domingo, 29 de abril de 2012

Das intertextualidades dessa vida


“Encarava-me acintosamente. Por um momento, tive vontade de lhe esmurraçar aquela cara irônica e ácida. Parei, reparei em seu rosto. Ele continuava olhando descaradamente. Resolvi, então, cumprimentá-lo: baixei a cabeça, cordialmente, como que aquiescendo. Com o mesmo gesto, ele respondeu. Definitivamente, era uma figura pitoresca: uns olhos azuis densos, que, muito provavelmente, perdiam-se em insanidade, o rosto maltratado de olheiras, os cabelos dum castanho claro, as sobrancelhas quase inexistentes de tão claras, os cílios armados; suas roupas não possuíam uma combinação harmônica: um blusão azul, com alguns rabiscos, uma calça jeans surrada...sim, é certo, trazia certo enleio implícito nos gestos e, até mesmo, no olhar louco. Pude reparar, então, quando da volta da minha lucidez, minha própria imagem: não havia sujeito algum, além de mim e meu reflexo no espelho. Céus, como estava idêntico ao meu pai.
(...)
É triste lembrar-me de meu pai nos seus últimos dias de vida. Morreu aos poucos, ficando cada dia mais dependente: limpavam-lhe, davam-lhe de comer, barbeavam-lhe. Não era em nada parecido com aquele homem de outrora que tanto trabalho havia dado à minha mãe: um mulherengo nato. Posso dizer que dele herdei os olhos azuis, sua paixão incontrolável pelas mulheres e sua maneira hiperbólica de expressar opiniões e agir. Nunca o conheci, intimamente falando. Durante nove anos da minha vida, não o vi: partiu em suas aventuras, deixando a mim e a meus irmãos sob os cuidados de uma contrita e amarga mãe. Como estava parecido com ele! O rosto macilento, a barba hirsuta, o desleixo com as roupas. Estava começando a engordar...
(...)
As minhas memórias são turvas, sim, e pouco me lembro de meu pai, mas, na última vez em que estivemos juntos, antes de ele morrer, ele me falava, enquanto olhava para as coxas da enfermeira que dele cuidava, que ‘mulheres, ah!, meu filho, mulheres!, sempre que tiver uma oportunidade, faça-as sorrir para você!’. Depois disso, pouco me lembro; a loucura, em toda sua potência, havia se apossado de mim, das minhas memórias, desfigurando-as, transformando-as, fazendo de mim um eterno perdido em própria existência.
(...)
Nunca amei uma mulher: uma volubilidade indomável, que, ao menos, supre meu sentimento covarde, extingue o meu medo de solidão e abstinência sexual. No último ano, conheci uma que se mostrou interessante,num extenso complexo emocional, profundamente entrópica, tal qual Clarice Lispector...


- O senhor já quer fechar a conta?


E permaneço obscuro, tal qual o nosso protagonista de Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos. As semelhanças são deveras significativas."

sábado, 7 de abril de 2012

Demens Beatitudo

Quão agradável é sentir, só, a brisa na face! Quão delicioso é ter somente a mim como companhia! Miro, com enleio, as nuvens, seu movimento, suas formas, sinto-me feliz. Felicidade insana! Felicidade exclamativa, aberrante! Perfunctoriamente, declamo, sinto, impo a mais perversa das felicidades, a felicidade insana, pungente, alígera...
 É fremente, agradavelmente fremente. É estranha, quase uma alucinação, por isso, insana, insana felicidade... “Ecce beatitudo”, bem ali, dobrando a primeira esquina, “ecce beatitudo” na morfologia das nuvens, na doçura das palavras, na abstração das cores. Ecce beatitudo no doux particular! Quão extática é a sensação de deleite exclusivo das coisas, das sensações... poder saborear cada partícula de vida sem o incômodo, sem a partilha egoísta; imaginário factual, febroso, incríveis e rutilantes estrelas, espirais deleitosos de noite, canela, creme, rosas e copos-de-leite e lima...
Ah!, Esse tão heteróclito outono, tão pavorosamente tentador, tão...doce, tão sedutor, meu “doux” único e exclusivo! São tais desconexões, tais desvarios, tais desenhos e refrações e lubricidades que fazem a vida e a minha loucura... Sinto o bater elástico recrudescendo a cada segundo, a permanência do improferível “dulcis”, do tolo, da felicidade abobalhada: nostra culpa!
Ecce mea demens beatitudo! Quantas tolices. É irremediável, agora.

domingo, 1 de abril de 2012

1º de Abril

A negação de proposições torna-se muito interessante agora. Se P é verdadeiro, não P (~p) é falso. Se P é falso, não P (~p) é verdadeiro. A negação de uma negação é uma afirmação.Nesse contexto, observa-se que:
É mentira que não quero distância;
É mentira que desejo a quentura dos teus lábios;
É mentira que quero o prazer silente;
É mentira que gosto de compartilhar a noite com teus sentidos;
Mentira ainda maior que quero observar as estrelas em tua companhia;
Mentira que quero dividir meus sorrisos;
Mentira que o ar quedo e quente da noite me faz apreciar mais os acontecimentos;
Outra mentira é que eu desejo logo voltar, que eu desejo logo regressar, reaparecer;
Mentira que eu quero ficar presa nestes indecifráveis e duros olhos;
Mentira que quero ver-lhe todos os dias;
Mentira que agora, nesse exato momento, nessa mesma noite infinda, eu esteja me sentindo incontrolavelmente feliz;
E é mentira que eu te amo, mentira que eu te amo muda.
                                          [Já no ápice do sensorial, é mentira que encontrei no prazer mudo a maior fonte de felicidade]