quinta-feira, 29 de novembro de 2012

desses dias de cárcere


 zumbe-me do canto da sala um mosquito inadvertido pousa no granito frio enquanto aquecem-me lágrimas de teus olhos caídas quentes e salgadas da dor que não apazigua mas se faz entender   nossa miséria prolixa o mosquito vem chegando perto a enxurrada me cai nos ombros e na janela arrastando-me para o insólito a voz tremula nada nos esclarece a nós o mosquito continua a zumbir  tento acudir nos meus seios saliva de lamúria inquieta e raivosa absorta na negridão dos teus olhos escorro junto aos humores que te saem dos olhos e da boca como a própria excreção tu em  perdição  mal te conheço e já me perturbas tanto que me dissolvo infinita em teu pranto  .


terça-feira, 27 de novembro de 2012

elegia de ímpios


mares negros salgados arrostam a chuva estala sobre o toldo de ferro arrostam grandes e profundos mares negros cheios de sal despejam-se e misturam-se junto a chuva arrasta-se para a sarjeta contínua espera janela quebrada d’alma esgueira  escuro acolhe bruxeleia esperança mas sobrepujante dor que me cai dos mares negros salgados dos teus olhos famintos de furor

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Bastará


Chegou arrastando os pés. Tinha uns olhos inchados de tanto dormir, o espírito, no entanto, sempre cansado, assinalando, na face, algumas rugas ao entorno dos olhos. O chão, áspero, em contato com aquele andar mole, produzia um farfalhar de lixa, frio e distante. Arrastou a cadeira, dependurou a bolsa, sentou-se. Dizia-se exausto, doente, prostrado, desanimado, desrespeitado: o que é que havia mesmo era que estava morrendo. Seu rosto mais estreito, emagrecido. As bochechas, os braços, as pernas flagravam-se em uma ligeira flacidez de preocupações, falta de tempo, cuidados, muita bebida e fumo, que lhe escureceu a pele e os dentes, deixando cheiro de nicotina em mãos amarelo-doentes. Esperava, debalde, um alento externo que lhe inspirasse vida.

A sua camisa azul estava amassada, cheia de respingos de gordura, com um cheiro de ranço e traça. E o cabelo mal cuidado assemelhava-se ao dos pedintes a quem havia concedido esmola para as drogas: distribuição de renda. A calça estava com uns torrões de terra na barra, na região das nádegas e próximo aos bolsos.

Demorou-se na cadeira, puxando assunto, esperando, como sempre, o alento. Como não viesse, levantou-se. Quase tropeçou no cadarço desamarrado: expeliu, pois, impropérios. Culpa de sapatos ou das pedras que neles se encontram.

“Está mais triste que fora outrora...”

Sucedeu que, num dia de chuva pesada e relampejosa, encontrou seu alento, após copos de bebida, desperdiçando lágrimas na sarjeta, com diagnóstico de hipertensão, colesterol alto e de angústia aguda e insolúvel.