quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sem Pauta

Olhando para a janela, a chuva ainda cai
Olhando para o chão, os arranhados de outro dia
E, assim, as mãos passavam mais uma página
E os olhos já caíam também, ébrios de palavras
Enfarados de linhas fátuas, ansiando por serem surpreendidos
Que guarda aquele espírito só?
Com memórias empoeiradas, de olhar turvo, feição longínqua?
Fechou os olhos.
A chuva parou.
Lá fora, os pássaros voam ao redor dos prédios,
O vento chicoteia os transeuntes,
O tempo urge chamando o início de noite.
E todos eles são vistos por outro olhar,
Assim de alheamento, assim de indiferença, assim de científico, assim de crítico, assim de criterioso.
Olhar diverso daquele outro que agora está fechado, inerte sob as pálpebras adormecidas  e frias. [de uma Sem Pauta]


sábado, 3 de dezembro de 2011

Satisfações à Grei

Vento seco, ânimo enfarado, jardim enfermo. Mais algumas parcas lágrimas sendo desperdiçadas ao sabor das desilusões. Céu muito azul, de nuvens dispersas: contraste ao ente. Entidade primitiva, anacrônica, conceda-me o perdão! Descrição do ser: entropia espiritual e mental, debilidade física.  Mais escassa do que a esperança, somente a palavra.  Seio maternal, acolhedor, versado em julgamento criterioso da probidade alheia, conceda-me o perdão?
A andar um pouco mais- somente uma observação- o céu torna-se mais semelhante ao espírito do massacrado. São muitos os grilhões para pouca existência. Candidez, agravadora da impotência do massacrado, desaparece, pois não é bem vinda. Malogro, fique, para que alerte os sentidos.
Ainda a andar por esses estreitos e tortuosos caminhos, em algum momento, o ente é excluído, a luz pisca fracamente, não quer tornar acesa. Junto a ela, esvai-se também todo o ardor e, assim, definha cada parte do ser. Onde está aquela necessidade insopitável de soberania da vida sobre a exclusão límbica? Perdeu-se em alguma encosta, em algum vale, ou até mesmo naquele jardim mofino.
O Derrotado, ou o assim rotulado, ao final de seu percurso, somente ao final, baixa a cabeça, não por desistência, não por consentir seu rótulo; ele baixa para retirar os grilhões. Torna a erguer a cabeça e olha o céu, reflexo de seu espírito, assim todo despedaçado, assim todo calejado, assim todo com ar de tempestade encerrada. Ele olha o céu, ar pueril, assaz leve. O vento cálido beija sua face; experimenta a leveza por um “instante-já” (permitam-me este furto). É final de percurso.
Satisfações à Grei: tu és câncer moral, físico e espiritual e aquele a quem consideras um Derrotado, nessa restrita realidade terrena, essencialmente fátua, é, na verdade, um Vitorioso.