“Encarava-me acintosamente.
Por um momento, tive vontade de lhe esmurraçar aquela cara irônica e ácida.
Parei, reparei em seu rosto. Ele continuava olhando descaradamente. Resolvi,
então, cumprimentá-lo: baixei a cabeça, cordialmente, como que aquiescendo. Com o mesmo gesto, ele respondeu. Definitivamente, era uma
figura pitoresca: uns olhos azuis densos, que, muito provavelmente, perdiam-se
em insanidade, o rosto maltratado de olheiras, os cabelos dum castanho claro,
as sobrancelhas quase inexistentes de tão claras, os cílios armados; suas
roupas não possuíam uma combinação harmônica: um blusão azul, com alguns
rabiscos, uma calça jeans surrada...sim, é certo, trazia certo enleio implícito nos gestos e, até mesmo, no olhar louco. Pude reparar, então,
quando da volta da minha lucidez, minha própria imagem: não havia sujeito
algum, além de mim e meu reflexo no espelho. Céus, como estava idêntico ao meu
pai.
(...)
É triste lembrar-me de
meu pai nos seus últimos dias de vida. Morreu aos poucos, ficando cada dia mais
dependente: limpavam-lhe, davam-lhe de comer, barbeavam-lhe. Não era em nada
parecido com aquele homem de outrora que tanto trabalho havia dado à minha mãe:
um mulherengo nato. Posso dizer que dele herdei os olhos azuis, sua paixão
incontrolável pelas mulheres e sua maneira hiperbólica de expressar opiniões e
agir. Nunca o conheci, intimamente falando. Durante nove anos da minha vida,
não o vi: partiu em suas aventuras, deixando a mim e a meus irmãos sob os
cuidados de uma contrita e amarga mãe. Como estava parecido com ele! O rosto
macilento, a barba hirsuta, o desleixo com as roupas. Estava começando a
engordar...
(...)
As minhas memórias são
turvas, sim, e pouco me lembro de meu pai, mas, na última vez em que estivemos
juntos, antes de ele morrer, ele me falava, enquanto olhava para as coxas da
enfermeira que dele cuidava, que ‘mulheres, ah!, meu filho, mulheres!, sempre
que tiver uma oportunidade, faça-as sorrir para você!’. Depois disso, pouco me
lembro; a loucura, em toda sua potência, havia se apossado de mim, das minhas
memórias, desfigurando-as, transformando-as, fazendo de mim um eterno perdido
em própria existência.
(...)
Nunca amei uma mulher:
uma volubilidade indomável, que, ao menos, supre meu sentimento covarde, extingue o meu medo de solidão e abstinência sexual. No último ano, conheci uma que se mostrou
interessante,num extenso complexo emocional, profundamente entrópica, tal qual Clarice Lispector...
- O senhor já quer fechar a conta?
E permaneço obscuro, tal qual o nosso protagonista de Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos. As semelhanças são deveras significativas."