ora, jurava que tinha virado professor.
 - Não tenho paciência para esses acadêmicos imbecis que pontuam como orangotangos, sem perspicácia de estilo, sem interesse pelo impacto literário. Aliás, são uns verdadeiros analfabetos literários. Realmente, professor, reconheço que o senhor irá para o céu! Os acadêmicos dessa geração são verdadeiros macacos!
- Confesso que não posso deixar de concordar!

Adelmo gargalhou. E eu, por conseguinte. Em seguida:

- Como faz para viver, então?
- Escrevo vários artigos para diversos jornais e revistas, além de vários argumentos para a TV. Só esse ano, acredito eu, fiz 10 argumentos. Artigos incontáveis. De vez em quando, arrisco-me a escrever novelas. É claro que, como escritor, tenho que me prostituir intelectualmente, mas eu me redimo com outras obras. Há um saudável contrabalanço.

Conversamos longamente e, naquele dia, Adelmo perdeu seu horário pela primeira vez. Depois da minha conversa com o professor, num arroubo nostálgico, visitei meu antigo colégio que ainda fazia o mesmo sucesso de antes. Inúmeras aprovações nos cursos mais concorridos. Continuavam marqueteiros como sempre. Um banner na entrada. Meu irmão sempre diz que eu fui uma grande decepção para o colégio. ‘Você era bom em tudo. Professores de Biologia te empurravam para a Medicina. Os de matemática e física para as Engenharias. Os de Química para a própria Química e para a Engenharia Química. Somente os de Português ficavam neutros. Já sabiam o que você escolheria’. Eu permaneci na frente do portão, do outro lado da rua, enquanto todos os alunos chegavam. Dei o bom-dia a todos eles. Inclusive a uma ex-professora minha, que já tinha os fios da cabeça prateados. Acho que ela não se lembrou de mim. Gostei daquele momento em que permaneci invisível e esquecido do mundo. Reparei como a rua do colégio era bonita. Inclinada, era cheia de árvores e, pela manhã, o sol derramava um lírico dourado pelas folhas caídas pelo chão, que o vento levantava com uma brisa leve.

Cheguei à minha casa no início da noite. Descobri-me sozinho e abracei a solidão. Abri meu último Louis XIII, bebi-o todo, enquanto tocava piano, escrevia e, pela primeira vez, cozinhava. Era madrugada quando caí na cama, sentindo o cansaço de um corpo que andou o dia inteiro. A Felicidade me acolheu em seus braços, e eu dormi. Um ermitão feliz e sonhador. E sorri-me com esse pensamento."

sábado, 14 de julho de 2012

Para se acabar na quarta-feira



Essa noite, com sede de vida, abri as janelas de par em par e deixei que o vento de um inverno ameno entrasse no quarto, acompanhado da música que lá fora se pronunciava alta em chorinhos, sambas e bossa nova. Esqueci-me do mundo. Pousou a mão em meus ombros, enquanto eu observava a rua vazia. Riu um riso sapeca, lépido: fez-me rir também. Consagrou-se o momento com uma nostalgia do que nunca vivi, ou melhor, do que nunca vivemos. Candidamente, rimos os dois, até que nossos olhos começaram a lacrimejar. Ambos partilhávamos dessa sede de vida que é insopitável, em nosso caso, ao menos. Com a noite às portas das onze e meia, a música foi obrigada a parar, com essa maçada que nos jogam os tediosos de que a música, em seu mais nobre estado de pronúncia, incomoda e atrapalha o sono [dos finos e importantes]. Assim que ela cessou, olhou para mim com ar de quem não se satisfez com aqueles poucos chorinhos.

 Éramos de uma época distante, certamente: deveríamos e gostaríamos de viver no século XX, lá pelos anos 1960, 1970. Mas a nossa vitrola era o próprio computador. Assim, deveríamos nos virar com nossas músicas e a imaginação. Houve um transporte confuso, mas de beleza inefável. As varandas, todas elas, pela primeira vez, estavam com as luzes acesas, de modo que ouvíamos o falatório, que era sopro de vida, com prazer. Esse sopro foi reforçado pela música e pela brisa fria. De onde estávamos, podíamos ver as montanhas e as luzes da cidade e do tráfego.

 Em Lazy Day, seus olhos negros faiscaram com um brilho feliz, sua face, corada pelo frio, iluminou-se. Concedemo-nos o direito de dançar, ato que seria vexaminoso se realizado na presença de um público. Rodopiou-me infinitas vezes, colocou-me em seus braços, pegou em minhas mãos, levantou-me. E, ao encostar a cabeça no seu peito, senti as batidas fortes e compassadas do seu coração, senti seu peito másculo e duro vividamente quente: era o sopro de vida.
Estávamos em Sometimes, e o vinho estava fechado.  O pão ciabatta e o patê ainda não tinham sido tocados. Não sentíamos fome, frio, cansaço. Era o sopro de vida. A TV estava no mudo, e o telefone, fora do gancho. O interfone também. 
Num seu ato de loucura, aumentou o som, colocando-o no máximo.

Em Vacation, parou um pouco, olhando-me fundo nos olhos. Distingui em seu olhar uma tristeza aguda e que tentava, em debalde, ocultar-se de mim. Quando me vi em seus olhos, vi que reconheceu a mesma coisa nos meus também. Nem o sopro de vida. Pegou o vinho, tirou a rolha de cortiça e, inconsequentemente, jogou-a pela janela. Tive medo de que acertasse a cabeça de alguém ou a janela de algum vizinho. O líquido derramava-se suave, num escarlate sanguíneo e sedutor.

Estávamos em Youth, quando a lucidez voltou a seu corpo e abaixou o volume. Bebemos o vinho, em um silêncio agradável que era pertencente aos amantes mais íntimos. Pegou as torradas. Acho que as comemos todas. As luzes de algumas varandas se apagaram.  Voa tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar/ por um momento de sonho e fantasia/ e tudo se acabar na quarta-feira.

Eu sem você não tenho porque/porque sem você não sei nem chorar/sou chama sem luz/jardim sem luar/luar sem amor. O nosso poeta comum, mais uma dentre as várias partilhas nossas. Lembro-me bem, lembro-me com aquela nostalgia do que não vivi, do que não vivemos. Envolveu-me com braços fortes, numa violência romanceada, delicada, açorada. Sua voz saiu grave, imperiosa:

- Se quiser, podemos nos perder do mundo aqui, para sempre ou pelo resto da noite.

Estávamos roxos de nós, numa reciprocidade sôfrega e aluada. E depois, fomos conduzidos, não sei pelo quê, à pequena morte. Até o sopro de vida.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O que, daqui, pode brotar?


De um emoldurado turvo e de caráter onírico, uma rua se estendia à minha frente. Tudo parecia envolto numa película esverdeada, que dava à cena sabor de recordação. Na esquina da rua, uma farmácia. Na memória onírica, o ressoar de tal Edifício das Quadradas Perdidas. Supus que fosse aquele, ao lado da farmácia, perto da praça, que eu já não sabia mais o nome. Era verde musgo, como a película leitosa que envolvia a cena, e era cúbico, um pedido do sugestivo nome. E, em uma fusão efêmera e desordeira, eu cheguei ao corredor principal do edifício. Ao som de uma ária (ou talvez só fosse Edith Piaf), eu me atentei: tinha objetivo certo, desde o início da cena. Uma patota de crianças veio correndo e gritando, pareciam felizes, saudáveis, vestiam-se às antigas, os meninos com as boinas, as meninas, com saiote e laço. Era tudo sabor de memória. Não deveria estar frio, pois o cabelo dos meninos estava empapado de suor. Não sei por que eles correram por aquele corredor, espraiando sua cândida felicidade, mas tive meu momento de Leveza.

Eu andei contínua e exaustivamente pelo corredor. Estanquei em frente à porta de onde saíam as árias. E, num sussurro confidencial: “Deve ser aqui”. Então, saiu, com uma toalha enrolada na cintura, tampando seu sexo. Estava com cabelos molhados; a face corada pelo vapor d’água. E, quando me viu, surpreendeu-se. Falou algumas coisas que a película não me deixou ouvir, mas que foram prontamente respondidas com reações subconscientes e automáticas.

Mais uma fusão. Uma peça modesta, um sofá preto, uma televisão antiga, uma vitrola. Sua figura com a cabeça apoiada nas mãos. O disco na vitrola rodava. Era Vinícius, no seu “Samba em Prelúdio”. Estava com o olhar baixo, de forma que não pude apreciar a já sabida beleza da cor dos  seus olhos. Vertiginosamente, a imagem se desintegrou num tal violento golpe de realidade, que fez arder meus olhos. Tanto ele, como seus olhos, de que tanto gosto de falar, estavam imersos na poesia de Vinícius, deixei-os.

Saí dessa película com as crianças gritando lá fora, com o “Samba em Prelúdio”, com a condescendência da minha própria mente em matar saudades numa mistura prazerosa do que eu adoro, saí com a tristeza de não ter podido ver seus olhos. Saí e, durante todo o dia, fiquei com esse teatro demente impregnado na mente, sem saber o significado do vapor d’água, da ária, do Vinícius, da praça e da vitrola, sem apreciar o azul profundo e denso desses olhos aluados. As crianças devem ter descido ao parque da praça e gritado sua felicidade.


"Ah que saudade
que vontade de ver renascer
nossa vida"

(...)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sobre Solidão


Era um rio plácido, corria manso, límpido e foi nele que me joguei. E senti a água fria envolvendo meu corpo, numa frieza que faz sofrer os ossos, mas apraz a alma. E não importava se havia luz: a água do rio me arrastava, eu ia de um lado a outro, aceitando numa  calma de quem nada teme do mundo o chacoalhar que a água me irrogava. As flores fizeram-se ser ouvidas pelo cheiro, pela sua alma latente. Eu pisei em terra, sujei-me da lama e me deitei sobre a margem do rio. Um refúgio não mais incólume; um refúgio cansado de tanto proteger, cansado de se sustentar. Não havia viv’alma, nem olhos, bocas, porque se se tem tudo isso, não se tem mais paz, não se tem mais o direito de inexistir. Despi-me de essência, cuidado, brio, vaidade. Despi-me de próprias roupas. E, um pouco mais à frente, nem sei mais onde, estendiam-se os mares de morros, as minhas vulgares montanhas. E meus olhos se impressionaram com a beleza das nuvens. Os meus personagens não têm nome: são todos refrações do próprio ente que, mais do que nunca, desconheço em ideal, propósito de existência, personalidade e caráter. Os pássaros fizeram-se ser ouvidos pelo seu canto edenizado, bem como o vento que soprou as árvores, embevecido da natureza virginal, do ânimo desobrigado e da Solidão idílica. De nada adianta pegar da pena, porque penas e cartas e apelos e gritos e pedidos são mudos e perdidos em Mundo. Eu me senti cansada antes mesmo de subir a minha montanha vulgar. Mas eu subi. De lá de cima, eu pude vislumbrar o meu rio, pude sentir a claridade, o calor, pude observar as nuvens sem deturpações.  Eu me concentrei nos passos, observei cada pedregulho, cada gramínea, senti cada mialgia, cada sede, cada orgulho, cada escarpa. Sob a sombra da Solidão, eu fechei e descansei meus olhos. Depois me preocuparia com a descida. Desobriguei-me sem sombra, sem água, sem certeza de sucesso. Desobriguei-me somente com a aceitação.