Pois
digo que a alma reside no não-reparado. São os detalhes jogados, despercebidos,
debochados quando confidenciados a outrem: neles, reside a alma. É por eles
que, para sempre, lembrar-nos-emos da experiência, da pessoa, seja ela amada ou
enjeitada. Não é exatamente a cor, mas a forma, o comprimento, o cheiro e o
comportamento do detalhe. É o detalhe da cicatriz no canto do olho; ou se a
nuca abriga pelos, se são arrepiados, grossos, longos. Não é a cor dos olhos,
mas é a moldura ciliar, longa e negra, pálida e inexistente; é a íris bem
polpuda, flavescente, arguta, que traz as tristezas e alegrias da vida passada
e as esperanças da vida futura, a íris que é o próprio desejo encarnado e
confesso. É também como os olhos giram nas órbitas, macios, lânguidos ou
açodados. Se giram com a música, se giram com o prazer, se atilados ou
pascácios. São as mãos – massudas, dedos grossos e unhas pequenas; ou se são a
perfeição duma mão aristocrática, dedos e unhas longas, que irrompem em puro
encanto ao gesto simples. Se o cheiro é um perfeito amadeirado, cítrico ou se é
algo como um doce obsceno e enjoativo. Se o nariz tem, em superfície, pelos
diáfanos e discretos, se ele infla imperioso ou bufante. Ainda há de
acrescentar a boca na sua tristeza, se se contrai medrosa e fina, se se
endurece, ou se um lábio se sobrepõe sobre o outro. É uma coisa de louco: se os
cabelos balançam elegantes ou desvairados, se eles têm o caimento adequado. Não
é questão da propriedade simétrica, nem da cor das bochechas: é questão da alma
captada nesses detalhes – que têm de ser guardados para próprio deleite ou
expurgados na literatura. A alma não fica perto do coração, nem nos pés; ela
reside justamente onde ela pode escapar. Escapar a olhares sonsos –
pretensamente sabidos da real beleza. E paixão é coisa estranha mesmo: é quando
vemos a alma do outro e sentimos que a Beleza – sabe, aquela mesma de Platão,
aquela que a gente experimenta antes de cá pousar e que fica gravada na tola
cabeça – mais bela que vivenciamos nos foi resgatada, como se fosse intrínseca.
Paixão é quando sabemos a alma do outro – nos seus detalhes despercebidos e
achincalhados pelos imbecis – parte importante da nossa. Confesso: estranha
criatura que sou eu, a reparar essas coisas tão bobas e insignificantes.
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