sábado, 1 de junho de 2013

Breve estória sobre um herói de barro

De onde o nosso protagonista veio, ninguém nunca soube. Talvez dum sertão distante, onde faz muito calor; talvez dum pantanal úmido e fétido. Sabe-se lá. Uma tez cor de cobre, com esquisitos e predominantes sulcos de acne. Tinha um olhar de índio traiçoeiro, bem repuxado no canto dos olhos, pequenas fendas ao menor sorriso – que fazia contorcer de tal forma a face, que poderia achá-lo em uma dor lancinante. Talvez tivesse vindo como um retirante: grandes trouxas de roupas às costas, parado em uma rodoviária escura, estranha e indiferente às grandes esperanças que o nosso herói trazia; esperanças que eram seu único, mas potente alimento. Talvez tivesse sofrido muito com a seca ou com o alagamento. Ninguém nunca soube.

Fez seu Ensino Médio naquele colégio público, à época, o melhor. Isso, isso, esse mesmo, centrado no meio da avenida. Foi vermelho do coração, eterno militante, devoto ferrenho do social, perseguidor dos progressistas, amante dos hipócritas – que exilados, transformaram-se em grandes mártires de um período deveras obscuro. Levantou muitas faixas, marchou demais. Levou muitas pancadas de cassetete, encomiava-se das marcas. Como bom vermelho que era, um modelo do puxa-saquismo de sobrevivência. Bastante ardiloso, sabia transitar pelos dois lados: o vil metal, caros. Pateticamente, transformava o trabalho em instrumento de politização, numa grande Inquisição, em que se caçavam as bruxas: que eram quase todos. Recalcado que era, verdadeiro mestre nas maldades finas. Muito ensinou a uns poucos ingênuos – idiotas o suficiente para se importar com qualquer opinião emitida – o silêncio de convenção e o outro lado da crueldade humana. Como bom vermelho que era, um contraditório. Discursando e condenando o período mais “obscuro da história destepaiz”, em pequena escala, fazia e ensinava exatamente o condenado: o silêncio de convenção e a crueldade em prol do estabelecimento de uma ideia pífia.

Como todo bom vermelho, dado a falsos intelectualismos. Desconhecia a maior parte do que, supostamente, deveria conhecer. Mas era muito ardiloso, todo sorrisos amarelo-falsidade. Enganou muita gente, durante muito tempo, muito inacreditavelmente. Engabelou gente de bom coração, boa índole, enganou gente inteligente, muita gente sem maldade.
Como o nosso herói era ardilosamente ardiloso, nunca foi pego, nem ensinado. A vida tampouco se importou: deixou-o escapar incólume.