domingo, 24 de julho de 2011

Não, não é cientificismo

Se algum dia te esqueceres de quem és, me escreve uma carta;
Se algum dia te sentires só, convida-me para uma chávena.
Quero mais que tudo, que sintas abrigo no meu peito, que te deites, te levantes e sigas - apenas se extremamente necessário- mas, mesmo assim, perfures o tempo com lembranças.
Se hoje, nestas alturas, neste clima agradável, estiveres sentado, olhando alguma paisagem bonita, que te lembres e que sorrias sozinho, que guardes nosso tesouro. Mas, se amanhã, estiveres em outro lugar, olhando para outra paisagem, se não quiseres mais te lembrar do que passou, se tiver te causado alguma mágoa, prefiro que finjas que nunca existi, prefiro que extraias qualquer lembrança.
Se algum dia te sentires injustiçado, irritado, procura-me para uma conversa.
Se algum dia tu quiseres morar num descampado, de chão de feno, de córrego aos fundos, onde sinal de satélite nenhum pegue e te sentires demasiado sozinho e perdido, chama-me e me tem como certa;
Não te estranhes se me perdi na minha escola literária; acho que tenho licença para isso.
(...)
B1
Mas se um dia essa carta, essas lembranças não chegarem, entenderei: foi o tempo, inimigo de tudo e de todos.
Se quiseres me escrever, tem resposta e sentimentos como certos.

(...)
B2
Sim, podemos rolar no feno ou trigo, podemos beijar, podemos ver as folhas de outono caírem, podemos passar primaveras com brigas, invernos com amor; Podemos beliscar um ao outro, podemos abraçar, dar chutes e socos, ver nossos reflexos no milagre da vida, podemos viver em constantes arroubos domésticos, tudo isso... Não somo Lucy e Walter, nem Elinor e Quarles, nem Walter e Marjorie. Acho que deixamos de ser plurais, embora não tenha havido mutação completa; um pouco de singularidade é bom.

(...)

Se a teoria aplicada de Everett foi cruel demais, peço-te DESCULPAS. Não há outra maneira e, provavelmente, sabes disso. A verdade é que bolhas existem, sim, mas NÓS também existimos.

P.S: (PÓS-SCRIPTUM) A loucura é demais, a arrogância é de mentira, a fortaleza é de verdade-embora possa ruir de vez em quando-, o desprezo é falso, as mãos só não são expressivas em tamanho e... A frieza passa.







terça-feira, 19 de julho de 2011

Forje (mos)

“Sabe-se de mãos que desejam, em debalde, um corpo. Mãos estas geladas, que não mudam de opinião, forjam ações, não se saciam nunca. Era pele áspera de rosto que se inicia no escanhoamento. Sentimento desvairado, que começa pequeno, cheio de antipatia e medo de ser enjeitado. Há algum sofrimento por baixo daquela pele alva, que, de certa forma, queria-se entender, mas agora já há confusão demais. Não existem dois, plurais, essenciais; existe um, que supre tudo, que se apoia.

(...)

 E se a teoria de Everett, a teoria do multiverso, de universos paralelos valesse para a trivialidade, para o lirismo, pudesse ser prática, interpretada e moldada aos caprichos humanos? Seria bom: um córrego aos fundos, uma casa, um campo deserto, um céu que traz sol na manhã e chuva à noite. Quando a felicidade se “esgotasse”, ter-se-iam atividades de campo e pesca; uma loucura, como a que se vivia no mundo real. Infelizmente os cientistas de hoje ainda não têm a milagrosa capacidade de concederem esse privilégio. Preferir-se-ia, então, a dura realidade que faz valorizar alguns segundos de fusão espiritual e corpórea? Admitir-se-ia, então, “a carne é fraca”? Em um mundo em que não se pode isolar, tal sentimento corre muitos riscos, por isso, o ideal seria que para cada pessoa privilegiada com essa loucura boa, fosse concedido um universo, a seus moldes, sem limitações.

Se aceita que se forje a luxúria juntamente com o amor; os arroubos domésticos com carinho; as vozes inflamadas com os rostos em rubor. Viva-se, então. Se não se pode criar universos paralelos, forje-os à realidade.” 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

“(...) Sem dúvidas, era uma cidade mui bela. Ou melhor, fora uma cidade mui bela. Via-se que o rio, agora todo cheio de escombros, era claro, tinha uma limpidez sem igual. Via-se que era bem iluminada, bastante charmosa. O casarão de número 13, que ficava dentro da pequena vila, agora estava absolutamente destruído. O general Izhak, perneta, com um quadrado de seda preta tampando os pontos no pescoço, agarrou, por um instante, a mão solta de algum transeunte. Os tendões se faziam cordas de marionete. Os cabelos brancos nas laterais da cabeça do general davam-lhe um ar maduro, embora não houvesse documento nenhum registrando a sua verdadeira idade.

Ele caminhou em meio a tanta destruição. Os olhos eram secos, lágrimas já não tinha mais. E tentava desesperadamente prever se aquele seria o poço mais fundo ou se seria provável uma “queda maior”.  Fugira do julgamento de crimes de guerra. Por que diabos ele, Izhak, iria para lá, afinal? Tinha sido manipulado, torturado, sacrificado família, entre outras cousas. Estava certo de que nenhum crime havia feito, não por sua parte. Único crime que ali havia era contra ele mesmo. Perdera os dois filhos, Zhenya e Adrik. Sua mulher, Alena, desaparecida. Um amigo (um dos poucos em quem confiava) lhe dissera que talvez ela pudesse ser encontrada, levando-se em consideração buscas feitas no subterrâneo da cidade, onde várias mulheres foram resgatadas vivas. Berdy, o traidor da família, agora deveria estar longe, lá pelos estreitos Americanos, buscando emprego como acionista, provavelmente. Se a morte de Alena fosse confirmada, Izhak nada mais teria a perder, então se veria livre para iniciar um plano conspiratório; a todos eliminaria com muito prazer, pelo menos, naquela região. Depois, embarcaria num navio cargueiro, escondido é claro, o tribunal ainda estaria a sua procura, partiria para a Terra Prometida e lá se faria servo da justiça e Berdy não mais existiria. Lá mesmo, se poria com uma nativa, faria gerações posteriores e poderia ter de volta o que lhe era de direito e lhe foi levado, nem que fosse à base da violência. Escorou-se no pedaço de mármore tombado, a neve começava a cair e o rigoroso inverno começava a se impor. Dentro do bolso direito do casaco de pele grossa, tirou um daqueles pequenos vidros de conhaque. Já imaginava seus futuros filhos, Nadezhda e Ondrej – os nomes de sua mãe e de seu avô, respectivamente, as pessoas que mais admirava. Nadezhda teria a tez de cobre, olhos de um verde esmeralda e seria destemida. Ondrej teria a tez vermelha, cabelos negros e grossos, olhos negros e brilhantes. Seria forte e viril e lá, na Terra Prometida, iria treiná-los como pequenos soldados. Dar-lhes-ia amor, é claro, mas não tanto afeto, para não colocá-los manhosos e/ou moleirões. Nascia ali, o sentimento mais perverso que alguém já pôde sentir. (...)” 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Quando o papel se finda branco

Quando o papel se finda branco
Era julho, provavelmente. Via-se pela cor do céu, tanto quanto acinzentada. Queria-se um chá como conforto à loucura. Queria-se aforismos, para a consolação do fraco poetismo. Queria-se anedotas, para abrir um pouco mais o fraco sorriso. Queria-se braços, queria-se lábios, queria-se almíscares quentes, queria-se um escapismo. Sem dúvida, é a repetição irritante, mas simbólica de certa solidão. Pega-se o livro na estante, só tem a ele como companhia. Colhe a flor lá fora, lembra-se que nada tem a ver com o perfume sintético e agradável. Corre-se pelos campos e lembra-se que o barulho do vento em nada lembra aquele outro, tão conhecido, quente e elástico, provedor da vida. Despreza-se ensaios, para não proporcionarem a reflexão excessiva. Alivia-se a dor cortando lenha. Depois, de alguma forma, ainda cai-se naquela cama enorme, vestida de festa, com cheiro enjoativo de orquídea e acha conforto. Ninguém sabia a face, os olhos, qualquer expressão. Depois, sem inspiração alguma, senta-se a escrever algo parecido com uma carta, mas finda branco o papel. O objetivo final estava alcançado: não mais identidade ou face, não mais singularidade, não mais sofrimento; o papel se findara branco.