Um ser de natureza complicada, de difícil entendimento. Irritadiça, talvez ousada demais. E não é preciso mencionar sua arrogância magistral. Tem a consciência de seu extremo atraso espiritual e, devido a isso, até se torna um ente suportável, convivente. Seus períodos de decadência são os piores: sente-se no fundo de um poço que não tem saída, nem luz, nem ar... Custa a sair dele e, quando sai, retoma a sua indecisão nata. É obsessiva com alegorias e enigmas humanos. Nega com todas as suas forças seus ciúmes doentios. Antes que eu me esqueça, essa criatura também ama e o amor dela, apesar dos ciúmes loucos, é uma das poucas coisas agradáveis em sua natureza: é um sentimento sincero, preocupado, observador, intenso, luxurioso e nobre. Mas não é só o amor a única coisa agradável neste ser exótico; há também a amizade, que ela guarda com todo esmero, cuida diariamente, valoriza adequadamente e apóia fielmente. Além de tudo isso, tem certo magnetismo em seus sorrisos que até podem ser chamados de carismáticos. Quando está feliz, quase se explode, fala alto, fica rubra, parece uma louca! À primeira vista, por certas falas, pode parecer elitista, radical, até preconceituosa, mas, na verdade, esta criatura é tão singular em suas falas, em seus defeitos, em seus gostos, que só se conhece sua verdadeira identidade e seus verdadeiros ideais quando se aproxima, cautelosamente, pois sua desconfiança com relação a seres humanos é unânime, não há exceções. Não se chateia fácil, mas vive em extremos. Quando se “fatiga” de estar feliz, uma onda de melancolia e arrependimento lhe abala o coração, inundando-o de uma desconfiança e uma descrença de si própria. Logo, freqüentemente evita ter seus prazeres, viver suas paixões, justamente para não ter o arrependimento de ter sido feliz em alguma hora, para que a melancolia e a descrença não invadam seu coração como o fazem após um curto período de felicidade. Sim, eu sei que esta criatura é extremamente complicada, às vezes tão complicada que é melhor se afastar. Talvez seja por isso que ela se sinta tão sozinha, tão sem importância, tão descrente das coisas que faz, justamente pelo fato de ela própria não se entender, o que comumente acontece.
Afinal de contas, depois de tudo isto, ela não passa de mais uma criatura rastejante, asquerosa, atrasada espiritualmente, como todos os outros seres que existem no Universo.