segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Naquel'outra Noite


Foi entorpecimento de tristeza, de ausência tua, de falta de ti deitado sobre o meu seio, quieto, meditabundo, engendrando recônditos planos de amor; deslizando a face sobre a pele, esquivando-se de pensamentos e memórias, molhando-me de lágrimas cáusticas e de fel. E, da tua ausência, a mim, rapaz, restou-me pés gelados que enfiei sob as cobertas, que outrora eram a quentura de um corpo caloso de abandonos, desprezos e renúncias; ausentaste-te.

Rapaz, naquel’outra noite, que não teve samba nem chorinho, as horas passaram arrastadas. E eu furei meu dedo no espinho das rosas da sala. E lembrei-me também que, com esse teu jeito de petiz, eras um bom conhecedor da arte culinária e, sendo assim, adoravas fazer ovos mexidos, camarões e sopinhas depois dos nossos acaçapados gaudérios!

“Tudo pisado, tudo partido, tudo, no chão, jogado”

E atravessaste a rua apressado, aprumado, passando a mão na cabeça, seguindo pela nuca, oscilando de um lado a outro, num molejo de dor. Virou à esquerda. Ausentaste-te. Levou uma garganta seca e rouca, uma dor de ouvido, um resfriado. Deixou-me com a navalha, os tapetes molhados e aroma de colônia. Partiu imberbe; mas, antes, fez-me escutar da tua boca este favo de canção:

“Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor...”

Pois foi que o velho passou, virou à esquerda. E a flor, rapaz, a flor ficou, na janela, olhando-o dobrar esquinas, desaparecendo e reaparecendo pelos quarteirões, na sombra dos prédios, nas torres de rádio da serra, nos faróis dos carros, nos sinos, nos pássaros, na luz da aurora e em espólios de amor. 

sábado, 11 de agosto de 2012

Nos últimos

Cruzou a rua apressado, costurando por entre os carros e, com olhos vívidos, encarava o rútilo violento que os faróis irrogavam sobre a sua face. Segura, bem firme nas mãos, uma sacola branca. Olhava, aterrado, as ruas, coçava a barba, que crescia impossível e hirsuta. Hirto e imperioso passava a mão nos cabelos, descendo até a nuca. E repetia essa liturgia enquanto andava açodado. O céu se enegreceu e pesadas nuvens surgiram.

E andava tão veloz, tão despreocupado, tão displicente daquela urbanidade. Aprumado, deixava a cabeça oscilar de um lado a outro enquanto andava. E chegava perto dos ônibus e não subia. E sinalizava virar à esquerda, mas nunca virava. E cruzava tantas ruas quanto pudesse, e o mais rápido quanto fosse possível, como se estivesse fugindo de algo. E, de repente, sumiu. Não foi por entre os carros nem por entre as pessoas. Deliu-se de tal forma que não o vi mais.

E talvez tivesse seguido por aquele quarteirão, perto daquela outra praça. Ou talvez, como se tivesse escutado uns pensamentos, virou mesmo à esquerda.

Passavam as mulheres, e ele as olhava, com uma solicitude exagerada, numa correspondência às gentilezas das passantes. E a sacola batia em suas pernas, e ele sempre a olhar o conteúdo. E a bolsa pesava nos seus ombros, querendo cair, mas ele ajeitava-a. E retesava e chacoalhava o pescoço. Poderia ter passado num bar, pedido uma cerveja e, por lá mesmo, ter ficado até tarde. Poderia ter pegado o Defender branco, sertões, e ter ido ao Conservatório.

E tudo se dissolveu em Tomara, durante uma madrugada toda feita de vinho, vitrola e “a coisa mais divina/ que há no mundo/ é viver cada segundo/ como nunca mais”.