Foi entorpecimento de tristeza, de ausência tua, de falta de
ti deitado sobre o meu seio, quieto, meditabundo, engendrando recônditos planos
de amor; deslizando a face sobre a pele, esquivando-se de pensamentos e memórias,
molhando-me de lágrimas cáusticas e de fel. E, da tua ausência, a mim, rapaz,
restou-me pés gelados que enfiei sob as cobertas, que outrora eram a quentura
de um corpo caloso de abandonos, desprezos e renúncias; ausentaste-te.
Rapaz, naquel’outra noite, que não teve samba nem chorinho,
as horas passaram arrastadas. E eu furei meu dedo no espinho das rosas da sala.
E lembrei-me também que, com esse teu jeito de petiz, eras um bom conhecedor da
arte culinária e, sendo assim, adoravas fazer ovos mexidos, camarões e sopinhas
depois dos nossos acaçapados gaudérios!
“Tudo pisado, tudo partido, tudo, no chão, jogado”
E atravessaste a rua apressado, aprumado, passando a mão na
cabeça, seguindo pela nuca, oscilando de um lado a outro, num molejo de dor.
Virou à esquerda. Ausentaste-te. Levou uma garganta seca e rouca, uma dor de
ouvido, um resfriado. Deixou-me com a navalha, os tapetes molhados e aroma de
colônia. Partiu imberbe; mas, antes, fez-me escutar da tua boca este favo de
canção:
“Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor...”
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor...”
Pois foi que o velho passou, virou à esquerda. E a flor,
rapaz, a flor ficou, na janela, olhando-o dobrar esquinas, desaparecendo e
reaparecendo pelos quarteirões, na sombra dos prédios, nas torres de rádio da
serra, nos faróis dos carros, nos sinos, nos pássaros, na luz da aurora e em
espólios de amor.