sábado, 6 de abril de 2013

Cidade


O povo está tão perdido, tão anônimo. Está tão triste, chorando a seco. O povo está sem lágrimas para chorar suas infinitas desgraças. Está também desdentado e sem dinheiro. Estão todos se embebedando numa terça à tarde, morrendo num assalto, num estupro no domingo seguinte, de câncer em corredores imundos, morrendo por um tudo, que é nada, morrendo até por saber demais.
A cidade está cinzenta, e nuvens igualmente cinzentas se arrastam, recobrindo a cabeça das crianças sem infância; os burros de carga são movidos pelo tilintar dum metal sujo, são chicoteados à aleatoriedade dos humores, das políticas. As ruas estão muito sujas e sem garis. Estão todos morrendo de câncer. Ou estão doentes hipertensivos, deprimidos, egoístas ou saudosistas.
Era uma coisa muito escura, muito sem fim, o ônibus à frente chacoalhava nas ruas esburacadas. Era uma coisa muito escura, muito sem fim, muito sem saudade, era uma coisa muito combalida. As ruas estão muito sujas e sem garis e sem iluminação. Os bares estão muito vazios, muito sem gargalhadas, muito sem música. Os dias estão muito solitários, as noites, muito aterrorizantes de fantasmas passados e monstros futuros. Os doces estão muito sem doce, as bebidas muito sem álcool, as festas muito sem alegria, as conversas muito pouco significativas, a companhia muito sem presença, e a solidão muito sem ausência.
Era uma noite muito escura, assim sem postes de iluminação, com luzes de farmácia e nada mais. Era uma noite em que uma prostituta defecava num beco, que muito bem iluminava seus dejetos e excreções. É uma noite muito escura, muito sem estrelas.
E lá fora foi ficando parecido com aqui dentro: e nós somos o nosso próprio epicentro.