O povo está tão perdido, tão
anônimo. Está tão triste, chorando a seco. O povo está sem lágrimas para chorar
suas infinitas desgraças. Está também desdentado e sem dinheiro. Estão todos se
embebedando numa terça à tarde, morrendo num assalto, num estupro no domingo
seguinte, de câncer em corredores imundos, morrendo por um tudo, que é nada,
morrendo até por saber demais.
A cidade está cinzenta, e nuvens
igualmente cinzentas se arrastam, recobrindo a cabeça das crianças sem
infância; os burros de carga são movidos pelo tilintar dum metal sujo, são
chicoteados à aleatoriedade dos humores, das políticas. As ruas estão muito
sujas e sem garis. Estão todos morrendo de câncer. Ou estão doentes
hipertensivos, deprimidos, egoístas ou saudosistas.
Era uma coisa muito escura, muito
sem fim, o ônibus à frente chacoalhava nas ruas esburacadas. Era uma coisa
muito escura, muito sem fim, muito sem saudade, era uma coisa muito combalida.
As ruas estão muito sujas e sem garis e sem iluminação. Os bares estão muito vazios,
muito sem gargalhadas, muito sem música. Os dias estão muito solitários, as
noites, muito aterrorizantes de fantasmas passados e monstros futuros. Os doces
estão muito sem doce, as bebidas muito sem álcool, as festas muito sem alegria,
as conversas muito pouco significativas, a companhia muito sem presença, e a
solidão muito sem ausência.
Era uma noite muito escura, assim
sem postes de iluminação, com luzes de farmácia e nada mais. Era uma noite em
que uma prostituta defecava num beco, que muito bem iluminava seus dejetos e
excreções. É uma noite muito escura, muito sem estrelas.
E lá fora foi ficando parecido
com aqui dentro: e nós somos o nosso próprio epicentro.
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