quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Aliquid de Infelici

Num dente de leão, encontrei felicidade já ausente,
Naquele prazer silente
Naquela dispersão das mais leves sementes,
Fazendo daquele ritmo balouçante uma música,
Música de doçura estática,
Numa simplicidade verdadeiramente recatada
Encontrei o nada dolente, que, insistentemente,
Fazia-se eterno consciente [e, num louco desespero]
Obliterei todos os sentidos
Que tanto se colocavam anvidos [antes estavam num estado prócero]
Agora estão alígeros, numa lepidez constante
E meu verdadeiro desejo é que assim fiquem,
Com rútilo de tristeza,
Com toda aspereza,
Com bastante crueza,
Sem nenhuma Leveza.



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

História de Amanhecer

Nunca inveterada poetisa,
Mas aquiesço que essa história de “o entardecer” é pura falácia;
Porque a felicidade vem é no amanhecer, na febre corporal dos amantes
Que têm o sol ainda esquentando o acalentar dos gestos [doce ária do amor]
Sol que novo, que embebido com o curioso sentimento, [sendo este fescenino ou não]
Que pode ou não ter sido obliterado por muito tempo
Torna-se refúgio incólume, protegendo tanto sentimento [seria pura ilusão?]
Que pode trazer tanto tormento, tanta aflição
Entardecer é o cenário dos fins, onde se abrigam as tristezas
Onde se refugiam os recalcitrados, os solitários [no mirante, ao final da tarde, só eles são encontrados, nunca um casal de enamorados]
Que recolhidos na sua intrínseca reflexão
Perdem-se em sua constante e divagante alienação
Nego todo o lirismo que se afirma no entardecer,
Pois sua origem, na verdade, é no amanhecer
Nesse, que nada pode se conceber
Além da doce alegria de viver amor
Este que nasce do nascer        
Do primeiro inócuo raio dourado, que, assim como gente, ao nascer, é ingênuo, belo e imaculado
Então, num silogismo entrópico [porque o próprio amor o é], as melhores histórias são
As histórias de Amanhecer
Então, para que, eu me pergunto, para que é o Entardecer?


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

De sob a macieira, um ensaio sobre a leveza

Sob aquela mesma macieira, daquele outro Amanhã, a leveza lhe alcança, paira ali, logo diante dos olhos e se alonga preguiçosamente nos músculos, nos pensamentos. No horizonte, o eterno brilho do amanhecer. Porque o amanhecer lhe dava uma boa sensação, com aquela brisa meio fria, meio quente, balouçando de leve os frutos, os fios de cabelo. E, naquela cor rosada, iluminada, o consolo, o desaparecimento do Peso. Os pensamentos eram excludentes. O medo da perda do monopólio do amor já havia desaparecido. Logo em seguida, foi a fome. Não que não se sentisse mais fome, mas a verdade era que começava a se alhear a ela. Havia ainda a afirmação (dos pessimistas) que era o Peso quem conferia significado à vida. Mas, na verdade, o que implica esse Significado?
Subentende a infelicidade ou é a Leveza que subentende a felicidade? Tal como o hélio, divagações e devaneios subiam e se perdiam no nada, naquele balouçar das árvores, naquele horizonte decadentemente iluminado. A grama estava fria, meio molhada, devia ser o orvalho que nasce na madrugada, filho do frio e do vento.
Mas a Leveza também valia à pena? Ser alheio, indiferente, desapegado aos compromissos, manipulador do amor... É válido e subentende a felicidade ou subentende apenas a sobrevivência emocional?
Mas a Leveza é tão atraente... Olha com olhos tão singelos, bondosos, fornece-nos refúgio incólume do Peso, que tanto nos prende em pesadíssimos grilhões.
 O pouco que se lembrava era aquele outro amanhã, pautado pelo ar quase ascético, pela ausência da dor e da Dor, do pranto, da fome, do cansaço, do sono, da infelicidade, da felicidade... O horizonte dourado abrangia cada vez mais o resto do azul frio, sem nenhuma nuvem, o sol fazia os olhos e a mente se fecharem naquela eterna dicotomia.
Porque Leveza é a ausência do Peso e o Peso é a ausência da Leveza; por isso, tanto Peso como Leveza são insustentáveis para o ser.