“O dia amanhecia cinzento. Fiquei um bom tempo olhando para o teto
do quarto antes de levantar. Descobri-me enfarado de escrever. Há três dias
enfurnado em casa, acordando às 6:00, escrevendo até as 18:00, sem parar.
Tocava piano, comia qualquer coisa e das 20:30 às 23:00, eu contribuía para o
esgotamento do estoque dos vários Louis XIII que tinha em casa. Precisava sair
do apartamento, senão, ou ficava louco ou morria de esgotamento cerebral. Fui
ao banheiro: meus olhos verdes emoldurados de um cansaço escuro, um sorriso
verdadeiramente feliz despontando de sob aquela barba imensa. Eu também
precisava de um banho. Confesso: não havia tomado nenhum banho naqueles três dias.
Escritores, quando obsessivos por uma obra, beiram à loucura. E eu já tinha
essa predisposição. Eu peguei a lâmina de barbear e molhei todo meu rosto,
espalhei o creme de barbear, passei a lâmina cuidadosamente. Observando-me
melhor no espelho, os cabelos negros e bem cortados estavam imersos numa
oleosidade indisfarçável. Entrei para o banho. Não percebi quão sujo eu me
sentia até sentir a água quente batendo no meu corpo. Ensaboei-me três vezes,
corpo inteiro. Esfreguei meu couro cabeludo sem dó. Finda a liturgia, saí.
Finalmente limpo, enxuguei-me. Pus o meu suéter preto, uma calça de brim cinza.
Estava caminhando pela rua, em direção ao ponto de ônibus em
frente à chocolataria. Pensava que os meus dias intensos debruçados sobre a
máquina de escrever não tinham me rendido muitas páginas úteis: chuto umas
trinta páginas, no máximo. Sim, eu escrevo à máquina. Elas são uma paixão.
Tenho três disponíveis em casa e mais quatro dentro de uma caixa de vidro que
mandei construir especialmente para elas, a fim de que pudesse admirá-las. Sim,
eu levo as minhas paixões a sério. Chegando ao ponto de ônibus, vi que ele
abrigava, pelo menos, uma dezena de pessoas. Por isso, concluí que deveriam ser
umas 6:00. A linha que eu iria pegar era a do centro. Eu tinha carro, mas
gostava de andar de ônibus, principalmente quando o destino era o centro: eu,
relutantemente, descobri que, lá, era o valhacouto da minha inspiração, por
mais que não acreditasse em inspiração. O povo estava abatido, e a minha face,
apesar do cansaço, era um claro contraste daquele abatimento. Quando vi o
ônibus cheio, logo desisti de ir ao centro. Segui caminhando, toda vida, pela
rua da farmácia. Quando cheguei à esquina, encontrei meu ex-professor, Adelmo,
com sua característica maleta, seus óculos aro de tartaruga, sua calça até o
umbigo:
- Professor! Quanto tempo, como está o senhor?
Olhou-me por uns segundos, antes de se lembrar de mim:
- Rapaz! Sim, já faz algum tempo, uns dois anos? Como está você?
- Bem, senhor. O que faz aqui?
- Somente caminhando. Hoje, vou dar a última aula antes da greve.
- Greve?
Fomos andando por toda a avenida, enquanto ele me contava dos
bastidores da faculdade. Adelmo sempre foi pontual ao extremo. Por isso mesmo,
faltava mais de uma hora e meia para sua primeira aula: viva os ingleses, o povo mais pontual do mundo! Estava morto de
fome, então pedi que parássemos na Doces
de Portugal. Sentamos nas mesas. Enquanto eu devorava um bolo de fios de
ovos, ele me contava no que o governo estava transformando as federais:
- Estão sucateadas. Alunos cada vez mais incapazes conseguem
entrar, não sei como isso vai se resolver. Todos os professores estão
desesperados.
Não sei por que motivo, disse:
- O povo está abatido.
Adelmo aquiesceu, olhou-me longamente e acendeu um cigarro, velho
hábito seu, e perguntou:
- E você, rapaz, o que anda fazendo?
- Escrevendo, senhor.
Sorriu-me:
- Sobre o quê?
- Uma obra feliz, entende? Quero escrever a primeira obra feliz
desse mundo. Não é uma comédia. Uma obra que, quando as pessoas terminem de ler,
não se sintam pesadas, mas também não se sintam Leves. Que elas se sintam
libertas, felizes... Pelo menos, é esse o objetivo.
- Você sempre foi um sonhador. No entanto, meu melhor aluno.
- Precisamos sonhar com alguma coisa, afinal. Aliás, mesmo
inconscientemente, estamos nos anestesiando da realidade, mesmo que por alguns
segundos. Se a vivêssemos intensa, como verdadeiramente ela é, não hesitaríamos
em tirar nossa vida.
- Quando a velhice bater às suas portas, diga-me se vai sonhar com
alguma coisa.
- Ah, a velhice! Tão, permita-me dizer, erroneamente preconizada
pelos poetas como o início da amargura do ser.
- Acho que isso é imutável, meu caro, até para um sonhador como
você.
- Certamente, uma mentira vira verdade de tanto a repetirmos. As
pessoas, quando velhas, deveriam ser mais felizes. Que solidão, o quê!
Abrace-a. Faça dela sua principal companhia.
Eu ficaria feliz em ver quanto eu já vivi, quanto eu aprendi. A solidão
não seria nada perto disso. O problema é que o ser humano nunca faz balanços:
sempre toma como totalidade o lado ruim das coisas, quer carregar o mundo nas
costas. Pretendo ser um velho diferente, se eu chegar lá...
- Não fale asneiras, eterno sonhador. Gostaria de ler o livro,
quando sair. Lembra-se quando escreveu um ensaio sobre a felicidade, num
trabalho da faculdade? O melhor que já li. Lembro que leu Ernest Hemingway,
Henry Thoreau, Charles Dickens, tudo para saber em quê não se inspirar/ adotar,
para que o ensaio sobre a Felicidade fosse feliz, não melancólico. Perfeito.
Leu de tudo que poderia ler.
Desatei a rir, tinha levado dois meses preparando o ensaio, com a
mesma obsessão que, agora, dedicava à minha obra. Depois, disse-me:
- Ora, jurava que tinha virado professor.
- Não tenho paciência para
esses acadêmicos imbecis que pontuam como orangotangos, sem perspicácia de
estilo, sem interesse pelo impacto literário. Aliás, são uns verdadeiros
analfabetos literários. Realmente, professor, reconheço que o senhor irá para o
céu! Os acadêmicos dessa geração são verdadeiros macacos!
- Confesso que não posso deixar de concordar!
Adelmo gargalhou. E eu, por conseguinte. Em seguida:
- Como faz para viver, então?
- Escrevo vários artigos para diversos jornais e revistas, além de
vários argumentos para a TV. Só esse ano, acredito eu, fiz 10 argumentos.
Artigos incontáveis. De vez em quando, arrisco-me a escrever novelas. É claro
que, como escritor, tenho que me prostituir intelectualmente, mas eu me redimo
com outras obras. Há um saudável contrabalanço.
Conversamos longamente e, naquele dia, Adelmo perdeu seu horário pela
primeira vez. Depois da minha conversa com o professor, num arroubo nostálgico,
visitei meu antigo colégio que ainda fazia o mesmo sucesso de antes. Inúmeras
aprovações nos cursos mais concorridos. Continuavam marqueteiros como sempre.
Um banner na entrada. Meu irmão sempre diz que eu fui uma grande decepção para
o colégio. ‘Você era bom em tudo.
Professores de Biologia te empurravam para a Medicina. Os de matemática e física
para as Engenharias. Os de Química para a própria Química e para a Engenharia
Química. Somente os de Português ficavam neutros. Já sabiam o que você
escolheria’. Eu permaneci na frente do portão, do outro lado da rua, enquanto
todos os alunos chegavam. Dei o bom-dia a todos eles. Inclusive a uma
ex-professora minha, que já tinha os fios da cabeça prateados. Acho que ela não
se lembrou de mim. Gostei daquele momento em que permaneci invisível e
esquecido do mundo. Reparei como a rua do colégio era bonita. Inclinada, era
cheia de árvores e, pela manhã, o sol derramava um lírico dourado pelas folhas
caídas pelo chão, que o vento levantava com uma brisa leve.
Cheguei à
minha casa no início da noite. Descobri-me sozinho e abracei a solidão. Abri
meu último Louis XIII, bebi-o todo, enquanto tocava piano, escrevia e, pela
primeira vez, cozinhava. Era madrugada quando caí na cama, sentindo o cansaço
de um corpo que andou o dia inteiro. A Felicidade me acolheu em seus braços, e
eu dormi. Um ermitão feliz e sonhador.
E sorri-me com esse pensamento."
